Ensaios e Resenhas

fevereiro 2012 / Ensaios e Resenhas / O catolicismo como profissão

Texto publicado na edição #142

O catolicismo como profissão

Engana-se quem imagina que Georges Bernanos, com suas duras críticas ao sistema católico tradicional francês enraizado nos primórdios do século […]

> Por PAULA CAJATY

Engana-se quem imagina que Georges Bernanos, com suas duras críticas ao sistema católico tradicional francês enraizado nos primórdios do século 20, queria denegrir a imagem da Igreja. Muito ao contrário, foi apontando os erros dos seus operadores e de suas insensíveis audiências, que ele finalmente encontrou o modo de despertar aqueles que estão a dormir no grande, profundo e tedioso sono da existência humana.

É nesse espírito que o autor dá vida ao pároco da pequena aldeia de Ambricourt, situada numa área rural ao norte da França no romance O diário de um pároco de aldeia, romance publicado originalmente em 1936, apenas cinco anos após a estréia de Georges Bernanos na literatura.

Com a autoridade de quem ama intensamente o gênero humano, é que Bernanos impõe sua voz narrativa e a concede a um jovem vigário, hesitante, doente e frágil, mas revestido com a força do amor, o dom da palavra e o espírito santificado da humildade. O romance, de teor religioso, filosófico e humanista, é extremamente confessional e exige mais do leitor do que um simples best-seller aventuresco. Isso lhe rendeu, contudo, premiações e elogios públicos de diversos autores clássicos como Albert Camus e Antônio Carlos Villaça.

O vigário contava com um rebanho que não chegava a duas centenas de paroquianos, entre nobres, burgueses e camponeses, além de alguns amigos, religiosos e superiores das localidades vizinhas. Por algumas vezes menciona a aldeia e seu sentimento para com ela. De início, o desafio: “Que coisa pequena, uma aldeia! E essa aldeia era minha paróquia. Era minha paróquia e eu nada podia fazer por ela”. Em seguida, uma espécie de deslumbramento: “Rezei muito, esta manhã, por minha paróquia, minha pobre paróquia, minha primeira e talvez última paróquia, pois eu gostaria de morrer aqui (…) Sei que minha paróquia existe realmente, que pertencemos um ao outro, por toda a eternidade, porque ela é uma célula viva da Igreja imortal e não apenas uma ficção administrativa. Mas eu quereria que Deus me abrisse os olhos e os ouvidos, me permitisse ver-lhe o rosto, ouvir-lhe a voz. Será pedir demais?”.

Mais à frente, o desencanto se aproxima de mansinho, minando-lhe o amor, as forças, a fé:

Nesta região de bosques e pastagens (…) não encontraria outro observatório de onde a aldeia me surgisse assim toda inteira, concentrada no côncavo de minha mão. Olho-a e nunca tenho a impressão de que ela esteja me olhando também. Mas não acredito que me ignore. Dir-se-ia que ela dá as costas e observa, olhos semicerrados, de esguelha, à laia dos gatos.

Aos poucos, uma espécie de vazio se instala no coração do padre, chegando a dificultar suas orações mais íntimas:

Uma hora: acaba de apagar-se a última lâmpada da aldeia. Vento e chuva. A mesma solidão, o mesmo silêncio. E, desta vez, nenhuma esperança de vencer o obstáculo ou evitá-lo. (…) Deus! eu respiro, eu aspiro a noite, a noite entra em mim por não sei que inconcebível, que inimaginável brecha da alma. É tudo noite em mim.

A partir dessas e outras inquietudes, de uma “revolta surda” e um “impertinente silêncio da alma” cuja magnitude a solidão e o sofrimento apenas ampliavam, o jovem padre inicia o diário, com a pretensão de mantê-lo por somente doze meses, para depois queimá-lo. A princípio, a folha em branco era para ele “um espelho turvo do qual temia ver surgir, de repente, um semblante (…) Um semblante esquecido, novamente encontrado”. À medida em que o diário é escrito, a resolução de destruí-lo vai se diluindo lentamente enquanto o próprio diário vai se tornando cada vez mais essencial, tornando-se o verdadeiro companheiro do padre, seu único alento.

É nesse diário, um verdadeiro confessor, que o padre narra sua luta diária contra diversos e hostis demônios, encontrados em si mesmo, em sua turma de catequese e nos demais paroquianos, fossem eles ricos ou pobres: o mal, o desamor, a tristeza, o desentendimento, a angústia, o pecado e, sobretudo, a desesperança. Como o próprio narrador registra: “O mal lançado não importa onde germina quase fatalmente. Ao passo que a menor semente do bem, para não ser abafada, precisa de uma sorte extraordinária, de uma prodigiosa fortuna”.

Enquanto visita as casas dos aldeões, o pobre padre peregrina a pé levando o peso árduo de sua cruz: um passado miserável, uma doença misteriosa e a mais terrível das dores — a de sentir-se insuficiente e incapaz, a dúvida sobre seu próprio papel perante Deus, o medo de estar aquém de sua grave e relevante missão.

Aprofundando a leitura do diário e aproximando-se cada vez mais do cotidiano do padre e de suas tantas agonias, o leitor antevê o desamparado pároco de Ambricourt espelhar todos os padres do mundo, experimenta seus dissabores, disseca suas pequenas alegrias, descortina suas árduas provações em um contexto no qual o divino vai se tornando cada vez mais dispensável e incômodo.

Na primeiro e segundo capítulos do livro, Bernanos concentra-se em descrever as reflexões mais íntimas do padre e seus encontros com o vigário de Torcy, além de se deter nas justificativas para a existência do diário e em algumas questões práticas relativas à administração paroquial: limpeza, contabilidade, tarefas e compromissos, ou, como ele mesmo lembra “Levar palha fresca para o boi, cuidar do burro”.

Com isso, o leitor tem um lampejo da dimensão do catolicismo enfrentado como profissão, observa o dia-a-dia conflituoso do profissional da fé. Claro que, como qualquer profissão, tudo aquilo que é paixão pela teoria cede espaço à intensa decepção da prática, e o padre, revestido da inocência que lhe é peculiar, sente-se extremamente vulnerável ao confrontar a miséria e a esterilidade dos corações humanos, chegando a preferir até mesmo o destino abençoado de um frade de convento e os confortos de uma vida simples de silêncio e oração.

Em certo ponto, contudo, o leitor chega a se perguntar se o livro correrá todo ele no mesmo compasso, divagando sobre questões abstratas de economia, religião, sermões, e as antigas dicotomias ocidentais entre pobreza e riqueza, bem e mal. Ainda neste momento, o padre sente-se extremamente acolhido pela amizade do vigário de Torcy, homem mais experiente e cuja alegria suplantava os mais terríveis obstáculos de um ministério.

A partir da metade do segundo capítulo, porém, Georges Bernanos surpreende o leitor ateando fogo nos diálogos do padre com a senhorita Chantal, a jovem filha do Conde Omer, e com sua esposa, a Condessa. Logo a partir desse momento, o padre assume involuntariamente a função de compor o conflito familiar no castelo, estabelecido entre Chantal e seus pais, tendo como pivô a preceptora Luíza.

É então que a força do pároco se revela. Nos embates verbais com aqueles que já pareciam estar perdidos e para salvar suas ovelhas desgarradas, ele parece ser dotado de uma força sobrenatural que o permite lutar com vigor na defesa das crenças mais profundas da igreja: a fé, o amor, a esperança, a alegria. À medida que se depara com a má reputação que adquiriu em sua própria aldeia, apesar de todos os seus esforços, o padre finalmente liberta-se da expectativa de agradar e assume ser apenas o que é, sem angústias e decepções, atingindo um grau de serenidade que antes lhe parecia impossível.

No entanto, por um infeliz acaso a condessa morre logo após sua acalorada discussão com o padre, o que o deixa em situação extremamente delicada, pondo em risco inclusive a sua designação para Ambricourt. Em particular, o conde deixa claro que considera a intervenção do padre em sua família a causa “involuntária… ao menos inconsciente (…) de uma grande desgraça”, tornando o próprio padre e suas imprudências “um perigo para a paróquia”.

Atravessando tais provações, malquisto por sua comunidade e com a desconfiança de seus superiores, solitário e doente, o padre agarra-se cada vez mais ao diário e aos poucos amigos que teve a graça de encontrar.

Além do diário, o frágil padre conta com a amizade do vigário de Torcy, a quem admira especialmente por sua altivez e alegria inigualáveis. Este amigo é o único que lhe fala as mais cruas verdades com ternura e compaixão, de tal modo que, a cada dificuldade enfrentada, era preciso “lutar, sem descanso, contra a tentação de correr a Torcy” e, por vezes, ao saber que o amigo não se encontrava para lhe ouvir, a decepção era tão forte que tinha de apoiar-se à parede, para não cair.

Outra amizade é feita quando inadvertidamente, ao pegar uma carona de motocicleta, o padre resgata o prazer de sua juventude na estrada para Mésargues, com Olivier Sommerange, primo da condessa e ex-soldado da Legião Estrangeira. Em uma breve conversa com Olivier, o padre compreende que suas provações não são muito diferentes daquelas que um soldado experimenta no front de batalha. Após algum tempo, finalmente indo à consulta médica na cidade de Lille, também é capaz de descobrir a intensa proximidade de sua história com a do médico Laville.

É nesse contexto que o padre tem de enfrentar sua própria finitude e por várias vezes compara o tédio — o mal oculto que enfraquece a religião — às doenças silenciosas que tomam conta do homem e o debilitam severamente até a morte. O próprio padre é vítima desse mal insidioso. Lançando mão de uma dieta rica em vinho e pobre nos demais alimentos, compromete definitivamente sua saúde e resta pouco tempo para reconciliar-se consigo mesmo, numa agonia perfeita, silenciosa, santificada.

Com a precisão de sua narrativa, Bernanos cria sua maior obra-prima a partir de um tema que não poderia ser mais singelo: o diário de memórias e impressões de uma pobre alma cristã perdida no turbilhão de um mundo sem amor. Um mundo que se assemelha ao inferno, pois, como ele repete enfaticamente por duas vezes “O inferno é a ausência de amor”. Voltando ao livro, mais detidamente, evidencia-se o cuidado do autor dando a cada parágrafo seu peso, a cada palavra, sua particular relevância, de modo que nada é registrado frivolamente.

O romance, editado originalmente em 1936, possui tantas passagens geniais que ganhou o grande prêmio de melhor romance da Academia Francesa, e foi transformado em filme em 1951 pelo diretor Robert Bresson.

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Georges Bernanos

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Foi um escritor e jornalista francês, tendo nascido em Paris, em 1888, e falecido em Neuilly-sur-Seine, em 1948. Foi soldado de trincheira na I Guerra Mundial e repórter na Guerra Civil espanhola, posteriormente formando-se em Direito e em Letras. Casado com Jeanne Talbert d’Arc, descendente do irmão de Joana d’Arc, teve seis filhos entre 1918 e 1933. A família mudou-se para o Brasil em 1938, fugindo da II Guerra Mundial e defendendo a Resistência Francesa. Estabeleceu-se a princípio em Itaipava (RJ) e depois em Juiz de Fora, Vassouras, Pirapora e Barbacena, cidades mineiras onde escreveu vários de seus artigos e livros. Bernanos, após contribuir regularmente para a imprensa brasileira e para algumas revistas francesas, retorna à França em 1946 e falece pouco tempo depois, em 1948. Sua última residência, no bairro de Cruz das Almas, em Barbacena (MG), foi transformada no Museu Georges Bernanos em 1968.

Não passo de um pobre padre, muito indigno e muito infeliz. Mas sei o que é o pecado. A senhora não o sabe. Todos os pecados se parecem; há um só pecado. Não lhe falo em linguagem obscura. Essas verdades estão ao alcance do mais humilde cristão, desde que ele se digne recebê-las de nós. O mundo do pecado está perante o mundo da graça, como uma paisagem perante sua própria imagem refletida em uma água negra e profunda.

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