Ensaios e Resenhas

maio 2014 / Ensaios e Resenhas / O bem vence o mal

Texto publicado na edição #169

O bem vence o mal

O que falta ao ser humano? Vir de fábrica com a tatuagem, em lugar bem visível, “aprecie com moderação”. Pouco […]

> Por LUIZ HORÁCIO

O que falta ao ser humano? Vir de fábrica com a tatuagem, em lugar bem visível, “aprecie com moderação”. Pouco importa se estranho ou familiar, o perigo é o mesmo. Desprezo, roubos, assassinatos e por aí afora. No quesito assassinato, parece que o mais em conta é cometer o crime dentro do núcleo familiar. Fica tudo em casa.

Para enfrentar essa convivência inevitável com seu semelhante, o homem recorre aos ensinamentos de gurus, de deuses, de pastores, no mais das vezes de personal trainers. Não fujo à regra, também tenho meu guru, aquele que me guia, que me impulsiona e que também me freia, atende pelo nome, sem sobrenome, medo. Foi o que consegui dentro de minha precariedade. Emma Forrest, outra classe social, encontrou no seu psiquiatra, apelidado de Dr. R, o seu guru. A autora não disfarça a sua gratidão. Guru porque ele ultrapassa os limites profissionais e torna-se amigo e confidente de Emma.

Nove anos atrás, o dr. R salvou minha vida. Graças a ele, meus pais tiveram sua filha de volta. Temos uma dívida eterna e somos eternamente gratos pela dádiva de sua presença em nossa vida. Com o passar dos anos, eu brincava com ele dizendo que ele era um otimista terminal. Graças a Deus ele era assim; peguei carona em sua fé e entusiasmo por um longo tempo. Levarei o dr. R comigo sempre. Eu me esforçarei para imitar sua gentileza e equilíbrio, especialmente perto dos que são doentes e sofrem, como eu era quando tive a sorte de ficar sob seus cuidados.

Sua voz dentro de mim apresenta as memórias de Emma. Está lá seu medo, e ela o torna público ao revelar temer seu lado escuro, até então algo extremamente particular.

Durante o período em que Emma foi paciente do Dr. R, oito anos, surgem flashbacks, alguns emblemáticos, tanto para a narrativa quanto para o leitor começar a suspeitar do equilíbrio da autora/personagem. Um exemplo: Emma, então com 13 anos, visita a galeria Tate, em Londres. Ela não economiza tempo em sua observação do quadro Ofélia, tela de John Everett Millais.

Vale lembrar que Ofélia traduz a mulher trágica que à época —1852 — era presença constante na pintura romântica. Outro detalhe: Ofélia era a namorada suicida de Hamlet. Na pintura de Millais, a mulher flutua em um lago, aparenta melancolia e resignação.

O primeiro romance de Amélie Nothomb, Hygiène de l’assassin, traz detalhe dessa mesma pintura na capa. O livro narra a história de um prêmio Nobel de literatura ao qual restam dois meses de vida. Jornalistas do mundo inteiro pretendem entrevistá-lo, poucos conseguem. Um misto de entrevista e tortura. Cinismo e ambiguidade podem ser a tradução da obra de Amélie. Tudo resguardado por Ofélia. Pontos em comum com Sua voz dentro de mim? Vários. Elejo um: a sombra da morte que paira e espreita.

Essa sombra que não se limita a perseguir a autora, incluo seus namorados durante esse período de terapia. Eles se tornam personagens importantes na narrativa. Os relacionamentos ocorrem ao ritmo dos descompassos de Emma, capazes de carregar ambos às profundezas mais escuras, ou relacionamentos tranquilos, beirando a monotonia.

Emma Forrest até certa altura da vida parecia não ter motivos para se preocupar com questões tão subjetivas, o medo que alimentamos ou que nos acostumamos é coisa nossa. Este aprendiz, embora tosco, tem medos paralisantes de alguns de seus pensamentos. Mas deixemos isso de lado. Trouxe o exemplo apenas para mostrar que esse vírus ataca mentes privilegiadas e também as simplórias. No caso, a do resenhista. Pois bem, tudo transcorria conforme o figurino na vida da protagonista, talvez até excedendo as expectativas. A autora, ainda jovem, abandonou a segurança familiar em Londres e foi viver em Nova York. Ela desfilava pela passarela da vida, seu dia a dia era de causar inveja ao mais ferrenho budista. Jornalista e escritora, trabalhava para o The Guardian e seu primeiro livro não tardaria a ser publicado. Essa é a parte clara da vida da autora, o lado escuro acolhia a jovem com problemas psiquiátricos que se manifestavam via bulimia e automutilação.

O tema é forte e infelizmente se propaga em nosso cotidiano — conheci jovens que se cortavam e a bulimia é quase um modismo —, mas Emma trata suas memórias com humor inteligente. Inclusive no auge de sua depressão, pelo menos no livro, ela não permite o domínio da tristeza, da autopiedade.

Sua voz dentro de mim, embora sua primorosa narração que empresta leveza ao tema, é mais um livro de autoajuda. O bem, mais uma vez, vence o mal. Mesmo quando esse bandido cruel repousa dentro de nós.

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Emma Forrest

Emma_Forrest

A jornalista, escritora e roteirista Emma Forrest foi criada em Londres, Inglaterra, e começou a carreira ainda adolescente, quando foi convidada para assinar uma coluna no jornal Sunday Times. Posteriormente, colaborou com publicações como Vogue, Vanity Fair e Harper’s Bazaar, entre outras, e teve roteiros comprados por produtoras como Plan B Entertainment, do ator Brad Pitt, e Miramax. Atualmente, vive em Los Angeles, Estados Unidos.

A primeira vez que fui ver o dr. R foi em 2000, um bom ano para mudar de vida. Peguei o trem da linha 6 ao sair da emergência,onde passei a noite toda. Eu me tornara tão entorpecida em minha vida, que nem o sexo eu registrava, a não ser que doesse, e então eu, muito distante, podia ver que era eu na cama. Apesar dos cor- tes e da bulimia, eu não conseguia ser rápida o suficiente para me machucar, então o namorado era de alguma ajuda.

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Emma Forrest
Trad.: Maira Parula
Rocco
192 págs.