Fora de sequência

outubro 2011 / Fora de sequência / O diário de Nohara (final)

Texto publicado na edição #138

O diário de Nohara (final)

Ela tencionava levá-lo, tão logo pudesse, bem para o meio da Berlim decadente de antes da guerra

> Por FERNANDO MONTEIRO

Ilustração: Rettamozo

Consta que Fritz Lang se apaixonara por Maria Antonia Siegelinde Martha Lilitt Seubert (o nome — e que nome! — de batismo de Lil Dagover, na ilha de Java, onde nascera “no seio de uma família holandesa, em 1887”, diziam os jornais). Isso teria acontecido bem debaixo do olho de águia da álgida mulher de Lang, Fritz Thea von Harbou — que fingira não se importar (e também se apaixonara pela ex-Martha Dagover). O diretor foi responsável pela mudança desse “Marta” original para o curto Lil um tanto improvável — e, verdade seja arriscada, não parece ter sido Fritz quem espalhou, mais tarde, nos festivais desocupados, aquelas historietas ligeiramente obscenas sobre as paixões homossexuais de quase todas as atrizes dos seus filmes (com destaque para a “Marlena” — como ele chamava — que aprenderia a odiá-lo).

 

A indiscreta, mais provavelmente, fora a sua “querida Thea”, esposa e colaboradora, e por motivos nem tão obscuros assim, embora a maledicência — então, já menos “charmosa” — jamais pudesse ser ampliada (de modo retrospectivamente crível) até o regaço juvenil da Dagover, pelo simples fato de que…

Fale sobre o rapto na Índia.

Não foi na Índia. Foi entre “montanhas de cartão postal” — conforme ela dizia —, acrescentando que, narcotizada, fora levada de navio, em seguida, rumo ao estranhamento de florestas úmidas e cheias dos braços, enredados em lianas, etc., de Shiva e outras deusas menores (aquelas que se dedicavam ao sexo sagrado e mais despudorado da terra…)

Lil Dagover contava essas histórias?

Com todos os detalhes, se é isso que você quer saber — e se são justamente os detalhes mais sórdidos que interessam ou emocionam, neste tempo de vulgaridade por sobre todas as coisas.

É, “Lil Dagover contava essas histórias”, e mais: afirmava ter encontrado a reencarnação do seu pai num monge cego que pedia esmolas de arroz entre os terraços desabados de um templo que era “pornografia pura” (o que o jovem asceta não podia ver, mas apenas tocar com as mãos iluminadas pela lua, à noite). O monge era filho de uma indiana e de um marinheiro português dos Açores, de modo que Lil guardara noções da língua de Camões na memória prodigiosa, capaz de descrever o rapaz mais de cinqüenta anos depois: “moreno, nariz afilado como eram os narizes na família do meu pai, cabelo preto lustroso dos lusos de pés sujos, porém delicados”.

Claro que a mulher do Ocidente, uma jovem atriz de hábitos mais ou menos livres, vestindo um modelo de seda apertado e de unhas dos pés vivamente pintadas de vermelho (em contraste com a pele muito branca), teria que vir a corromper o coração do mendigo-santo, do “marabu” — como os chamam na África do Norte — diante de uma deusa de carne, osso e cálculo. Ela tencionava levá-lo, tão logo pudesse, bem para o meio da Berlim decadente de antes da guerra (tudo aconteceu nesse meio momento suspenso), topando, entre as mesas dos cafés de rua, nos sapatos de outras mulheres que levantavam a perna para atropelar a lembrança da inocência passando, sem vê-las, por entre xícaras, taças e guardanapos borrados de batom. Você não disse que Lil fora raptada? Então, como podia ela pensar em…

A atriz de nariz perfeito jurava em cruz sobre isso, e até enviara postais de ambientes iluminados com lâmpadas de papel meio chinesas (Lang dizia que haviam sido do cenário de A imperatriz da Mongólia), dando detalhes da viagem, coberta de jóias, para o fundo de selvas de elefantes, tigres e homens de bengala e cajados, debaixo de roupa de estopa e da lua também responsável pela menstruação das nativas, nas aldeias circundantes (tudo era uma descrição romântica dessas que inspiravam o prazer de imaginar um mundo perdido entre archotes e fogueiras, címbalos e moças de ventres pintados), alguma coisa que se acompanhava com fascinação pelos olhos ciganos da narradora daquelas peripécias encantando a turma liberal das letras, do teatro e do cinema — antes dos sujeitos de roupa parda aparecerem para mais do que vigiar, nos cafés e nas livrarias, principalmente as mulheres que levantavam a cabeça, soltando a cabeleira e dando, para trás, uma ou outra gargalhada igual àquela que dá Marlene/Lola quando o professor a pede em casamento… Há uma cena assim, no fracassado O amor da sombra — um filme autobiográfico que foi autêntico fiasco produzido por Lil (que não gargalha com a crueldade da Dietrich, nem de longe), dizem que a partir de um conto que ela teria encomendado a Heinrich Mann — o autor de O anjo azul —, justamente sobre o seu famoso amor do hospital psiquiátrico de Monróvia (ou Moldávia?) .

Lil doou a última cópia de O amor na sombra para a cinemateca berlinense, um ano antes de falecer, em 1980 — não faz tanto tempo assim —, dizendo-se morta de saudade do passado, “de tempos outros e do ouro da juventude” — como dizia Lang (que ela não mais suportava, dando graças por viver ele sempre em viagem, com a mala abarrotada de exemplares do seu livro de memórias). O melancólico, o aristocrático Fritz, também muito disposto a falar de “coisas incomunicáveis”, vividas pela geração nascida no quarto final da glória do Império Austro-Húngaro (isto é, coisas vividas daquele modo “insubstituível”, como ele dizia, com a sua piteira sem mistério devidamente conservada), antes de ser enterrada a Europa que jazia no coração de cada um deles, a Europa de Lang e Zweig, de Berlim e Salzburgo depois varridas da face do planeta, pelo menos como atmosferas para sempre perdidas, reinos de teatro de sombras como as diversões da ilha natal da atriz de A morte cansada, hoje esquecida como se nunca houvesse existido a antiga Maria Antonia, a primitiva Martha Dagover, a Lil que Lang transformou em “Junge”, vencendo a morte que vinha a galope pelos campos enlameados de sangue.

Desse cenário pintado é que acaba de chegar o homem que vínhamos acompanhando no desembarque de um navio, no porto tão “característico” do Rio, em 1938. Ele ainda é jovem, mas já viu tanta coisa — e ainda vai ver — que não se pode compreendê-lo sem sentir o seu cansaço de morte, quando se encaminha para a luz como se subisse para o palco iluminado do “anjo” no seu Campo.

Nunca vi natureza tão bela! — escreveu Edouard Manet, desembarcado do navio Havre-et-Guadaloupe, no porto desta cidade, às vésperas do Carnaval de 1849.”

Essa anotação prova que Nohara era um homem culto, ou, pelo menos, não totalmente desinformado sobre a arte e a cidade “distante quase como a Lua”, e, no século 19, “ainda mais estranha para a tripulação dos jovens guardas-marinhas franceses certamente postados na amurada do barco, para ter as primeiras impressões da cidade com seus morros debaixo da luminosidade portentosa, demasiada, exagerada. É belo o Rio, mas tal beleza é quase descompensada pela sujeira”…

Wilhelm Nohara não se entrega como se entregou, em 1849, o rapaz nascido numa mansão da Rue PetitsAugustins (hoje, Bonaparte), o filho do magistrado Auguste Manet e de Eugénie-Désirée Fournier, filha de um diplomata…

E isso não tem nada a ver. Estamos no mesmo cais, embora de quase um século depois, no meio da luz tão excessiva quanto sempre foi, diante das caravelas, dos paquetes e dos modernos navios cheios do labirinto ideal para abrigar clandestinos durante uma viagem inteira. Nohara não é um penetra, não viajou abaixo do limite da sombra, mas sim à luz radiante das raquetes em mãos delicadas, levadas pelo vento. Havia bonitas moças esportivamente trajadas durante a manhã — algumas fumando com elegância não-policiada — e outras de meias a todas as horas, o vestido composto sempre sobre as pernas acaloradas na intimidade das coxas unidas que mãos imaginárias tentam atravessar no mar da imaginação pior do que ilimitada: indecente. Suadas moças, ligeiramente nazistas, exibiram pernas longas e fortes nos decks, riram e acompanharam as notícias transmitidas por um rádio intermitente, no meio das ondas cortadas pelo reto nariz da embarcação apontada para as pernas separadas da América Latina.

Nohara chegou na hora: pequenos e grandes estupros políticos selam alianças para abrir caminho para o Führer do Reich de Mil Anos Mal Começados.

Wilhelm agora pôs os pés de sapatos brancos na lama constante sobre as velhas pedras do cais. No seu diário, as primeiras anotações — em forma de carta para a sua “Eugénie-Désirée” — não são sobre nada do entorno que ele vê, cheira e toca com a indiferença de gelo se desfazendo sobre o sol tropical:

“Você ainda permanece na Lua? Eu estou descendo a terra madre — como não sei se também dizem aqui, ainda não ouvi (nem sei se quero ouvir). A lua influencia a água, as marés, a lua é distante como o caco de um espelho de bronze que já foi extremamente polido e hoje mal reflete a mecha do cabelo da moça debruçada sobre a vitrine que expõe objetos de adorno meio incompreensíveis, os artefatos antigos de alguma civilização antiga da qual você risse, com os seus maravilhosos dentes brancos, mãe.

O que você pensa quando chega, não propriamente exausto, especialmente interessado ou magnificamente indiferente, numa cidade desconhecida?

Não pretendo ficar aqui pelo tempo determinado por seus novos — e velhos — amigos.

Tem luz demais, aqui, cheiros demais (nenhum vindo da Lua refletida no espelho do quarto de uma senhora que se banha) por toda parte de claridades invasivas, é como se penetrasse num circo de mármore sujo, cagado de moscas e de uns besouros muito gordos e verdes, que qualquer um teria vontade de estourar para ver esguichar talvez a tinta verdíssima do pintor Gauguin (que também esteve aqui), cujo pequeno quadro você vendeu mais do que rapidamente, quando Greta lhe disse para vender.

Como eu gostava daquele quadro! O rosto estranho de uma mulher que não teme pensar em alguma coisa que os outros chamariam de ‘perversa’, mütte: Edgar — preguiçoso e agudo — teve aquele palpite curioso (‘ela está pensando em abortar’), que você detestou ainda mais do que o quadro (agora), porque, maman, eu sei que a Lua quis me assassinar, ou quase sei, ou desconfio com a certeza de que me embalava tanto quanto mais o cais crescia para cima de nós: ‘eu não vou gostar desse lugar’, apesar da lua antecipada, vaga, caco de pedra não polida onde vejo, sabe o quê?”.

A primeira anotação conclui assim, com a pergunta para dentro, que não foi respondida pela retórica do alemão. A linha está simplesmente interrompida. Quando volta a escrever, ele já descreve a Marlene carioca sem introduzi-la, sem avisar sobre aquela aparição onde, quando? Um alemão de possíveis óculos escuros redondos desce para o rio da noite do corpo de uma negra com a lembrança do corpo da mãe na noite da alma germânica num corpo muito branco…

“Seus dentes alvíssimos afloram no sorriso que combina com a selvageria inocente dos olhos: ela devorou, já, todas as minhas resistências cultas, ponderadas e refinadas num cenário onde a cultura se derrete como açúcar debaixo do sol, num bolo fermentado. O que há que fazer com ‘refinamento’ — quando se está a morrer de civilização e ódio presentes até na música?”

É difícil acompanhar um diário que salta, pula datas, não explica nada a partir de uma certa altura — e nos introduz a coisas consumadas, sem explicação. Para começar, não começa e, talvez, não seja um diário no sentido exato da palavra, quando se perde em conjecturas sobre a associação da morte com a música. Nohara diz que “conversou com Mann” sobre esse “tema difícil”, e não sabemos a qual Mann ele se refere: Thomas? Heinrich (o de O anjo azul)?

O seu “anjo é negro-quase-azul” num certo momento, e isso não combina com o “pardo” do título (talvez irônico?). Tudo passa a ser muito vago, no “Diário de Nohara” sem datas — e qualquer um fica surpreso quando entende, de quase entrelinhas no texto, que Wilhelm levou a sua Marlene em negativo para dentro — ele escreve “para o coração” — da ariana Alemanha.

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