Sob a pele das palavras

maio 2018 / Sob a pele das palavras / O colono e o fazendeiro, de Carolina Maria de Jesus

Texto publicado na edição #217

O colono e o fazendeiro, de Carolina Maria de Jesus

Poesia de Carolina Maria de Jesus reacende polêmicos debates entre alta e baixa literatura

> Por WILBERTH SALGUEIRO

Wilberth_Salgueiro_foto_217

Diz o brasileiro
Que acabou a escravidão
Mas o colono sua o ano inteiro
E nunca tem um tostão.

Se o colono está doente
É preciso trabalhar
Luta o pobre no sol quente
E nada tem para guardar.

Cinco da madrugada
Toca o fiscal a corneta
Despertando o camarada
Para ir à colheita.

Chega à roça. O sol nascer.
Cada um na sua linha
Suando e para comer
Só feijão com farinha.

Nunca pode melhorar
Esta negra situação
Carne não pode comprar
Pra não dever ao patrão.

Fazendeiro ao fim do mês
Dá um vale de cem mil-réis
Artigo que custa seis
Vende ao colono por dez.

Colono não tem futuro
E trabalha todo dia
O pobre não tem seguro
E nem aposentadoria.

Ele perde a mocidade
A vida inteira no mato
E não tem sociedade
Onde está o seu sindicato?

Ele passa o ano inteiro
Trabalhando, que grandeza!
Enriquece o fazendeiro
E termina na pobreza.

Se o fazendeiro falar:
Não fique na minha fazenda
Colono tem que mudar
Pois há quem o defenda.

Trabalha o ano inteiro
E no natal não tem abono
Percebi que o fazendeiro
Não dá valor ao colono.

O colono quer estudar
Admira a sapiência do patrão
Mas é um escravo, tem que estacionar
Não pode dar margem à vocação.

A vida do colono brasileiro
É pungente e deplorável
Trabalha de janeiro a janeiro
E vive sempre miserável.

O fazendeiro é rude como patrão
Conserva o colono preso no mato
É espoliado sem lei, sem proteção
E ele visa o lucro imediato.

O colono é obrigado a produzir
E trabalha diariamente
Quando o coitado sucumbir
É sepultado como indigente.

O poema O colono e o fazendeiro saiu em Antologia pessoal, de Carolina Maria de Jesus (1914-1977), livro publicado em 1996 pela editora da UFRJ. As quinze quadras emolduradas em um constante esquema rímico ABAB, as rimas maciçamente consoantes (ão/ão, ar/ar, ente/ente etc.), as letras maiúsculas iniciando todos os versos, assim como o ponto final que arremata as estrofes e ainda a solta polimetria dos versos, que variam de 5 a 11 sílabas, e mais a sintaxe e o vocabulário em geral singelos dão a ver um poema que, formalmente, se elabora a partir de certa ingenuidade e de algum espontaneísmo no trato com a matéria verbal. O teor do poema aponta, no entanto, com dureza e rudeza, para o antigo, grave e atual tópos da luta de classes. Na verdade, as supostas “deficiências” do poema mais que indiciam o problema de ordem estética: incorporam-no: o poema mesmo é exemplo da condição de “espoliado” do trabalhador que, “escravo”, e mesmo sem “sindicato”, não tem acesso a formas múltiplas de experiência e de produção artística e cultural, e assim “Não pode dar margem à vocação”. Numa das quadras mais conhecidas do livro, Carolina vai direto ao ponto: “Eu disse: o meu sonho é escrever!/ Responde o branco: ela é louca./ O que as negras devem fazer…/ É ir pro tanque lavar roupa”. Rebelde, a autora de Quarto de despejo insistiu e, “descoberta” pelo jornalista Audálio Dantas, tornou-se por um bom período uma celebridade nacional no mundo das letras.

Obras poéticas como a Antologia pessoal de Carolina Maria de Jesus reacendem polêmicos debates entre alta e baixa literatura, cânones e margens, cultura erudita e popular, arte autônoma e arte massificada e quejandos. Paira sobre o debate a noção de valor, mais especificamente de valor estético. Antoine Compagnon, em O demônio da teoria, afirma que o “valor literário não pode ser fundamentado teoricamente: é um limite da teoria, não da literatura”. Talvez por isso, todos os envolvidos na publicação do livro de Carolina tenham se referido a seus poemas como “obras testemunhais” (Marisa Lajolo, apresentação), “evidente valor testemunhal” (Carlito Azevedo, orelha), “tocante testemunho” (Armando Freitas Filho, nota curta) e “testemunha surda, suja e sem nexo na lógica de uma cultura que diz buscar justiça social, direitos humanos e igualdade feminina” (José Carlos Sebe Bom Meihy, prefácio). Tal aparato de poetas, professores e pesquisadores, e a publicação por uma editora universitária sinalizam não só um movimento de legitimação da escritora mas também uma espécie de gesto reparador. Todavia, Meihy reconhece que, “em face dos cânones sagrados da Literatura, a qualidade de seus escritos é de uma pobreza estilística que faria arrepiar até mesmo os mais tolerantes críticos”. Daí a necessidade de — sem afetada condescendência — o crítico saber ajustar suas ferramentas ao objeto que investiga. Se a investigação se der “em face dos cânones sagrados da Literatura”, decerto obras como a de Carolina ficarão “na porta estacionando os carros” na festa dos figurões da área, mormente homens, brancos, adultos, urbanos, letrados e burgueses.

Se, feito Carolina Maria de Jesus, a candidata a artista for mulher, negra, de procedência rural, semianalfabeta, pobre, mãe (e solteira) de três filhos e favelada — tudo fica mais difícil. Nesse sentido, o teor do poema O colono e o fazendeiro, que fala de injustiças e desigualdades entre o trabalhador e o patrão, entre o que tem (dinheiro, instrução, propriedade, comida, descanso) e o que não tem, pode ser lido também como uma autorreflexão da poeta em relação à própria vida, “pungente e deplorável”, como se pode ler à exaustão no Diário de uma favelada. Não à toa, sua “antologia pessoal” reúne, como diz Carlito, “um amargo catálogo de dores e sofrimentos experimentados pelos humilhados e ofendidos do país”. A cada estrofe, questões se acumulam: [a] a exploração do operário e as péssimas condições de trabalho (estrofes 1, 2, 13: doente, sol quente, de janeiro a janeiro); [b] o flerte com um contexto político à esquerda (3, 8: camarada, sindicato e uma consciência, mesmo difusa, das extremas assimetrias socioeconômicas); [c] a fome constante (4: só feijão com farinha); [d] a “negra situação” (5); [e] a força opressora do patrão (6, 10, 14); [f] a ausência de leis e amparos trabalhistas (7, 11, 14); [g] a morte iminente do corpo que é “matável” (estrofe 16); etc. Estes temas e aspectos se encontram ao longo de Quarto de despejo. Quanto à escassez de comida e, sobretudo, à fome bruta, ali se registra, nos mesmos termos do poema: “3 de agosto [1958]: Hoje os meninos vão comer só pão duro e feijão com farinha”. Audálio, com precisão, afirma que “a fome aparece no texto com uma frequência irritante. Personagem trágica, inarredável”.

Neste poema, se o fazendeiro ganha também a alcunha de patrão, no mesmo eixo de colono há: brasileiro, doente, trabalhador, pobre, escravo, camarada, miserável, espoliado, coitado e indigente. Em Dialética negativa, Adorno cita trecho de O capital de Marx, que contesta o “modo de produção no qual o trabalhador existe para servir às necessidades de valorização dos valores subsistentes, ao invés de, inversamente, a riqueza objetiva existir para servir às necessidades de desenvolvimento do trabalhador”. O trecho de Marx se assemelha ao que denuncia o poema, em especial a estrofe 9: “Ele passa o ano inteiro/ Trabalhando, que grandeza!/ Enriquece o fazendeiro/ E termina na pobreza.”. Seja no Diário ou na antologia de poemas, Carolina incessantemente espera que Deus venha a resolver os inúmeros problemas terrenos, e tal devota postura religiosa (somada a seus laivos patrióticos e românticos) esvazia um tanto a potência revolucionária que poemas como O colono e o fazendeiro disparam.

Hoje, a autora de Diário de Bitita é objeto de dezenas de artigos, dissertações, teses, livros e eventos. Há um movimento, nos últimos tempos, de resgate e entendimento da literatura de Carolina Maria de Jesus. E entendê-la como literatura, considerando ou não o altíssimo teor testemunhal que comporta, é já um reconhecimento de sua força que, a contrapelo, permanece indomesticável, comovendo e incomodando com sua escrita — não mais indigente (como o colono do poema), mas indigesta (como intrusa pedra na festa de nossa história literária), à cata de quem possa e queira, sem favor, compreender a complexidade do significado, do lugar e do valor de sua obra.

Print Friendly