Ensaios e Resenhas

dezembro 2013 / Ensaios e Resenhas / Nosso destino é ser brocha

Texto publicado na edição #164

Nosso destino é ser brocha

Conheci uma jornalista na casa de uma prima de Dalton Trevisan em Curitiba no começo dos anos 1970. Chamava-se Julia […]

> Por JULIÁN ANA

Conheci uma jornalista na casa de uma prima de Dalton Trevisan em Curitiba no começo dos anos 1970. Chamava-se Julia e durante quatro semanas acreditei que me amaria para sempre. Um dia, avisou-me que estava grávida, deu-me um beijo na testa e, antes de bater a porta com a mochila nas costas para nunca mais voltar, afirmou que eu não me preocupasse, pois ela não teria o filho. Era um jeito de dizer que não gostava de mim. Hoje, tenho certeza de que alguém perambula por Curitiba procurando por seu saudoso pai. Este pai sou eu. Caso encontre meu filho, ensinar-lhe-ei tudo sobre os amores não correspondidos que só se explicam pela metafísica da pocilga.

A linda Julia me chamava de “amante argentino”. O que me fazia pensar que existiria um francês, um chinês, um gaúcho e um exército todo atrás daqueles longos cabelos encaracolados exalando perfume de madeira negra. Nunca me importei com possíveis cornos. Preconceitos, bah! Cheguei a sonhar que ela seria o amor de minha vida. E mesmo sendo o amor só mais um preconceito, fato é que fiquei ainda mais apaixonado por ela e voltei para a Argentina sofrendo as dores do preconceito perdido. Eu era louco por uma mulher que não me quisesse. Ainda sou, por isso prefiro investir meus afetos na pocilga.

Nunca mais a vi. Batizei minha porca mais linda em seu nome: Julia. Há uns dias, quando me chegou O amante alemão, passei a lembrar dela. É que a linda Julia lia Sabrina. Logo ela, toda livre, toda hippie, acompanhando publicações para mulherzinhas. E reclamava demais das personagens. Impaciente, eu perguntava por que os lia. Ela alegava estar em busca da fórmula que fazia tais livretos tão atraentes para mulheres. Quando foi embora, levando meu filho na barriga, deixou-me uns exemplares. Se disser que não os li, será mentira. Agora, quando Pereira me enviou o livro de Lélia Almeida, lembrei-me de minha vida de “amante argentino” e, como uma mocinha do interior, me emocionei lendo uma história apimentada daquelas.

Mas só até a página três, como diz Luizita, sinalizando minha preguiça senil. O amante alemão é um livro direto e ao mesmo tempo desconstrutivo, disse-me aboletada no sofá da sala, tendo nos braços o porquinho rejeitado da última ninhada de Julia. Dá-lhe a mamadeira e o chama de Epígrafe.

Antes de seguir com minha apreciação da obra, eu faria minha clássica reclamação contra o Pereira, mas o esperto mandou dizer que tenho menos espaço. O tamanho da reclamação aumenta conforme diminui meu espaço. Pois vamos à economia das palavras! Verdade que eu já ia ficando destemperado medindo o que dizia, quando Luizita amansou-me com fotos da autora d’O amante alemão nesta maquininha que traz consigo. Quase escrevi esta modesta resenha dizendo-lhe que, mesmo argentino, eu queria ser seu “amante alemão”; que inclusive falaria umas frases na língua tedesca e que, gordo e vermelho como estou, ela não veria diferença entre mim e um exemplar nativo. Será que eu teria chances? Imaginem ficar doze anos me encontrando com aquele olhar de mata virgem, aquele olhar de pampa que tem Lélia Almeida.

Avancei na leitura e logo perdi o rebolado, como dizia a mãe do meu filho. O livro tem um objetivo intimidante: mostrar o lugar ordinário de um homem na vida de uma mulher livre.

Carta aberta a Lélia Almeida
Duzília Flores era uma mulher livre econômica e até sexualmente. O lugar de um homem em sua vida era o de um gosto, mais do que um brinquedo. A vantagem de ser objeto de desejo de uma mulher é que elas nunca nos objetificam. Falo no plural porque tive amantes, e nunca o meu miserável dinheiro de professor fez diferença. E como fui amado. Umas quiseram me proteger, cuidar, lavar minha roupas, massagear minhas costas arqueadas. Agradeço, porque sempre me salvaram da minha sensação de incompletude. De miséria. De Édipo chorando por mamãe.

Um homem sob o olhar de uma mulher que o ama se sente inteiro. Como quando havia aquele olhar de super bonder de mamãe colando todos os estilhaços narcísicos. Só a amante clandestina é que o recupera quando já nos tornamos eletrodomésticos descartáveis para nossas esposas. Sempre me comoveu a generosidade das amantes capazes de amar homens em suas fases caídas. Aquela fase tenebrosa, que chamo de “fase da pílula” e que antecede a morte. Depois que as esposas sugaram-lhes toda a vitalidade, a amante é a figura generosa que se contenta com o pouco que resta e dá tudo o que tem.

Lembro-me de minha última namorada. Eu, 63; ela, 33. Trinta anos foi o nome do meu trauma. A revolução do remedinho azul ainda não tinha começado, e minha querida amante se contentava com o possível. Um dia, assim como Julia, ela bateu a porta chamando-me de “velho triste” só porque avisei que mais uma vez nos divertiríamos com dedos e língua. Definitivamente eu sabia enloquecer uma mulher na cama. Bastava dizer “sou brocha”.

Neste ponto, faço uma pausa, mostro o que escrevi a Luizita. Ela pergunta por que exponho intimidades, se não tenho vergonha, e dá um besito em Epígrafe, que dorme como um bicho de pelúcia em seu colo. Respondo-lhe que é só um jeito de apoiar a causa da biografia, que no Brasil anda sob ameaça. Biografia é só o que nos pertence. De quebra, meu filho perdido pode ler o Rascunho e vir a falar comigo. E assim poderei morrer em paz.

Mas voltemos ao livro. Duzília Flores é uma heroína gentil. Jornalista, ativista, cheia de consciência e escritora — apesar de tudo, tem um lado mal resolvido. O lado que ama um homem, e ainda por cima casado. Evidentemente, um homem é, no contexto do livro, um ser inferior. Seu representante é o amante alemão que aos poucos é descortinado em sua precariedade como pessoa. Funcionário das grandes indústrias de tabaco que mantêm suas fábricas explorando trabalhadores pobres no sul do Brasil, ele é um homem ordinário sem nenhuma pinta de herói. É um bobo, um qualquer.

São mundialmente conhecidos os altos índices de suicídio dos camponeses da região de Santa Cruz do Sul que Lélia chama de Santaluz. Explicações quanto a motivos abundam, mas eu que conheço a felicidade aqui cuidando dos meus porcos sou capaz de imaginar o que é uma vida infeliz plantando fumo de sol a sol, sendo explorado pelo capital internacional. O livro mostra a hipocrisia que jaz oculta sob a cara boa da cidadezinha alemã onde há todo tipo de injustiça. Personagens bem construídos ajudam a escancarar os fatos. O livro todo é tão mimético, tão trágico e tão cômico que bem poderia virar um daqueles filmes de Almodóvar.

A obra que ao desavisado poderia parecer romance, para patricinhas cansadas de ler Julia e Sabrina, tornou-se um romance político e feminista. A comparação entre a Alemanha dos ricos e dos pobres, a Alemanha que explora e a que é explorada fica elegantemente marcada, ainda que o seja de modo bem direto. Fácil ter um país rico e bonito quando se vomita os pobres e feios para a periferia direto do ventre canceroso do capitalismo.

Espero que Lélia Almeida publique seu livro em vários países. Sobretudo na Alemanha. Só não sei se os amantes alemães, os empresários, os cidadãos bem comportados, as esposas dos amantes alemães, terão coragem de lê-lo. Pergunto-me se os habitantes de Santa Cruz se reconhecerão nele…

Por fim, penso em outros leitores. Nos leitores homens… Penso em nós porque somos ainda raramente desconstruídos na literatura — sinal de que o patriarcado ainda comanda a produção textual. Lélia Almeida é um alento nesse mar de moças boazinhas e de homens que são vestais da religião do mais do mesmo.

Mas o leitor desta resenha deve estar a se perguntar por que um homem diz isso. Não deveria ser uma mulher a resenhá-lo e destilar seus séculos de ressentimento sobre a lógica de aviltamento que caracteriza o patriarcado?

Tento responder: Duzília Flores sou eu. É que a esta altura da vida, e desde muito antes, sou solidário àqueles que sofrem. A meus porcos, que crio para que sejam felizes como eu. Não os como a eles e nem as mulheres. Além de tudo, amei mulheres que me fizeram saber que, apesar dos pesares que me constituem como ser humano, eu podia ser amado e até falsamente elogiado por meus dotes. E como não tive a sorte de ter um grande amor que me suportasse até a velhice, penso que só me resta reconciliar-me com meu destino deixando a hipocrisia masculinista de lado — e que não é diferente da exploração dos trabalhadores em qualquer lugar. A velha exploração dos corpos alheios… Sempre fui meio comunista. Só a anarcoporcinocultura superou minhas expectativas sociais.

Penso que O amante alemão nos mostra o que não queremos ver. Que há coisas muito feias por baixo das aparências bem cultivadas. Salve a pocilga que não engana a ninguém!

Sugiro aos jovens que leiam o livro de Lélia Almeida por amor à verdade. Nós que somos velhos percorremos um longo caminho, do qual este livro é o atalho que finalmente vos fará entender a verdade última sobre a condição masculina, seja nova, seja velha: algo nos une em torno do fato inelutável de que nosso destino é ser brocha.

TRADUÇÃO: Samarone Dias

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Lélia Almeida

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Nasceu em Santa Maria (RS), em 1962. É autora novelas, crônicas e ensaios, entre eles Antônia (1987), As meninas más na literatura de autoria feminina (1996) e Mujer de palabras (2011). Foi professora universitária e, atualmente, é tradutora e trabalha como consultora de gênero, diretos humanos e segurança pública em Brasília (DF), onde vive.

Duzília Flores não abriu o envelope imediatamente, nem morreu de curiosidade para saber o que tinha dentro dele. Para ela, dentro daquele envelope só tinha dor e tragédia, tinha a morte do Heitor e a loucura de Mema, que tinha partido para nunca mais voltar. Ela não tinha vontade de abrir o envelope, não tinha vontade de fazer nada com aquelas fotos, o talento de Heitor já era conhecido em muitos lugares e ela sabia que não tinha nada que pudesse mudar isso.

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Lélia Almeida
Instituto Estadual do Livro
354 págs.