Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / O diabo enamorado

Texto publicado na edição #119

O diabo enamorado

O escritor português Jorge de Sena (1919-1978) foi um intelectual versátil e prolífico como não se vê mais hoje em […]

> Por GREGÓRIO DANTAS

O escritor português Jorge de Sena (1919-1978) foi um intelectual versátil e prolífico como não se vê mais hoje em dia. Poeta dos mais importantes do século 20 português, Sena é autor de ensaios sobre os mais diversos temas literários (incluindo estudos fundamentais sobre Camões e Pessoa), peças de teatro, livros de contos (como Os grão-capitães), um romance (Sinais de fogo), e até mesmo uma tragédia em verso. Um de seus textos mais célebres, porém, é a novela O físico prodigioso, lançada agora no Brasil pela editora 7Letras.

A novela foi escrita em Araraquara, interior de São Paulo. Em 1959, Sena decidira deixar Portugal: envolvido em uma tentativa frustrada de um golpe de estado contra o governo salazarista, ele se auto-exilou no Brasil, onde manteve uma das fases mais produtivas de sua carreira. Professor das universidades de Assis e Araraquara, Sena continuou bastante ativo politicamente, colaborando para jornais e escrevendo intensamente. Com o golpe militar em 1964, porém, decidiu que não poderia viver sob outro regime ditatorial e, no ano seguinte, mudou-se para os Estados Unidos, onde viveu até o fim da vida.

Dentre os livros que escreveu no Brasil, estão os volumes de contos Andanças do demônio e Novas andanças do demônio. Deste segundo volume constava originalmente a novela O físico prodigioso, que mereceu uma edição autônoma apenas em 1977. Os dois volumes dessas “andanças” incluem casos e personagens dos mais insólitos: um frade que conversa com as pedras e que desaparece dentro do hábito, como se de um fantasma se tratasse; um gênio que vive em uma árvore, onde recebe oferendas de leite e mel, embora goste, na verdade, “de uma asinha de frango”; o diabo que se disfarça de “Pai Natal” para enganar o menino Jesus, pois está claro que o Natal é muito mais antigo do que Cristo.

Houve quem definisse essas histórias sob o rótulo de literatura fantástica, e E. M. de Melo e Castro chegou a incluir O físico prodigioso em sua célebre Antologia do conto fantástico português, de 1974. Não se trata, porém, daquela noção de fantástico descrita por T. Todorov, para quem o fantástico nasce da hesitação entre uma explicação natural e outra sobrenatural para os eventos narrados. As histórias fantásticas de Sena estão mais próximas daquilo que Todorov chamaria de “maravilhoso”, já que os eventos sobrenaturais não são questionados, sendo considerados absolutamente “normais” para os personagens e para o leitor. Isso porque a maioria desses contos é ambientada na Idade Média, ou melhor, em uma Idade Média mágica como a dos países dos contos de fada. À mistura da ambientação histórica e o clima fantasioso Jorge de Sena chamaria, no prefácio das Novas andanças do demônio, de “realismo fantástico” ou “historicismo imaginoso”.

É assim em O físico prodigioso: desde o começo, estamos no terreno da fantasia mais desregrada. Um jovem cavaleiro (nunca nomeado), em viagem não se sabe para onde, pára sua jornada para um rápido banho de rio. Basta, porém, estar nu, para que um diabo apaixonado venha assediar seu corpo, prática que o cavaleiro aceita, resignado. Isso porque, quando ainda era um jovem imberbe, sua madrinha havia convocado o demônio, que “logo se abraçara a ele apaixonado. Em troca, recebera poderes imensos”. Poderes estes que são logo postos à prova: três donzelas que dali se aproximavam lhe oferecem hospedagem em um castelo cuja rainha, viúva, encontra-se moribunda. Diz-se que seu aguardado salvador seria um grande homem, e que deveria cumprir três requisitos básicos: ser filho de um rei, ser um grande físico e ser virgem, condições (mais ou menos) preenchidas por nosso herói. É claro que, ainda que suas práticas sejam contestadas pelo pároco local, o físico prodigioso cumpre seu papel, e salva a rainha, Dona Urraca, que logo se apaixona por seu salvador. Seguem-se episódios libidinosos, mágicos e diabólicos (como o ataque das mulheres a um cavalo, que devoram vivo), mas o tom é sempre irônico.

Contradições
A novela é marcada pela ambigüidade e pelas contradições. Ao leitor não será difícil notar que o diabo (na verdade apenas um pobre diabo apaixonado) é identificado com o físico a ponto de poder ser considerado seu duplo, ou que o amor cortês de algumas passagens é indissociável de um outro tipo de amor, mais carnal e místico. Assim, quando Dona Urraca conta ao físico prodigioso sua história, “o que ele ouvia dentro de si era diferente”: Jorge de Sena dispõe a história, então, em duas colunas, uma reservada à fala da rainha (“Eu era muito moça e muito inocente quando meu pai me casou com Gundisalvo”) e outra reservada ao relato conforme foi compreendido pelo físico (“Eu era muito moça, mas dia e noite sonhava com os homens, desde que uma vez vira meu pai nu”). Por causa deste e de outros eventos misteriosos, a índole e os atos da rainha são postos em dúvida: seriam a rainha e suas damas de companhia verdadeiras bruxas? Teriam exterminado todos os homens do reino?

Esse não será, porém, o maior de seus problemas. A certa altura, angustiado por sua felicidade e por seus poderes divinos, o físico tenta voltar no tempo, e fazer com que os últimos episódios de sua vida jamais tivessem acontecido. Mas descobre que “nunca sai certo o momento a que se volta”. E se não é possível apagar o passado, também não será possível evitar o destino, e a Inquisição. A partir da prisão do físico e da rainha, inicia-se um longo (e burocrático) processo, o de investigar “uma gigantesca conspiração do Demônio contra a ordem estabelecida, envolvendo assassinatos, vampirismo, sodomia, toda a escala de pecados contra a natura, e uma rede imensa de propaganda subversiva, em que incluíam crimes como curar doenças, ressuscitar defuntos, e retrogradar no tempo decorrido”. Não à toa, muitos críticos interpretaram essa caricata perseguição do Santo Ofício como uma alegoria da então delicada situação política portuguesa.

No já referido prefácio de Novas andanças do demônio, o autor faz uma entusiasmada defesa da fantasia literária: “Sejamos objetivos com a fantasia, e subjetivos com a realidade”, diz, convencido de que o realismo tradicional é incapaz de dar conta da complexidade do real. Isso não significa, em absoluto, que seus livros devam ser lidos como fábulas de interpretação simplista, como se trouxessem uma única lição de moral. Pelo contrário, esse “realismo imaginoso” não pretende, “como as parábolas pretendem, salvar as almas: pretende, sim, perdê-las, fazer com que sintam o chão fugir-lhes debaixo dos pés”. Não é outra a função da literatura. Ao seu modo, Sena recusa o realismo militante mais óbvio — em suas palavras definido como o “realismo tradicional de meia-tigela estética” — o que era raro em tempos tão tumultuados.

E ainda que os intérpretes de O físico prodigioso tenham certa razão ao interpretar a novela como um libelo contra o autoritarismo salazarista, é uma evidente redução considerá-la apenas uma narrativa política. É preciso dizer, por exemplo, que O físico prodigioso estabelece um sofisticado diálogo intertextual com fontes literárias medievais, análise que em muito excederia os limites desta resenha e a competência deste resenhista. Por enquanto, basta apontar para o fato de que o principal modelo para a novela são dois textos, ou “exemplos”, de O orto do esposo, obra anônima quatrocentista de feições pedagógicas e religiosas. Que Jorge de Sena tenha criado uma interpretação moderna dessas narrativas pode ser comprovado, entre outras evidências, pela intrigante mistura de registros textuais, o que inclui cantigas medievais de sua autoria, incorporadas à narrativa de maneira absolutamente funcional.

Conforme nos explica a professora Gilda Santos, especialista na obra de Jorge de Sena, no prefácio desta edição, “a novela, graças também à forte atemporalidade resultante da mescla de tecidos intertextuais que entram em sua composição, é tida como um libelo alegoricamente perene contra todas as manifestações de injustiça que o homem produziu, produz e produzirá”.

Para o auxílio dos mais interessados, a editora 7Letras tem dedicado edições caprichadas para seus clássicos portugueses, acompanhados por textos que, sem serem academicamente exaustivos, são bastante esclarecedores do valor da obra literária que temos em mãos. A presente edição de O físico prodigioso traz ainda notas (introdutória e final) do autor e uma bibliografia crítica sobre a novela, bastante útil para futuros leitores da obra de Jorge de Sena.

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JORGE DE SENA

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Nascido 1919, na cidade de Lisboa, JORGE DE SENA foi uma das figuras mais importantes das letras portuguesas no século 20. É autor de ensaios importantes como A estrutura de Os Lusíadas e outros estudos camonianos (1970) e Fernando Pessoa & Cia Heterônima (Estudos coligidos 1940-1978) (1982), além de vários livros de poesia, dentre eles As evidências (1955) e Metamorfoses (1963). Viveu no Brasil entre 1959 e 1965, período dos mais produtivos em sua carreira de escritor. Algumas de suas ficções possuem inspiração biográfica, como o conto Grã-canária, do volume Os grão-capitães (1976), e seu único romance, Sinais de fogo (1979), que se passa durante a Guerra Civil Espanhola. Faleceu em Santa Barbara, Califórnia, em 1978.

Carícias prolongadas que leves lhe corriam pela pele, beijos sussurrados que o mordiam pelo corpo adiante, mãos que se obstinavam no seu sexo, durezas que se encostavam nele tentando penetrá-lo... — era o costume, desde que primeiro se soubera homem e se despia todo, e estivesse só. Sofria aquilo como um vexame inapelável que o não excitava, e nem sequer lhe dava horror ou repugnância. E que, até certo ponto, o divertia de algum orgulho por paixão tão teimosa e tão ridícula, a que não encontrava em si mesmo, por mais que se observasse, a mínima correspondência que a justificaria.

Jorge de Sena_Fisico prodigioso_119

Jorge de Sena
7Letras
160 págs.