Ensaios e Resenhas

julho 2013 / Ensaios e Resenhas / Nos bastidores da literatura

Texto publicado na edição #159

Nos bastidores da literatura

Entrevistas de Hilda Hilst abrem espaço para reflexão aprofundada sobre uma autora passional e provocadora

> Por MARIANA IANELLI

Diante de perguntas que se repetem, sobre curiosidades de sua vida pessoal, Hilda HIlst se vê enredada na ficção de sua própria biografia.

Diante de perguntas que se repetem, sobre curiosidades de sua vida pessoal, Hilda Hilst se vê enredada na ficção de sua própria biografia.

 

Completa-se no ano que vem uma década desde a morte de Hilda Hilst e seu nome nunca esteve tão presente. Assídua na imprensa, e não mais (ou não apenas) por sua figura excêntrica, Hilda é relida, traduzida, levada ao teatro, revisitada. Além das intensas atividades no Instituto HH, a previsão de dois filmes inspirados em sua vida e obra prometem expandir ainda mais essa redescoberta. Curiosamente, também está previsto para breve o relançamento de Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, uma das influências declaradas de Hilda, feita epígrafe do seu Kadosh. Alguns poderiam pensar na máxima de Menotti del Picchia, de que “a fama é necrófila”, e outros intuir aí algum movimento vivo do tempo, um concerto de vozes que reúne dois poetas, ambos um pouco deslocados de suas épocas, mas unidos na íntima confiança de que a “verdadeira revolução humana” passa pela santidade.

Talvez não chegue tarde, senão na hora certa, este boom de Hilda Hilst, que, apesar de tanto ter se queixado da falta de leitores, muito cedo trocou a fama e o agito de eventos literários para que não fosse ela a aparecer, mas os seus livros. Esse deslocamento de foco, que começou em 2001 com o relançamento das obras completas de Hilda pela editora Globo, permite rever seu inconformismo diante da morte do corpo e da obra a partir das entrevistas que concedeu ao longo de meio século, agora reunidas no livro Fico besta quando me entendem, sob organização de Cristiano Diniz. Ao todo, são vinte entrevistas, de 1952 a 2003, um registro que sugere uma releitura desse percurso marcado pela urgência de escrever, e escrever sem ter de se explicar ou aparecer, como se já trabalhasse para um outro tempo. “Vamos não morrer como desafio?”, propôs uma vez Clarice Lispector. Hilda aceitou esse desafio.

Febre interior
No texto introdutório, Cristiano Diniz explica a seleção do material a partir de uma centena de entrevistas, um recorte que torna evidente a construção de uma imagem polêmica de Hilda na imprensa em detrimento de um interesse mais profundo da crítica por seus livros. Diante de perguntas que se repetem, sobre curiosidades de sua vida pessoal, a escritora se vê enredada na ficção de sua própria biografia: o amor pelo pai esquizofrênico, o medo de ficar louca, o exílio na Casa do Sol, a gravação de vozes dos mortos, o ódio pelos editores, o ressentimento pela falta de leitores, o falso abandono de uma “literatura séria” para escrever “bandalheiras” são assuntos que volta e meia se vê obrigada a  abordar, como se as questões sobre literatura propriamente dita ficassem sempre suspensas, aguardando uma próxima oportunidade. Apesar disso, é importante dizer que, para Hilda, leitora contumaz não só de literatura como de filosofia e ciência, interessava o fato extraordinário da vida, e não teorias literárias, interessava-lhe a intensidade, aquela “espécie de febre interior” que vem quando a poesia acontece.

Hoje é possível compreender como uma necessidade esse descontentamento com os críticos, os editores e o público leitor. Valendo-se do silêncio, Hilda experimentou uma enorme versatilidade, partindo da poesia para o teatro, do teatro para a ficção, até chegar aos “livros obscenos” nos quais seu sarcasmo em resposta à indiferença geral chega ao ápice. A imagem da escritora incompreendida, que se mantém ao longo das entrevistas do livro, subentende a sabedoria de Hilda em dar às suas frustrações os motivos de sua escrita, a exemplo do amor não correspondido que frutificou nos poemas de Júbilo, memória, noviciado da Paixão, um de seus mais célebres livros de poesia. A “megalomania” de se autodefinir uma escritora brilhante parece, assim, menos uma compensação pela falta de reconhecimento do que uma entre tantas provocações que fizeram parte do seu método de choque para tentar despertar no outro não apenas o interesse por sua obra, mas uma cumplicidade com o leitor desde o cerne de sua escrita, numa lucidez passional, na perplexidade, no uso sem medo da palavra “alma”.

Na entrevista que abre o volume, de 1952, estão algumas das sementes do que Hilda iria explorar até o limite do indizível em seu trabalho dali para frente: o desejo de ficar no coração do outro e o problema da finitude, sem contar a raiz religiosa no sentido mais profundo da escatologia do erotismo, que já se prenunciava antes mesmo dessa entrevista, em versos do seu primeiro livro (“Existe um deus qualquer/ nas minhas entranhas”). A impressão de um fundo premonitório em muitas declarações, como, por exemplo, numa entrevista de 1969, quando Hilda afirma que “todo aquele que se pergunta em profundidade é um ser religioso”, numa antecipação do ser-pergunta de Kadosh, revela, na verdade, um projeto literário muito bem dirigido, norteado pela intuição, que foi sendo cumprido à risca. Daí o comentário recorrente de que aparecer e dar palestras, para um escritor, é um engodo. Ao que Lygia Fagundes Telles, certa feita, rebateu: “Mas a tua soberba é maior”.

O apelo à ironia provocadora e à ficcionalização da própria vida não serve para proteger Hilda, senão para carregar nos tons da sua honestidade. É interessante identificar, num intervalo de quase trinta anos, como a escritora expressa sua posição face à literatura e ao estado geral de coisas do seu tempo. Em entrevista de 1975: “Parece que as pessoas (…) têm medo da idéia, da extensão metafísica de um texto, da pergunta, enfim”; em 1981: “A raiz sagrada mesmo do homem, ele ligado com esse indizível que ele não conhece. Essas coisas foram se perdendo… Então eu não sei, agora eu fico me perguntando, eu realmente não acredito mais na força da palavra”; em 1989: “O preenchimento de fato de uma vitalidade álmica não está ocorrendo. Cada vez mais, nota-se o empobrecimento de todos os valores importantes”; em 1994: “Não quiseram saber nada dos meus livros mais sérios. Por quê? Porque as pessoas estão se imbecilizando cada vez mais. A crueldade dos homens é cada vez maior. A futilidade, o desejo de consumo está dominando o mundo”.

Vale ainda extrair de diferentes depoimentos da autora algumas de suas idéias sobre poesia e sobre o ato de escrever. Em 1977: “A poesia é algo além da emoção. Ela é um modo de disciplinar o dizer amoroso”; em 1980: “O meu trabalho é aquele instante, um segundo antes da flecha ser lançada, a tensão do arco, a extrema tensão, o sol incidindo no instante do corte, é a rapidez de uma navalha que, com um golpe lancinante, fulminante, corta o teu pescoço”; em 1987: “a literatura vem desse conflito entre a ordem que você quer e a desordem que você tem”; em 1993: “Escrever é ir em direção a muitas vidas e muitas mortes”.  O que Hilda faz questão de sempre ressaltar como “o melhor do seu trabalho” é a paixão, a intensidade, não por acaso presente nos versos de Lupe Cotrim que uma vez lhe serviram de epígrafe: “Paixão. Só dela cresce/ o fôlego de um rumo”.

Coerência consigo mesma
A respeito do que deseja, Hilda é inflexível: quer ser lida, não espetacularizada. Embora reclame do silêncio dos críticos, alega não entender nada de crítica. Quanto aos leitores, não pensa neles quando escreve. Numa das mais instigantes entrevistas do livro, por Léo Gilson Ribeiro, em 1980, acerca do recém-lançado Tu não te moves de ti, a escritora deixa claro seu interesse em unir misticismo e ciência, vinculação que está entranhada em sua obra e ainda merece ser pensada a fundo. As citações de filósofos e cientistas, como Kierkegaard e Ernest Becker, extrapolam as de poetas e romancistas, o que é emblemático no caso de uma escrita enquanto vivência extraliterária, sem nunca desprezar um conhecimento profundo da língua. Nessa entrevista, Hilda fala de sua busca por uma transfiguração do tempo, citando o termo “amavisse”, de Vladimir Jankélévitch, que mais tarde daria título ao livro de sua despedida, por assim dizer, da poesia. Fala também do seu gosto voluptuoso pelas palavras, do sentido científico da palavra “ficção” e da noção de liberdade como uma coextensão entre linguagem e atuação, ou seja, um pacto de coerência consigo mesma, bem ilustrado por sua história de vida e de trabalho na Casa do Sol, ou pela referência ao Hípias maior de Platão, em nova entrevista mais de dez anos depois: “É melhor se desavir com o mundo todo do que com aquela única pessoa com quem se é forçado a viver após ter se despedido de todos”.

O texto de José Castello que acompanha a entrevista de 1994 é outra peça importante, que traz questões fundamentais e ainda hoje bastante pertinentes sobre como funciona a lógica de legitimação que, pelo silêncio, subtrai um escritor do panorama da literatura brasileira em qualquer gênero. Além disso, algumas curiosidades, como os títulos provisórios de alguns livros de Hilda (Os antepassados; Teologia natural; Bossa-pornografia), posteriormente substituídos, a relação pouco à vontade da escritora com o mundo acadêmico, o “sotaque português” com que lia mentalmente seus poemas, e ainda este detalhe, prova de admiração de parte da crítica pelo trabalho de Hilda: o fato de Nelly Novaes Coelho ter ajudado a publicar sua ficção ao custear metade da edição de um livro. Em seu conjunto, eis um material que possibilita vários níveis de reflexão sobre uma poeta, ficcionista, dramaturga e cronista que mais de uma vez afirmou fazer filosofia em todos os seus livros. Eis Hilda Hilst em ato de confissão, nos bastidores da literatura, nos trabalhos de uma alma em exercício.

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Hilda Hilst

Nasceu em Jaú (SP), em 1930. Ficcionista, contista, poeta e dramaturga, publicou títulos como Kadosh, Rútilo nada, Pequeno discurso, A obscena senhora D, Fluxo-floema, entre outros. Recebeu prêmios como o APCA, o Jabuti e o PEN Clube. Faleceu em 2004, em Campinas (SP).

O meu Deus não é material. Deus eu não conheço. Não conheço esse senhor. Eu sempre dizia que Ele estava até no escarro, no mijo, não que Ele fosse esse escarro e esse mijo. Há uma coisa obscura e medonha nele, que me dá pavor. (...) Mas esse tipo de conversa você não pode pôr na revista. As pessoas ouvem falar de Deus e se chateiam. Tem que falar de coisas normais. Só quando Paulo Coelho fala em Deus é que as pessoas escutam.

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(Entrevistas com Hilda Hilst)
Org.: Cristiano Diniz
Globo
263 págs.