Dom Casmurro

maio 2012 / Dom Casmurro / O amor acontece

Texto publicado na edição #145

O amor acontece

Capítulo I — Gostou da idéia? Basta escrever uma história de amor. — Mas… por que de amor? —Porque vende! […]

> Por LÚCIA BETTENCOURT

Ilustração: Robson Vilalba

Capítulo I

— Gostou da idéia? Basta escrever uma história de amor.

— Mas… por que de amor?

—Porque vende! E porque é fácil, ora! Tudo o que você tem a fazer é ficar um mês hospedada na cidade, e, neste tempo, bolar uma história de amor, que depois até poderá ser filmada.

— E quem é que diz que uma história de amor é fácil? Inda mais numa cidade estranha. Não conheço ninguém por lá. Não falo essa língua cantada deles. Sou tímida. Vai ser impossível!

— Porra! Pára de doce! Um trabalho desses mais parece um prêmio! Toda uma população de escritores frustrados e invejosos dando qualquer coisa para estar em seu lugar e você aí reclamando que não dá. Escreve uma merda qualquer, põe uns nomes de ruas e de praças famosas e entrega. O dinheiro está garantido mesmo! Ninguém está querendo que você se apaixone, e muito menos querendo que se apaixonem por você. O negócio é inventar uma história.

— Mas é isso aí. Ir para lá, uma cidade assim tão romântica…. Tenho medo de arrumar complicações sentimentais! Minha vida está tão boa, tão descomplicada…

— Caraca! Não confunda vida real com ficção! Não é para você se envolver com ninguém, é só para você absorver a cor local. Será que vou ter que te ensinar tudo?

— Como, ensinar?

— Olha aí. Imagina a história: Você está em Veneza…

—Tá vendo? Já complica tudo. Veneza é cheio de clichês…

— Clichê facilita, pombas! Até entregador de pizza vira uma maravilha quando está numa gôndola. Põe o cara numa gôndola, descreve os músculos dos braços dele se destacando na camiseta listrada, pinga uma ou duas gotas de suor descendo lentamente pelo pescoço grosso do tipo e…

— Já sei, mas eu nunca me apaixonaria por um entregador de pizza numa gôndola, por mais tesudo que o cara fosse.

— Por quem é que você se apaixonaria?

— Deixa eu ver…

— Anda logo! Vamos decidir logo esse enredo que eu tenho que dar aula.

— Bem, acho que gostaria de me apaixonar por um poeta. É, um poeta. Inteligente, mas sem ficar se mostrando demais. Meio inseguro. Sim, mas só às vezes. Mais para calado, mas de um silêncio prenhe de significados…

— Era você que estava falando alguma coisa contra clichês?

— Eu sei, mas, na verdade, conheci um cara assim na adolescência. Ele ainda não era poeta, era só meu colega de escola. Mas já gostava de poesia, e ficava lendo uns livros de Rimbaud…

— O cara era bicha.

— Bicha nada! Lia Rimbaud e lia Bandeira, e lia João Cabral.

— Como era a cara dele?

— Sei lá. Era uma cara de adolescente, cheia de espinha.

— E como é que você se apaixonou por um cara cheio de espinhas?

— Mas quem foi que disse que eu me apaixonei? Nós éramos bons amigos…

— Que idade vocês tinham?

— Uns dezesseis, ou dezessete.

— Um cara normal, cheio de hormônio, nessa idade, sendo apenas “amigo” de uma gatinha?

— Quem disse que eu era gatinha?

— Para um cara normal, de dezessete anos, toda menina dessa idade que se disponha a escutá-lo falar de Rimbaud é gatinha. Gatinha não. Gatésima!

— Tudo bem. Eu até que não era das piores, mesmo. E tinha um peitão… Meu peito cresceu antes do peito de todas as garotas da turma.

— E que fim levou?

— Como? O que é que você quer dizer com isso? Está criticando o meu peito? Olha o ditado, hein? “Quem desdenha quer comprar!”

— Comprado não. Mas se você der…

— Me respeite. Você está debochando de mim.

— Não! Estou tentando te mostrar como é fácil cumprir sua tarefa. Você curte umas férias e ainda escreve uma história de amor, sem se desgastar.

— Então, vamos lá. Digamos que já estou em Veneza. Ele é poeta.

— Sim, e tem dezessete anos.

— NÃO! Imagine se eu ia me apaixonar, hoje em dia, por um fedelho cheio de espinhas na cara!

— Então ele tem sessenta e sete anos…

— Por que sessenta e sete?

— Sei lá. Gostei do número. E dá para fazer uma história legal, tipo “Morte em Veneza”, uma última paixão antes do fim. O gran finale de uma vida!

— Não. Você está com fixação em veadagem. Imagina, meu poeta cheio de maquiagem derretendo com o calor! Nunca. Prefiro não me apaixonar.

— Assim não dá. Você põe defeito em tudo o que eu falo, mas não colabora com nada.

— Desculpe, vai. Mas por que você não põe o poeta assim da sua idade?

— Mas o poeta é seu! Você dá a ele a idade que quiser. Então, ele tem a minha idade. Nasceu no mesmo ano que eu, é de uma boa safra!

— Isso mesmo.

— Mas é pálido.

— Pálido nada. Ele é poeta mas adora andar à beira-mar. Bem, no caso, à beira dos canais. Acorda cedo todos os dias e vai fazer uma caminhada. Ele caminha pelas pontes. Está sempre atravessando pontes…

— Uma mania estranha, mas até que combina com um poeta. Isso pode se tornar uma metáfora da própria poesia que ele pratica.

— Taí! Gostei. E ele trabalha, e é casado, tem dois filhos, um do primeiro e outro do segundo casamento…

— Calma, calma. Isso aqui não é biografia. É história de amor. Qual é a graça de colocar como herói um homem casado? E, pior, um homem duplamente casado, tendo que lidar com ex-mulher, pensão, TPM da nova mulher…

— Ai, não corta o meu barato! Além do mais, adultério é sempre mais interessante do que um namorico desimpedido! Se você pensar nas grandes histórias de amor, tem sempre um adultério no meio. Veja Madame Bovary! Veja Anna Karenina!

— Isso é teoria de francês.

— Pera lá! Anna Karenina é de Tolstói. Russo!

— Eu sei. Mas a Rússia, na época dele, podia ser considerada uma sucursal da França.

— Você nunca dá o braço a torcer, né?

— Pra quê? E, além do mais, estou com a razão. Os russos ricos pensavam que estavam na França. No próprio romance todo o mundo só fala francês, só veste francês, só…

— Tudo bem, mas ao menos você reconhece o valor de um bom adultério?

— Hoje em dia esta palavra nem se usa mais. A-dul-té-ri-o. Que coisa mais antiga! Mas acho que gosto da idéia de um amor que venha para resgatar o seu poeta de uma vida que se tornou muito banal. Um poeta, funcionário público, casado e com filho… só Drummond.

— Pois é, está vendo? O Drummond tinha uma amante!

— Outra palavra fora de moda. A-man-te. Você está querendo escrever algo no gênero de Nelson Rodrigues?

— Não. Detesto estas patologias sexuais suburbanas.

— Então vamos recomeçar. Esta história de amor já está nascendo muito antiga. Só que agora preciso ir dar aula. A gente se fala.

— Ah, não. Vamos marcar hora e lugar para a gente se encontrar. Esse negócio de “a gente se fala” é muito vago, vou ficar na ansiedade. Vamos jantar, mais tarde?

— Hoje não dá. Tenho que levar a Clarinha ao dentista. Prometi à mãe dela.

— Então a gente almoça uma saladinha amanhã.

— Nem pensar! Amanhã é dia de jogo do Brasil. Já me programei todo para assistir. Convidei uns amigos, comprei cerveja…

— Mas esse jogo nem vale para nada. É só um amistoso. Você dá mais importância a um jogo vagabundo do que à nossa amizade? Cara, preciso de você. Não me deixa na mão.

— Não estou te deixando na mão. Pelo contrário! Não se esqueça que fui eu que dei a maior força para você arrumar essa boa. Indiquei teu nome, mexi os pauzinhos… E agora estou aqui, dando uma de “personal editor” pra tua história. Só que jogo do Brasil é minha terapia. Paro tudo e vou ver.

— Cara, você é de uma insensibilidade total! In-sen-si-bi-li-da-de. Não é assim que você gosta de dizer essas palavrinhas antigas? Pois é. É antiga, mesmo, mas vem ao caso e cai perfeitamente aqui. Você é um insensível, um homem de palha, sacou? A gente te toca assim, ó, e você estala, cheio de palha seca, sem vida.

— Olha a agressão!

— Agressão o caramba! Quem é que agride quem? Você é que me agride com a sua indiferença e seu pouco caso. Não sei como é que eu consegui permanecer tua amiga todos esses anos. Vai. Anda logo. Não quero mais falar com você. Nunca mais! Pra mim chega! Some! E não adianta me ligar.

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