Ensaios e Resenhas

agosto 2014 / Ensaios e Resenhas / Novela das nove

Texto publicado na edição #172

Novela das nove

Em “Madrugada suja”, Miguel Sousa Tavares esbarra em clichês típicos da dramaturgia televisiva

> Por GUILHERME PAVARIN

Novela, para a maioria dos brasileiros e dos portugueses, não é, como convém chamar nas rodas literárias, um romance curto. Usamos quase sempre a palavra para tratar de enredos que prezam por dramas familiares pasteurizados, longos suspenses, tabus amenos e redenções amorosas cujo mote, além de criar modismos e atrair anunciantes, é fazer o público se identificar com personagens e, tal qual uma torcida domiciliar de futebol, vibrar pela fortuna ou desgraça daqueles que lhe parecem. Ao fim de alguns meses, trocam-se os nomes. Os moldes permanecem.

A popularidade desse gênero televisivo entre nós, lusófonos — angolanos e moçambicanos inclusos —, influencia ainda hoje nosso modo de consumir cultura e, não é exagero, de pensar e escrever. Pare para pensar em quantos livros ou filmes em nosso idioma apostaram na consagrada fórmula de um protagonista que descobre ser filho de outro na vida adulta. Quantos, tente contar, tiveram no elenco um paraplégico que volta a andar. Mentalize a quantidade de tramas em que todos os personagens parecem viver num microcosmos em que, não importa a distância e a improbabilidade, todos se encontram e nenhuma ponta fica solta. Dá para listar dúzias. A nós interessa o romance Madrugada suja, do escritor e jornalista português Miguel Sousa Tavares, de 62 anos, uma obra que, acredite, consegue condensar todos os clichês citados acima em 350 páginas. Narrada em primeira pessoa pelos personagens principais — exceto por alguns capítulos escritos por um narrador onisciente —, a trama conta em detalhes a saga de uma família formada no pequeno vilarejo de Medronhais da Serra, em Portugal. O personagem central é Filipe, um gajo de caráter heroico que vai à cidade grande estudar arquitetura e trabalhar em um escritório político, onde tentam lhe corromper. Para conseguir a aprovação de projetos absurdos, as autoridades se aproveitam de um crime nunca solucionado de que Filipe teria participado na adolescência, durante uma madrugada de bebedeira, ao não prestar socorro depois de um atropelamento. Caso Filipe não autorize o início das obras, será julgado e preso por um crime de muitos anos atrás.

A história é interessante, atual. O problema é como os fatos se ligam. Os encadeamentos parecem o tempo todo frágeis, exagerados e artificiais, como uma telenovela. Há pelo menos dois exemplos significativos. O primeiro é quando a vítima do crime, que se torna paraplégica e depois volta andar, revela ser a juíza do caso. Assemelha-se a uma trama infantil cujo justiceiro, ao tirar a máscara, tem o rosto de um dos protagonistas. O outro: Filipe descobre ser filho biológico do primeiro-ministro de Portugal por meio de uma carta deixada por sua falecida mãe. Falta só a vinheta para o intervalo comercial.

O mais curioso — e irônico — é que ao narrar a rotina de Medronhais da Serra, Tavares comenta por mais de uma vez o papel das telenovelas como maior entretenimento no vilarejo. Quando chegam os primeiros televisores ao local, escreve, homens e mulheres passam a acompanhar as produções brasileiras e mudam suas rotinas. Reúnem-se em volta de uma tevê e conversam sobre os melodramas que assistem pela tela. É o momento de reflexão dos habitantes locais; a hora em que assentam suas subjetividades. Seria uma grande sacada se Tavares brincasse ou transgredisse a influência excessiva das novelas sobre seu próprio texto; ou então, por outro lado, com menos sarcasmo, homenageasse essas produções audiovisuais com referências claras. A impressão, porém, é a de que o autor escolhe as formas mais fáceis de contar história. Faz-se literatura como quem escreve capítulos para a novela das nove. Às pressas, sem apreço pelo cuidado, pelo detalhe. Quase como um piloto automático de enredo.

A formação política do romance-novela
Miguel Sousa Tavares é figura ilustre em Portugal. Formado em direito e jornalista de ofício, trilhou uma carreira sólida na imprensa lusitana com premiadas reportagens sobre sociedade, política e comportamento. Quando decidiu se dedicar à literatura, passou também a comentar em telejornais sobre assuntos variados, do futebol às artes. De fala calma, o tom grave e direto, costuma disparar críticas contundentes para todos os lados. Nos últimos anos, defendeu o direito dos fumantes, opôs-se ao acordo ortográfico e, em nome da “liberdade das minorias”, posicionou-se contra o fim das touradas. É, dizem os lusitanos, do tipo ame ou odeie.

Na carreira literária, Tavares obteve bastante sucesso com o Equador, de 2003, um romance histórico que se tornou best-seller em países europeus como Itália e Sérvia. Nos lançamentos seguintes procurou explorar o seu notável talento em recontar histórias do passado. Deu certo. Firmou-se como um dos autores mais lidos de seu país.

Em Madrugada suja o autor usa sua experiência de reconstruir os fatos para ilustrar as mudanças sociais no país nos últimos sessenta anos. No percurso, arma-se de personagens icônicos, como o anarquista que é fascinado por aviões e pela globalização, o doutor progressista e culto que enlouquece, os comunistas que reclamam do salário, entre outras figuras bem trabalhadas. Numa das melhores passagens do livro, quando um personagem larga a família para integrar um movimento revolucionário, ele se envolve com uma alemã que vai a Portugal lutar também pela reforma agrária. Nenhum dos dois consegue se comunicar um com o outro por palavras, e a relação amorosa, de um ano, acontece apenas por meio de gestos e toques. As cenas e descrições são sucintas e belas. “Como se pode amar alguém com quem não se pode falar?”, diz o homem. A capacidade de enxergar e representar o cenário político-social de Portugal por meio de passagens ricas de significado como essa é, sem dúvida, o ponto alto de Tavares.

A escrita do português flui de modo similar a sua fala. É simples e elegante, sem rodeios. As descrições são breves e prezam mais o mundo interior, dos pensamentos e das sensações, do que as imagens e os gestos, o fora. O recurso de intercalar longas narrativas com cartas escritas por variados personagens da trama poderia ser um desastre na mão de um autor menos hábil. Cai bem no romance. Vê-se pelas 350 páginas uma narrativa coesa, sem experimentalismos ou inovações formais, mas bem resolvida.

Contudo, talvez por trabalhar mais com retratos históricos, o autor se sai melhor ao escrever sobre o passado do que nas construções de personagens e situações contemporâneas. As descrições, muitas vezes, são banais — “acendeu o charuto”, “mexeu o café”, etc. — e os personagens são tão comuns que poderiam sair de um catálogo para ajudar autores de best-sellers. Um advogado é o que se espera de um advogado (obcecado pelo trabalho, a fala pomposa); o político é o político (sedento por poder, bem de vida, sem conflitos), e por aí vai. Não ultrapassa o estereótipo.

A busca por um herói português
Em seus artigos em jornais e comentários televisivos, Tavares desmascarou alguns esquemas de corrupção de Portugal. No livro, cita, com licença da ficção, algumas dessas práticas comuns de enriquecimento ilícito no país: criação de empresas virtuais, acordos e facilidades com gente do alto escalão de Angola, suborno em troca de favores ou vista grossa, entre outras tarefas que nós brasileiros, por irmandade ou não, também estamos acostumados a ler e ouvir. O cenário é um tabuleiro em que todos jogam sujo para ganhar mais posses e poder.

No meio dessa guerra de egos, surge um personagem destroçado, com alma melancólica e caráter inabalável: Filipe, o arquiteto. Sua vida é sofrida. Quando menino, perdera a mãe, enfermeira. Pouco depois, aquele que acreditava ser seu pai, um homem quieto e de muitas leituras, também o deixa para integrar um movimento revolucionário. Este nunca mais volta; morre no campo, num acidente. Filipe é criado pelos avós paternos. Ao se formar, recebe da avó uma carta que sua mãe havia deixado e tem a notícia de que seu verdadeiro pai era um médico que havia passado por Medronhais. De boa aparência, bem relacionado e sem poupar esforços na escalada ao poder, o “Doutor” é escolhido para ser candidato a primeiro-ministro por um dos maiores partidos do país. E vence.

Antes de assumir o cargo, no entanto, Filipe, o filho que o médico nunca soube ter, aparece em seu gabinete e revela conhecer todos seus truques. O que se vê, então, é um conflito psicanalítico que ganha contornos políticos. Bom investigador, o personagem central do livro grava conversas e depoimentos, e imprime uma série de documentos que comprovam as várias infrações de seus aliados. Depois da revelação, pede para o pai renunciar do cargo. Usa, a bem dizer, da mesma arma pela qual tentam incriminá-lo no início do livro: a chantagem. A diferença é que o motivador de Filipe não é dinheiro, tampouco um reconhecimento sentimental por parte do pai ou iniciar uma carreira de detetive, justiceiro ou investigador. Sua única razão para acabar com a vida dos corruptos, entre eles seu pai, é uma consciência limpa.

A mensagem de Tavares é clara: um homem sem grandes ambições, abandonado e forte, de aura melancólica e que luta pela honestidade é o atual herói português. Em tempos de sujeira e crise, sugere, é de gente íntegra que o país precisa. Pode não ser um pensamento tão edificante e menos ainda a conclusão de uma grande obra literária, mas, caso a intenção do autor tenha sido um breve retrato da formação da elite e dos movimentos revolucionários portugueses, o objetivo foi cumprido. De quebra, fez-se um herói — de novela, verdade seja dita.

Print Friendly

Miguel Sousa Tavares

Miguel_Sousa_Tavares_2_172

Nasceu em 1952, no Porto. Trabalhou por dez anos como advogado em Lisboa, mas sua carreira mais notória é a jornalística. Teve reportagens premiadas e hoje é, além de escritor, comentarista político no canal SIC de televisão e no jornal Expresso. Seu livro mais famoso é o romance histórico Equador, de 2003. É um dos autores mais lidos em Portugal.

Se ao menos a televisão tivesse chegado a tempo a Medronhais da Serra, talvez ela ainda fosse viva hoje. Mas não: primeiro, foi a eletricidade que chegou à aldeia, trazida pela Revolução, embora com atraso, e financiada já por dinheiros europeus. E pouco depois, em 1984, o primeiro aparelho de televisão jamais visto em Medronhais foi instalado no Café Central — o único café e o único centro da povoação.

Miguel_Sousa_Tavares_Madrugada_suja_172

Miguel Sousa Tavares
Companhia das Letras
350 págs.