A literatura na poltrona

novembro 2011 / A literatura na poltrona / O devorador de livros

Texto publicado na edição #128

O devorador de livros

  Ouvi uma frase do poeta Fabrício Carpinejar que não me abandonou mais. Apresso-me a dividi-la com meus leitores porque isso […]

> Por JOSÉ CASTELLO

 

Carlos de Brito e Mello, autor de A passagem tensa dos corpos

Ouvi uma frase do poeta Fabrício Carpinejar que não me abandonou mais. Apresso-me a dividi-la com meus leitores porque isso talvez abrande o peso que ela provocou em mim. Disse Fabrício, se me lembro bem de suas palavras: “A ansiedade é uma espécie de imaginação acelerada”.

O poeta falava em Brasília, durante o II Simpósio de Crítica e Poesia, organizado por Sylvia Cyntrão para a UnB, entre 8 e 10 de novembro. Na platéia, escalado para participar da mesa seguinte, eu o escutava. Então, de repente, Fabrício — um poeta que transformou a poesia em uma espécie de turbulenta viagem corporal — veio com a maldita frase.

Não sei se percebeu a gravidade do que disse. Muitas vezes, talvez na maior parte delas, as palavras nos ultrapassam. A ansiedade está, de fato, no centro do cotidiano contemporâneo. Nós a vemos por todos os lados. Vamos ao médico reclamar de uma gastrite, de uma enxaqueca, de uma dor na coluna: saímos, quase sempre, com o diagnóstico de que estamos ansiosos. E pílulas que pretendem nos proteger disso.

A velocidade do mundo afeta não apenas nosso ritmo de trabalho, nossa rotina, nosso corpo; afeta, de modo ainda mais brutal, nosso pensamento. Como um piloto que, de repente, perde o controle sobre o carro, temos, cada vez com mais freqüência, a sensação de que também o pensamento — nosso pensamento, antes tão íntimo e dócil — nos escapa. Que ele se derrama entre nossos dedos.

Em um movimento contrário, poetas dialogam com o pensamento. É o que todo poeta deseja fazer: estancar a febre das palavras. Tomar coragem e deter-se sobre sua face tensa. Poetas estão sempre a enfrentar a imaginação que acelera e arde. Devem fazer alguma coisa dessas chamas. Devem fazer, da fantasia veloz e ardente, alguma poesia. Oh, Drummond…

Preciso me aproximar mais dos poetas. Em São Paulo, antes de viajar para Brasília, encontrei com um amigo silencioso e sábio, que prezo muito: o pernambucano Lourival Holanda. Filósofo sereno, Lourival é um poeta do silêncio. Estivemos juntos no júri final do prêmio Portugal Telecom de Literatura, que destinou o primeiro lugar a Leite derramado, o romance magnífico de Chico Buarque.

O voto é secreto. Saímos da reunião final do júri, realizada na parte da manhã (8 de novembro), sem conhecer os vencedores — anunciados, apenas, na cerimônia da noite. Eu estava ansioso, minha imaginação disparava. Até porque, depois de muitas dúvidas, e não tenho motivo para esconder isso, votei não no romance de Chico — que me agrada muito —, mas no estranho e desafiador A passagem tensa dos corpos, do desconhecido Carlos de Brito e Mello.

A leitura de Leite derramado me encheu de uma melancolia vaga, que perdurou por alguns dias e depois se transformou em uma discreta felicidade. O livro de Carlos, provocou em mim uma agitação nervosa que me fez pensar em alguma doença. “Adoeci”, sim, dos dois livros. Lembrei-me, então, de uma frase que ouvi de Lourival Holanda, durante a reunião secreta do júri final. Algo assim (e espero não estar errando muito): “As teorias não passam de muros que levantamos para justificar a sensibilidade”. É, antes de tudo, com a sensibilidade que lemos os livros.

Depois de muito vacilar entre os dois romances, optei por A passagem tensa dos corpos, principalmente, por um motivo: sua leitura contaminou e acelerou, a uma velocidade quase insuportável, minha imaginação. O livro de Carlos me empurrou para regiões onde nunca havia pisado. Fez-me sentir coisas que nunca senti. Como não levar isso em conta? Como fingir indiferença? Bem que tentei…

Não sei se foi por causa desse voto dissonante e solitário, mas naquela noite eu estava bem ansioso. Procurava disfarçar a agitação, mas não conseguia. Não, pelo menos, para o olhar atento de Lourival Holanda. E ele não me poupou de sua sabedoria. Na van que nos levou do hotel à cerimônia de premiação, de repente, Lourival me disse: “Você está muito tenso”. Disse isso, e mais nada. E fiquei com aquelas palavras, que remetiam ao romance em que eu votara.

Estava tenso mesmo, muito ansioso, sem saber por quê. A imaginação acelerada, como depois Fabrício Carpinejar — que não esteve em São Paulo, e não se referia a meu caso particular — definiu tão bem. Naquela noite, duas ou três questões pessoais, de fato, me agitavam. Uma querida irmã e um querido amigo doentes. Um artigo que eu devia escrever, mas não conseguia começar. O cansaço das sucessivas viagens de trabalho, que me massacrava.

Mas o que me agitou mesmo foi o romance de Carlos de Brito e Mello, que li por quatro vezes seguidas, como quem se agarra a um tesouro que não pode perder. Por isso, sobretudo por isso, votei em A passagem tensa dos corpos: o livro me atingiu pessoalmente e me levou a pensar em coisas em que não gostaria de pensar.

A leitura disparou minha imaginação — eu estava ansioso. Isso se manifestou em meu corpo, arreganhado, e em meu comportamento, um tanto errático — coisas que Lourival logo percebeu. Já escrevi mais de uma vez que Leite derramado, o romance de Chico Buarque, é um dos mais belos que li nos últimos anos. Um livro apaixonante, que só confirma tudo o que já sabemos a respeito de Chico.

Mas A passagem tensa dos corpos me derrubou. Nunca li nada parecido. Poucos escritores, como Carlos, um jovem professor de 35 anos que só na noite da premiação vim a conhecer, chegam a enfrentar, com tanto destemor, os limites frágeis, quase inúteis, da linguagem. O livro tem defeitos, sim. Não disfarça o que é: um romance de estréia. Mas com que coragem!

Comentei com um amigo, um severo doutor em Letras, o que acabo de escrever. Assustado, ele logo me advertiu: “Você não vai escrever sobre isso! Dirão que você é um crítico hipersensível e instável. Os inimigos o acusarão de ser frágil demais para lidar com a fantasia”.

E sou mesmo. Essa sensibilidade cheia de furos, minha posição um tanto indefesa diante do que leio, me definem como leitor. Essa agitação que talvez seja ansiedade também, mas não é só isso. Volto a Fabrício Carpinejar que, na mesma palestra, comentou: “Hoje todo mundo manda a gente ficar calmo. Mas como ficar calmo no mundo em que vivemos?”.

Não me recordo se as palavras de Fabrício foram exatamente essas. Não as anotei, eu as incorporei. Posso pensar que as devorei. Sim, creio que sou mais um devorador de livros. Em outras palavras: sou, antes de tudo, um leitor.

NOTA
O texto O devorador de livros foi publicado no blog A literatura na poltrona, mantido por José Castello, colunista do caderno Prosa & Verso, no site do jornal O Globo. A republicação no Rascunho faz parte de um acordo entre os dois veículos.

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