Ensaios e Resenhas

março 2013 / Ensaios e Resenhas / O cupim dos trópicos

Texto publicado na edição #155

O cupim dos trópicos

"A máquina de madeira", de Miguel Sanches Neto, reabre o debate sobre a formação de nossa identidade nacional

> Por MARIA CÉLIA MARTIRANI

Miguel Sanches Neto por Ramon Muniz

Miguel Sanches Neto por Ramon Muniz

O último romance de Miguel Sanches Neto, A máquina de madeira,poderia ser perfeitamente analisado com parâmetros semelhantes aos que se tem aplicado a uma das mais fortes tendências literárias destes tempos: a dos romances históricos, ou, melhor ainda, para usar a precisa terminologia da estudiosa Linda Hutcheon em Poética do pós-modernismo, a dos romances de “metaficção historiográfica”.

Com efeito, toda estrutura do livro se apóia nas complexas relações entre a historiografia e a ficção — já que os limites entre ambas sempre foram muito permeáveis —, deixando entrever uma nítida recorrência pós-moderna, qual seja a do caráter de auto-reflexividade que se instaura, magistralmente, como procedimento narrativo, elegendo a problematização da história como centro do debate. Segundo a estudiosa, se antes, no Modernismo, as vanguardas, por meio do choque e da ruptura, visavam rejeitar e demolir os padrões convencionais, no Pós-modernismo, o que se tem é o movimento da subversão daqueles, por meio da ironia. Nas palavras da pesquisadora: “A problematização substitui a demolição”.

O romance de Miguel Sanches Neto, que aqui se apresenta, parece respeitar essa máxima, que norteia, em boa medida, muito da produção literária contemporânea, nutrindo-se, também, do que Peter Burke denomina Nova História, já que se trata “da história escrita como reação deliberada contra o paradigma tradicional. Este pode ser concebido como uma das maneiras de abordar o passado, e não a única, como costumava ser visto…”.

Nesse sentido, ao longo dessas páginas, seremos inseridos num período datado da História do Brasil (o do Segundo Reinado), que recupera, por meio da relativização do discurso oficial, alguns dos mais sérios embates daquela época, e que continuam extremamente atuais.

Dentro daquele contexto, a composição romanesca gira ao redor da invenção da máquina taquigráfica, que teria dado origem, a posteriori, à revolucionária máquina datilográfica. Mas diversamente do que possa constar como “fato consumado” sobre tal feito, um narrador, em terceira pessoa, nos apresenta, logo de início, a figura do padre brasileiro nascido na Paraíba mas residente na província de Pernambuco: Francisco João de Azevedo, empenhando-se numa longa viagem de navio até a Corte (no Rio de Janeiro do Imperador D. Pedro II, na segunda metade do século 19), com o objetivo de exibir, por ocasião da “1ª Exposição Nacional”, seu originalíssimo invento: uma máquina de madeira destinada à escrita.

Padre operário
Muito bem construído como protagonista do romance, esse engenhoso criador faz parte da linhagem dos chamados padres cientistas, iluministas, revolucionários, e não haveria aqui como não evocar um de seus fortes pares literários, o sacerdote Bartolomeu de Gusmão, que ficou conhecido como “o padre voador”, inventor do balão, ficcionalizado por José Saramago em Memorial do convento. Mas a marca distintiva do padre brasileiro Azevedo é a de ser, além de puro idealista, um verdadeiro operário, característica evidenciada pela rudeza de suas mãos:

Começamos a morrer pelas mãos, pensou com tristeza. As mãos tinham mais idade do que ele, estavam se desgastando com muita rapidez. O envelhecimento se estampava nas veias e nervos salientes, nas superfícies ásperas, nos dedos rudes de camponês. Mas ele não tinha vergonha do aspecto delas, no fundo sentia orgulho, pois lembravam seu passado de órfão afeito ao trabalho.[…] Vestindo casaca preta, calças folgadas e botinas bem polidas, dava a impressão de um homem refinado. Só as mãos destoavam. Não serviam para o sinal da cruz, para se colocarem juntas, simbolizando contrição, e muito menos para ministrar santos sacramentos. Quando apertava a mão de outros religiosos, até causavam constrangimentos. O tecido adiposo das mãos dos padres, macias como estofados, contrastava com a aspereza da sua, e os religiosos se afastavam num susto quando elas se encontravam, como se tivessem tocado em um inseto asqueroso.

Além de explicitar a acirrada discrepância entre o comportamento dos religiosos ostensivamente preservados nos altares de uma igreja reacionária e pouco atuante e o dos que partem para a práxis cristã, engajando-se em causas sociais mais efetivas e justas, o caridoso personagem encarna, em boa medida, a criatividade, inteligência e boa vontade do povo brasileiro que, porém, vão se perdendo, ludibriadas diante dos entraves políticos e burocráticos dos donos do poder, neste “país rico de homens pobres”, que pouco reconhecem os valores locais.

De certa forma, por meio da infinita série de obstáculos que se lhe impõem para registrar e patentear o invento, tendo visto, pouco a pouco, o engenho de sua própria lavra ser — literalmente — apropriado por empresários americanos com suas ardilosas negociatas, esse protagonista traduz o triste servilismo do Brasil em relação ao estrangeiro, que ainda subsiste num país que carrega, como marca indelével, as cicatrizes do colonizado.

Imagens do Brasil
Daí por que ser muito significativo o recorte histórico sobre o qual o autor escolhe se debruçar. De fato, havia então a exaltação da indústria nascente, em idos de 1860, quando se afirmavam os discursos a enfatizar um dos períodos de maior empreendedorismo que o Brasil jamais conhecera, representado, por exemplo, pela emblemática figura do Barão de Mauá e pela política de arrojo desenvolvimentista alimentada por D. Pedro II, reforçando a imagem de um Brasil “que precisava ser conhecido”, o que justificaria a chamada “Exposição Nacional”, em que os valores e o espírito criativo dos brasileiros seriam exibidos, pois “civilização era mostrar-se”. O “pântano se civilizaria pelo esforço de nossos empresários”, isso sem falar de nossas riquezas naturais, especialmente a infinidade de madeiras:

Estes pensamentos fizeram com que o padre Azevedo entrasse num pequeno transe. E se pôs a ler os nomes de nossas madeiras e suas utilidades no catálogo dos produtos que foi distribuído aos expositores e aos primeiros e ilustres visitantes. Abiurana, emprega-se na construção civil; abricó, construção civil e naval; acapu, idem; acapurana, emprega-se na marcenaria; acariquara, construção civil e tinturaria… E ele foi repassando uma por uma as madeiras com seus nomes indígenas… […] Tínhamos uma coleção infindável de madeiras, ele conhecia muitas delas de seu trabalho na oficina de marcenaria, e ao pronunciar cada nome passavam odores selvagens por sua lembrança e um desejo de isolamento na mata. […] Talvez a sua máquina valesse alguma coisa não pelo que era, uma invenção que tentava dar velocidade à escrita, mas porque fora feita de madeira retirada de nossas matas.

Mas, em pouco tempo, o espírito ufanista e crédulo do tímido padre inventor — talvez similar ao do ultra-nacionalista, inocente útil Policarpo Quaresma de Lima Barreto — vai perdendo o brilho, uma vez que as intrigas e vilania dos homens de “negócio” acabarão por dissuadi-lo de seu ideal.

Exploração de riquezas
A grave questão da inesgotável exploração de nossas riquezas (como a do excessivo e brutal extrativismo e devastação de florestas) é tratada de modo crucial num excerto do romance que em interessante procedimento narrativo, recupera o artigo de um jornal da época, o Diário do Rio de Janeiro:

Os nossos navios têm saído do porto do Rio de Janeiro com grandes quantidades de pranchões de várias madeiras, que são usadas nas indústrias européias e norte-americanas […] Agora, as nossas riquezas nos fogem para países que falam a língua do progresso. E este novo idioma, basta observar os trens que circulam no país, é o inglês […] Um navio construído com as madeiras do Brasil dura em média duas vezes mais do que aqueles feitos com as madeiras de outros lugares […] Enquanto os outros países usam nossas madeiras, nós estamos querendo construir navios de metal […] Se nossas madeiras não servissem para a construção de navios, por que grandes potências mundiais estariam interessadas nelas para a construção naval?

Identidade nacional
Diante da infinita gama de temas propostos neste último romance, buscando seguir um rumo diverso da tendência mais explicitamente autoficcional que vinha desenvolvendo até recentemente (como em Chove sobre minha infância), Miguel Sanches Neto acrescenta algo a mais às recentes configurações romanescas que problematizam a História. Isso se deve ao fato de que A máquina de madeira se abre, também, ao atualíssimo e sempre candente debate sobre a formação de nossa débil identidade nacional. Afinal, continuamos a presenciar — como nos tempos de D. Pedro II — forjados “ataques epiléticos de nacionalismo” só para “inglês ver” nestes “tristes trópicos”, já tão bem descritos por Claude Lévi-Strauss em 1955 ou por Roger Bastide em Brasil, terra de contrastes (1957) ou, ainda, de modo instigante, neste poema-canção de Itamar Assumpção (1993): “O trópico tropica/ Emaranhado no trambique/ A treta frutifica/ e tritura todo o pique/ A trapaça trina e troa/ E extrapola cada dique/ O tratado é intrincado/ Destratado é truque chique/ O grito atravancado/ Tranca até que eu petrifique/ Tristes gregos e troianos/ Desbragado piquenique”. 

Saúvas e cupins
Dando voz aos que fazem a história tímida e silenciosa dos bastidores, como a desse praticamente desconhecido brasileiro, inventor da máquina taquigráfica, Sanches Neto nos reinscreve — por meio de refinada ironia, da bricolagem de excertos jornalísticos de época e de vozes narrativas distintas — nas tristes páginas de um Brasil que continua a não conhecer o Brasil, afirmando a verdade dos que não tiveram vez e viram seus sonhos devorados pela insaciável fome de cupins, que corroem os ideais da mesma forma com que devoram a “alma pétrea” de nossas madeiras de lei, pois:

Se temos madeira, também temos cupim, muito cupim, com uma voracidade que só os insetos tropicais sabem ter, e também com uma assustadora capacidade de reprodução […] Mas os cupins não respeitam nem mesmo as madeiras de mais cerne e avançam sobre elas como sobre um bolo…

Tanto quanto Policarpo Quaresma, visionário aniquilado pelo sistema a que se devotara, poeticamente tão bem representado no trágico episódio em que vai sendo atacado por inúmeras e famintas saúvas, este criativo Azevedo também, na hora derradeira, delira com uma invasão avassaladora de insetos tropicais invisíveis, os terríveis cupins que acabariam por devorar tudo. Guardando as devidas distâncias, mas de modo análogo, talvez possamos afirmar que esse pesadelo não é muito diverso do que continua, ainda hoje, a nos aterrorizar…

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Miguel Sanches Neto

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Nasceu em 1965 em Bela Vista do Paraíso, Norte do Paraná. Em 1969, mudou-se para Peabiru, onde passou a infância. Professor de literatura brasileira na Universidade Estadual de Ponta Grossa, é romancista, contista e poeta, autor de Um amor anarquista, A primeira mulher, Chá das cinco com o vampiro, Hóspede secreto, Venho de um país obscuro e Então você quer ser escritor?. Já recebeu os prêmios Luiz Delfino de Poesia (1989), o Cruz e Sousa (2002) e o Binacional Das Artes e Cultura Brasil-Argentina (2005). Chove sobre minha infância (2000), seu romance de estréia, foi traduzido na Espanha.

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Miguel Sanches Neto
Companhia das Letras
248 págs.