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Texto publicado na edição #176

Nobel, evangelhos e guilhotina

18.06.2010 Morreu José Saramago hoje de manhã. Soube-o através de Marcio Neder, advogado que se encontrou comigo e Marina para […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

18.06.2010
Morreu José Saramago hoje de manhã. Soube-o através de Marcio Neder, advogado que se encontrou comigo e Marina para resolvermos diante de um juiz uma pendência sobre clonagem e multas do carro de Marina. Depois, no táxi, vindo para casa, o noticiário desdobrava notícias. Hoje à tarde me telefonou a Jovem Pan para uma entrevista, botei uma crônica sobre ele no site/blog. Revi algumas de suas cartas, acho que perdi outras tantas.

Lembrando-me dele num jantar aqui em casa em que estavam também Luciana Stegano (que se foi recentemente), Lidia Jorge e Carlos Reis e esposa. Deveria ter tirado fotos melhores. A que botei no blog mostra Saramago com a cabeça deitada no ombro de Lidia Jorge.

“Eles estão se adiantando, os meus amigos.”

Lembro-me dele nas duas vezes em que fui jurado do Prêmio Reina Sofia, lá no Palácio Real, em Madri. No júri havia outro Nobel, o Jose Camilo Cela. Saramago teve autoridade para interferir, inclusive na premiação de Sophia de Mello Breyner Andresen. Lembro-me dele também na Casa da América/Madri, onde eu dava um curso de criação literária. Houve uma conferência sobre o autor de El mundo es ancho y ajeno (Ciro Alegria) e Saramago era o orador principal sobre o romancista peruano. Ele não parecia ter lido o livro ou ter intimidade com o autor, mas com a facilidade que lhe era própria, dissertou longamente sobre vários assuntos paralelos.

Lembro-me também dele no encontro de Washington, em 1986. Do lado português estavam ele, Almeida Faria, Augustina Bessa Luiz e Sophia de Mello Breyner. Os brasileiros: Otto Lara, José Rubem, Ignácio de Loyola, Marina e eu. Também me lembro da crônica sobre Jangada de pedra; ele me escreveu carta (que tenho que achar) onde lamentava que Portugal entrasse para o Mercado Comum Europeu: achava que Portugal ia desaparecer nesse contexto.

Seu contendente era o Lobo Antunes. Dizem que quando anunciaram que Saramago havia ganhado o Nobel, o repórter do New York Times telefonou para o Lobo e perguntou o que achava. Este simplesmente mandou ou outro à PQP e desligou o telefone.

01.08.2010
Festival do Vale do Café, apresentação minha e de Turíbio Santos na fazenda Guaritá, dia 30, sexta de manhã. Acabo de ver parte do vídeo, ideia de fazer um vídeo profissional. Falei disso ao Turíbio, ainda lá, ele disse que podia ir até atrás de um patrocinador. Falei disso depois do recital, várias pessoas aplaudiram, pediram o DVD. Agora vejo frequentadores do blog apoiando, pedindo o DVD. Vou ver.

Foi lindo, saímos melhor do que a encomenda. Não ensaiamos. Turíbio dizia que o improviso era melhor. As pessoas ficaram realmente comovidas. Teve gente até confessando que chorou. Curioso como o público nunca foi exposto a este tipo de apresentação, e se emociona. Aliás, os organizadores confirmaram que os ingressos foram vendidos rapidamente logo que o recital foi anunciado: 150 pessoas, a 80 reais.

05.10.92
Visita ao Escorial com diretores da Abinia (Associação de Bibliotecas Nacionais Latino-americanas).

Ao lado, paisagem de pedra e mato. Agreste. Súbito as torres do que poderia ser uma igreja, quartel, prisão. Tudo isso, mais o palácio. No entanto, de palácio não tem nada. Não tem luxo, não tem decoração. Corredores e corredores com arcadas. Silêncio. Espaço.

O pequeno frade Agostino de cabeça branca nos explica na sala da biblioteca porque os livros estão todos ao contrário, ou seja com a lombada escondida e as folhas douradas à mostra para o leitor: isso aumenta a luminosidade do ambiente. Confessou que alguns livros não têm nada escrito. O dourado é que é fundamental para clarear a cena.

Numa outra sala da biblioteca o pequeno padre nos explica e mostra o que ele considera o mais valioso livro do mundo, um códice do século 6, ao que parece, todo escrito em ouro: são os evangelhos. E com ilustrações vivíssimas. Também um missal que pertenceu à Isabel, a Católica, todo ilustrado a ouro. E vários livros: códices gregos, latinos.

Ele passa as folhas do livro com uma espátula de osso… assim deixa de se envenenar (penso eu) lembrando da estória de O nome da rosa.

Anoto algo que pode ser um pedaço de poema:

Escrever nas entranhas da vitela
nos conduz à eternidade.

Diz o padre, apontando: aquele é o quarto de Felipe II, era naquela ala, ao lado do altar. Assim podia de sua cama assistir à missa.

Penso: controlava o Estado, a Igreja, ou a Igreja, do altar, controlava o próprio leito do rei?

13.09.2010
Vejo um programa de TV (TV Escola), um documentário francês sobre a história do machado. Do machado passam à guilhotina, mostrando vários tipos de machados usados antigamente para cortar a cabeça das vitimas. E uma coisa curiosa: revelam que ter a cabeça decepada por um machado era um privilégio dos nobres. O que faz sentido, pois se tratava de cortar a cabeça, a liderança: metáfora sangrenta.

Mas o mais revelador ideologicamente: quando veio a revolução francesa, introduziu-se a ideia de que era necessário “democratizar” o corte de cabeças. Inventaram então a guilhotina, assim democratizada a morte, passou-se a matar mais gente.

Entre 1792 e 1799, durante o “terror negro” na França, foram decapitadas (democraticamente) umas 15 mil pessoas. Entre tantos estava Lavoisier, o cientista que dizia que na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma[1].



[1] Marian sempre conta que Maria Antonieta antes de ser decapitada, pediu desculpas ao carrasgo por ter pisado no pé dele. E que a mulher levantava a cabeleira para facilitar a machada do carrasco.

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