Inquérito

agosto 2015 / Inquérito / O bom camareiro

Texto publicado na edição #184

O bom camareiro

26 perguntas a Fabrício Carpinejar

> Por RASCUNHO

Fabr

Fabrício Carpinejar

Fabrício Carpinejar tem medo da preguiça. Acorda e já arruma a cama, para evitar a tentação de mergulhar novamente nas cobertas durante o dia. Foge da malemolência que assombra os escritores. E pela sua trajetória parece mesmo que a preguiça jamais o alcançou. Nascido em Caxias do Sul (RS), em 1972, estreou na literatura em 1998 com as poesias de As solas do sol. Desde então, já publicou 30 livros, entre poesia, crônica e infantojuvenil. Seus livros já venderam mais de 100 mil exemplares. O último é a coletânea de crônicas Para onde vai o amor? (Bertrand Brasil).

• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Pela minha vocação de nunca fechar uma conta e deixar livros e amores em aberto.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Sou obsessivo. Mando o texto para o email e releio, para o whatsapp e releio, para o SMS e releio, imprimo e releio. Até o último momento, releio. Sou um condenado à morte saboreando sua derradeira refeição.

• Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?
Leio os jornais do Rio, São Paulo, Porto Alegre e cadernos culturais de outros estados toda manhã.

• Se pudesse recomendar um livro à presidente Dilma, qual seria?
Memórias póstumas de Brás Cubas. Vivemos um período similar, em que as aparências são mais importantes do que os fatos.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
De manhã cedo, enquanto não falo com ninguém, não fui contaminado pela irritação dos outros.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
No inverno, diante de uma lareira.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Quando esqueço que tenho que almoçar.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Inventar uma história e todos acreditarem que aconteceu. Até eu.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
A preguiça, pois ele trabalha em casa. Eu acordo e já arrumo a cama, para não vê-la me seduzindo, desarrumada, durante o dia.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
A vaidade da crítica. Jurar que uma crítica é um atestado de nascimento ou óbito. Não levar esportivamente opiniões contrárias. Todo escritor que é criticado trata de responder — desde quando literatura virou direito de resposta?

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
A prodigiosa literatura infantojuvenil de Wander Piroli

• Um livro imprescindível e um descartável.
Testamento, Paulo Mendes Campos. Descartável: qualquer antologia em que o poeta precisa pagar para ser editado.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Inverossimilhança

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Economia, de modo direto e ostensivo. Acho que nunca escreveria sobre a bolsa de valores.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Caixa d’água. No litoral gaúcho, ela é bem alta e funciona como um farol para os moleques.

• Quando a inspiração não vem…
Faço café.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst. Os três juntos. O curioso é que eles frequentaram a minha casa quando era pequeno, e nem dava bola para a conversa chata dos adultos. Pegava a bola e corria para a rua.

• O que é um bom leitor?
O que duvida do escritor e busca desvendar o que ele está escondendo em cada frase.

• O que te dá medo?
A infelicidade silenciosa de quem eu amo.

• O que te faz feliz?
A felicidade ruidosa de quem eu amo.

• Qual dúvida ou certeza guia seu trabalho?
Esperança é humildade.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Ser intenso e emocionado. Posso mirabolar, criar, fantasiar, mas jamais mentir os meus sentimentos.

• A literatura tem alguma obrigação?
A de não ser obrigada.

• Qual o limite da ficção?
O plágio.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Para minha casa.

• O que você espera da eternidade?
Que ela não venha repetir meu passado.

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Uma resposta para “O bom camareiro”

  1. alx disse:

    Imagine Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst não frequentando a sua casa, Fabrício…

    – imaginou?

    – ok, você ainda é escritor?

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