Palavra por palavra

março 2017 / Palavra por palavra / O destino artesanal do romance

Texto publicado na edição #203

O destino artesanal do romance

A prosa literária, inevitavelmente, é uma produção artesanal

> Por RAIMUNDO CARRERO

Ariano Suassuna, criador do Movimento Armorial

Ariano Suassuna, criador do Movimento Armorial

Tenho ouvido muitas asneiras a respeito da técnica narrativa. Mais ainda, do artesanato narrativo. Até porque a prosa literária, inevitavelmente, é uma produção artesanal. Alguns não concordam e apresentam argumentos ingênuos: basta contar uma história, ficção é entretenimento, conte e deixe o leitor ter prazer; o romance deve ser vendido em série. Se o escritor quer que seja assim, e somente, tudo bem. A prosa de ficção é exigente, muito exigente, porque é um produto artesanal e não meramente um produtos industrial, como quer o “capitalismo vadio”. Mas, afinal, o que é “capitalismo vadio”? É aquele capitalismo que se comporta como o vagabundo da esquina, tudo é bom, tudo é válido, desde que renda algum dinheirinho. Aliás, dinheirinho aqui significa milhões de dólares tilintando nos caixas das livrarias. Pouco importa o que contêm: páginas em branco para desenhos ou para bilhetinhos de amor com corações batendo e lábios vermelhos soltando beijinhos. Quanto mais imbecilidade, melhor.

Tem dinheiro, está bom. Os cabeças ocas se enchem de tatuagens e depois se colocam nas capas dos livros. Às vezes, parece que o dinheiro está circulando pela primeira vez no mundo. Este não é apenas um projeto capitalista, mas um projeto político capaz de imbecilizar os cidadãos que não precisam mais reivindicar, basta ouvir e cantar sertanejos e bregas. Para que se preocupar? Artesanato dá trabalho e faz pensar, basta que os livros com pontinhos se encham de desenhos inúteis. São argumentos deste tipo que ouço em todos os lugares, mas insisto: sem artesanato não há obra de arte, mesmo quando a obra de arte não quer ser uma obra de arte até porque a população optou pelo feio, pelo errado, pelo desgracioso. Um rápido olhar pelas ruas esclarece muito bem: camisas pela metade, cabelos desgrenhados, tênis sujos e sem cadarços, calças rasgadas. Tudo isso revela a nova estética da sociedade. Não é um comportamento isolado, é a manifestação social pelo feio. Mas, afinal, o que é o feio no mundo contemporâneo? A beleza do mundo contemporâneo é a mesma beleza da antiguidade, quando Aristóteles formulou o ideal da beleza como manifestação da harmonia, do proporcional e da grandeza? Corremos muitos séculos e a manifestação do belo mudou muito. O que é natural. As categorias do gosto passam pelas mudanças sociais, incluindo aí os regimes políticos. E a arte acompanha as revoluções sociais, mas mantêm suas qualidades.

Começamos, por exemplo, o século 20 com alterações significativas na área político-social com o surgimento do regime comunista e a consolidação do regime democrático, anunciando-se, ainda, o nazismo. Daí tivemos um início do século profundamente agitado em todos os campos, sobretudo cultural. Paris transformara-se numa festa com o surgimento de inúmeros movimentos culturais de vanguarda e de experimentação, ao lado da firmação de nomes geniais a exemplo de Marcel Proust — com a revolucionária técnica do tempo narrativo —, de James Joyce, na montagem psicológica da narrativa e os elementos internos do romance — e a consolidação da obra de Flaubert, ao despertar um conjunto de técnicas para a narrativa. Surgiram, também, grandes e fundamentais movimentos de vanguarda do tipo dadaísmo e surrealismo, entre outros, englobando outras manifestações artísticas, entre elas as artes plásticas, de presença decisiva, e o teatro. No bojo de tudo isso, sem esquecer a contundência da Primeira Guerra Mundial e a transição para a Segunda Grande Guerra, passando pela depressão econômica e suas consequências, a partir dos Estados Unidos. Portanto, na primeira parte do século 20 as condições sociopolíticas agigantaram-se e interferiram, diretamente, nas artes e nas muitas manifestações culturais.

O Brasil não ficou fora de tudo isso e vimos o surgimento do Modernismo e do Regionalismo, que duelaram e duelam ainda hoje na formulação de vanguardas literárias, embora o Regionalismo tivesse uma forte tendência tradicionalista e conservadora, ambos da década de 1920, quando o mundo se defrontava com guerras e depressões econômicas. Por este período, conhecemos os romances de Mário de Andrade e de Oswald de Andrade, revolucionários na forma e no conteúdo, além de A bagaceira, de José Américo de Almeida, que, por assim dizer, dá início à reformulação da prosa regional. A partir daí, conhecemos os avanços literários que vão desemborcar, por exemplo, na revolução literária de Graciliano Ramos e de Guimarães Rosa, já na década de 1950. Teremos, portanto, reformas importantes da narrativa nas décadas de 50 e 60 até chegar à retomada do romance estético de Ariano Suassuna, com A Pedra do Reino e com o Movimento Armorial. O romance deixa de ser apenas uma contação de histórias ou um campo ávido de alterações narrativas, para se tornar, definitivamente, num elemento narrativo estético, com a valorização dos elementos internos.

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