Ensaios e Resenhas

janeiro 2016 / Ensaios e Resenhas / O discurso amoroso das orquídeas

Texto publicado na edição #187

O discurso amoroso das orquídeas

Novo romance de Noemi Jaffe é fracionado por uma alternância de vozes e registros

> Por CLAUDIA NINA

Noemi Jaffe, autora de

Noemi Jaffe, autora de Írisz: as orquídeas

A condição do exilado, em muitos casos, é o de alguém à beira da despersonalização — procura-se um novo rosto, pois o antigo, deixado nos espelhos de seu país de origem, não existe mais ou está em mil pedaços, tal como o espelho que o refletia. Não se busca só o rosto, mas também um corpo, uma alma e, principalmente, a palavra, que está perdida, confusa, misturada em meio a vozes e sussurros diversos. No país de acolhida, o cruzamento, ou o choque, de línguas, pessoas e costumes faz um nó de pensamento. Isso tudo pode ser ótimo e enriquecedor, como também pode ser destrutivo. O rosto, este, recupera-se, afinal? E, mais importante, como a palavra sobrevive às transformações?

São questionamentos frequentes na agenda de qualquer exilado, e estão, de alguma forma, flutuantes nas raízes aéreas desta personagem: Írisz, botânica húngara que chegou ao Brasil para trabalhar com orquídeas no Jardim Botânico de São Paulo. O enredamento com a nova cultura se dá a partir de belas metáforas, entre elas a da própria flor que lhe serve de pesquisa, e de um doce curioso — o de papoula, que percorre a história. Desnorteada, sem pouso, a moça chegou ao Brasil procurando por cima das cabeças algum reconhecimento assim que desceu do bonde; ela se destacaria mesmo que se vestisse de maneira invisível. Foi logo notada: estrangeira, inconfundivelmente estrangeira, veio ao encontro de seu instrutor e chefe, Martim.

Aos poucos, revela-se para ele a alma secreta e idiossincrática de uma mulher cheia de surpresas, imprevisível, contraditória, que tem seus próprios ponteiros, que já viajou metade do mundo, espalhando-se e arrastando-se como um rizoma por todos os lados. O aprendizado do português acontece a partir do confronto entusiasmado entre a língua de partida e a de chegada; as palavras húngaras misturam-se na fala de Írisz enquanto ela divide com Martim significados. A relação surge por fragmentos, como pedaços de frases, reflexões sobre flores, doces e vida.

A papoula é crocante e isso faz parte do gosto. Você não acha que o paladar é uma espécie de tato? (…) Sempre me achei parecida com a papoula, e, enquanto a estudava, entendi nossas semelhanças.

Os momentos mais interessantes surgem quando a linguagem é sujeito e objeto da narrativa ao mesmo tempo, como quando Írisz pensa as palavras e tenta dar a elas um novo arranjo, emprestando esquisitice à morna rotina do chefe.

Confronto
A mulher desenraizada, capaz de viver com os pés fora do chão-pátria, como as orquídeas, traz a língua-mãe na pele como um perfume. A mãe senil ficou na Hungria, onde também deixou, com a mesma coragem, as ruínas da revolução e um amor misterioso; mas a língua-mãe não envelhece, não adoece e não morre, mesmo em confronto com o exército de novas palavras que invadem o mundo dela assim que desembarca.

O texto é fracionado por uma alternância de vozes e registros. Tem-se os relatórios estranhos de Írisz que misturam informações científicas com o prosaico, e ainda suas reflexões sobre a mãe e o homem que deixou em Budapeste — e são estes os relatórios-pensamentos relidos por Martim na ausência da mulher que desaparece, naturalmente, como seria de imaginar de alguém acostumada a flutuar, espalhar-se.

Há também a voz de Martim fazendo o relatório desta ausência: desapontado com o comunismo a partir da divulgação dos crimes do Stálin, arrasta palavras tendo como interlocutora ausente a própria Írisz. Fragmentos de tempo-texto registram as horas em que estiveram próximos — suas trocas linguísticas, suas confissões, as conversas sobre a Hungria. É neste momento que ele descobre: o envolvimento deixou escapar o mais importante: a intimidade – “Me olhava como se pedisse para falar alguma coisa, mas não éramos suficientemente íntimos para que um de nós quebrasse a parte que faltava para ela se abrir”, escreve Martim.

Ainda não sabe — ou não consegue — descobrir o nome do sentimento que alinhavou seu discurso ao dela:

Até agora, aqui diante deste último relatório e de seu sumiço que de alguma forma eu já previa, não posso dizer que tenha me apaixonado, embora reconheça que talvez esteja me enganando.

Martim sofre, enquanto relembra o momento em que a mulher surgiu para sempre, desorientando seu vocabulário emocional. Ficou tão perdido que não tem a menor ideia de para onde ela foi nem se um dia voltará: “(…) foi como se as palavras aparecessem em sua natureza bruta. Ela trouxe o cheiro, o tumulto, a morte e, por isso, a vida. Não há vida nem morte na teoria. Foi isso que ela me trouxe com seu doce de papoula”.

Como teria sido este relacionamento caso Írisz não tivesse debandado, ou se um dos dois tivesse tido a coragem de dizer a palavra impossível?

Com Írisz e suas narrativas, o amor morava só no mundo das histórias e senti-lo habitando entre nós era prazeroso. Realizar o desejo poderia, isso sim, corroer o que estávamos criando.

Se a autora optasse pela construção de um enredo mais narrativo do ponto de vista da relação entre Írisz e Martim, isso faria corroer o projeto do romance que tinha em mente? Em um trabalho feito a partir de ausências, no qual se fala do que não houve, dos desacontecimentos, dos desencantos, das impossibilidades, talvez criar um encontro possível seria fazer desacontecer a proposta do original. Será?

De qualquer forma, os momentos mais interessantes surgem quando a linguagem é sujeito e objeto da narrativa ao mesmo tempo, como quando Írisz pensa as palavras e tenta dar a elas um novo arranjo, emprestando esquisitice à morna rotina do chefe. Seus relatos de passado, presente e futuro poderiam ser estendidos, talvez em um confronto mais forte e corajoso com Martim. A palavra impossível? Dela não se falará. A não ser de sua ausência, no discurso-lamento de Martim:

E, como numa máquina que se autoalimenta, são as próprias lembranças que ativam um incômodo, uma inquietação, uma insônia, que, por sua vez, acionam mais lembranças, que então se confundem com o desejo, que avança em descontrole pelo corpo já imprestável, que se deixa levar e abater por sensações físicas desagradáveis e tudo recomeça e culminada num lapso lido numa carta e daí não resta alternativa senão o sujeito aceitar e dizer, de si para si, rendido: eu a amo.

P.S: A receita do doce de papoula está na página 49.

 

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Írisz: as orquídeas
Noemi Jaffe
Companhia das Letras
224 págs.

 

 

Noemi Jaffe

É doutora em Literatura Brasileira pela USP e professora de escrita criativa. Escreve para a Folha de S. Paulo desde 2006 e é autora, entre outros títulos, de Quando nada está acontecendo (Martins Fontes), de 2011; A verdadeira história do alfabeto (Companhia das Letras), de 2012, que recebeu o prêmio Brasília de Literatura, e O que os cegos estão sonhando (Editora 34), também de 2012. Organizou a antologia de poema de Arnaldo Antunes para a Global em 2010.

 

 

 

 

trecho
Írisz: as orquídeas

Mas, desde que ela se foi — mesmo dizendo que voltaria —, desde o dia em que, mesmo antes de entrar em seu apartamento, eu já sabia que ela havia partido, essa continuidade que se construiu através das coisas, a textura aparentemente firme que existia nos nossos dias, começou a se desfazer como se por uma franja numa dobra de roupa. Esse fio solto foi se esticando e, aos poucos, revelou buracos de uma malha não muito bem tecida: era a ausência.

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