Inquérito

outubro 2016 / Inquérito / O escravo metódico

Texto publicado na edição #198

O escravo metódico

26 perguntas a Santiago Nazarian

> Por RASCUNHO

Santiago Nazarian

Santiago Nazarian: muita fé no inferno.

Santiago Nazarian nasceu em São Paulo (SP), em 1977. Estreou na literatura em 2003 com o romance Olívio, ganhador do prêmio Fundação Conrado Wessel de Literatura. A partir de então, publicou outros cinco romances adultos, um voltado para o público infantojuvenil e uma coletânea de contos. Sempre em busca de inovações na forma e no conteúdo, Nazarian descreve seu projeto literário como “existencialismo bizarro”, no qual mescla questões atemporais da literatura existencialista com cultura pop, trash, humor negro e horror. Sua obra está traduzida em vários países da América Latina e Europa e teve os direitos vendidos para cinema e teatro. Em 2007, foi eleito um dos escritores jovens mais importantes da América Latina pelo júri do Hay Festival em Bogotá, Capital Mundial do Livro.

• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
No final da adolescência eu passei por aquela fase de experimentar, cursava faculdade de comunicação e fazia vídeos, fotos, performances, tocava numa banda… Escrevia também, uns contos terríveis que eu imprimia em sulfite e distribuía para amigos, como uma espécie de fanzine literário que espero que tenha sido biodegradado. Fui percebendo que só na literatura podia fazer realmente do meu jeito, podia fazer sozinho, tinha um meio de expressão razoavelmente barato, em que eu podia me desenvolver de forma independente… O prazer que eu tinha em escrever foi vencendo todos os outros e conscientemente abandonei essas outras experimentações, vendi meus equipamentos musicais, inclusive.

Quais são suas manias e obsessões literárias?
A perda da juventude, a androginia, o fascínio pela beleza feminina no masculino, é isso que vejo tão fugazmente por aí, que tento tocar no texto, capturar no texto, tento ter algum controle sobre isso.

Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
A Bíblia… Hahaha, não, claro que não. Não tenho leitura imprescindível. Imprescindível é a vodca.

Se pudesse recomendar um livro ao presidente Michel Temer, qual seria?
Não tenho nada a recomendar ao vice-poeta.

Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Sozinho. Muito café. Boa música. Contas pagas.

Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Sozinho. Silêncio. Contas pagas.

O que considera um dia de trabalho produtivo?
Como não tenho patrão, sou metódico. Costumo dizer que “quem tem a si mesmo como patrão, tem como empregado um escravo”. Um dia de trabalho produtivo é aquele que eu me dispus a fazer. Tenho sempre metas diárias de escrita (e de tradução), seja uma página, sejam dez laudas.

O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Ah… Tudo, na verdade. Tenho muito prazer no processo de escrita… Ok, depois que encontrei a história, quando o livro está encaminhado e apenas tenho de realizar, colocar no papel o que tem de acontecer. Essa é a fase mais prazerosa.

Qual o maior inimigo de um escritor?
As vozes internas que preenchem o silêncio.

O que mais lhe incomoda no meio literário?
O formato quadrado.

Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Ana Paula Maia. É uma autora que, ao meu ver, tem o que é o mais importante: um universo próprio.

Um livro imprescindível e um descartável.
Não acredito em leituras obrigatórias, acho que cada um cria a sua. Para mim, Dorian Gray é obrigatório; biografias de bandas de rock são descartáveis, mas deliciosas.

Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Uma capa feia.

Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Samba, futebol, Rio de Janeiro.

Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
O filme trash Alligator deu a inspiração para meu livro mais bem sucedido, Mastigando humanos.

Quando a inspiração não vem…
Agradeço. E descanso.

Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Marcelino Freire. Não que já não tenhamos tomado café, vodca, vinho, mas sempre é divertido. E estou com saudades.

O que é um bom leitor?
Aquele que não escreve.

O que te dá medo?
O presente eterno.

O que te faz feliz?
Boa comida.

Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
A certeza de que ainda tenho algo a acrescentar; a dúvida de que haja alguém para ouvir.

Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Fazer diferença.

A literatura tem alguma obrigação?
De ampliar o universo.

Qual o limite da ficção?
Essa é uma questão interessante a que tenho me debruçado muito ultimamente. Recentemente discuti sobre isso quando autores de textos pornográficos foram denunciados no Whattpad por incluírem “cenas” com menores de idade. A meu ver, tudo que é ficção, produto da mente, deveria ser permitido. Porém a coisa toma contornos mais relativos quando se entra no terreno das fanfics, ou quando a ficção foca pessoas reais: eu poderia escrever um conto descrevendo como EU estuprei SUA filha de cinco anos? Enfim, são limites a serem discutidos, principalmente porque eu gostaria de ir até esses limites.

Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Ao banco Itaú. Tudo o que tenho pertence a eles.

O que você espera da eternidade?
O fogo. Tenho fé, fé no inferno.

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