Vidraça

novembro 2019 / Vidraça / Nobel duplo

Texto publicado na edição #235

Nobel duplo

Notas sobre literatura e mercado editorial

> Por Jonatan Silva | Coluna

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A Academia Sueca anunciou no começo de outubro os vencedores do prêmio Nobel para 2018 e 2019. Após o hiato, consequência dos escândalos sexuais envolvendo membros do júri, a associação decidiu premiar a polonesa Olga Tokarczuk, representando 2018, e o austríaco Peter Handke para este ano. Tokarczuk, conhecida por seu engajamento em causas feministas e de direitos dos animais, foi premiada por apresentar “uma imaginação narrativa que, com paixão enciclopédica, representa o cruzamento de fronteiras como uma forma de vida”. Já Handke possui “um trabalho influente que, com engenhosidade linguística, explorou a periferia e a especificidade da experiência humana”.

Apoio ao bárbaro
A escolha de Handke, entretanto, causou controvérsia. Durante os anos 1990, o escritor apoiou o falecido presidente sérvio Slobodan Milosevic, considerado o mentor da Guerra do Kosovo. Em 2006, Handke discursou no velório de Milosevic — que morreu na prisão aos 64 anos. Logo após o anúncio da premiação, sobreviventes do Massacre de Srebrenica — ocorrido em 1995 e que deixou 4 mil mortes — pediram a revogação do prêmio.

Ossos no Brasil
A Todavia anunciou a publicação de Sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk. A divulgação aconteceu logo depois do anúncio do Nobel. Tokarczuk, que é best-seller em seu país, já recebeu diversos prêmios, entre eles o Man Booker Prize. No Brasil, a editora Tinta Negra havia publicado Os vagantes, atualmente fora de catálogo.

Singelezas
A Companhia das Letras publica no começo de dezembro A ocupação, novo romance de Julián Fuks. A narrativa parte da ocupação de um prédio no centro de São Paulo e a relação de um pai com uma doença que o fragiliza. Em uma consonância de singelezas, o escritor cria pontes entre temas que parecem desconectados como a resiliência, a paternidade e a brutalidade.

Chico e sua gente
Em meio à polêmica de não ter o diploma de vencedor do Prêmio Camões assinado pelo presidente Bolsonaro, Chico Buarque anunciou o lançamento de Essa gente (Companhia das Letras). O romance narra a história de um escritor decadente em um verdadeiro dilúvio existencial. Em paralelo, o Rio de Janeiro está revirado em colapso. “Essa gente é, entre os romances de Chico, o mais áspero e possivelmente o mais enigmático. A história contada em forma de pequenos capítulos de diário, quase todos datados de um passado tão recente que se pode chamar de atualidade, é mais um de seus quebra-cabeças narrativos com fumaças de literatura policial”, explica o romancista Sérgio Rodrigues.

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Estar ou não estar
Cezar Tridapalli lança no dia 30, às 16h, na Livraria da Vila, em Curitiba, o seu terceiro romance: Vertigem do chão, publicado pela Moinhos. A partir da vida de dois protagonistas, Leonel — dançarino brasileiro que se muda para Ultrech, na Holanda, após uma série de desilusões — e Stefan — holandês que passa a viver no Brasil depois de testemunhar o namorado ser morto por um fanático religioso —, Tridapalli cria uma história intrincada sobre pertencimento, desterritorialização e o corpo como espaço geográfico.

A metamorfose
Ian McEwan, pouco depois de publicar o romance Máquinas como eu, acaba de lançar na Inglaterra a novela The Cockroach. Ainda sem data para chegar no Brasil, o livro é sátira política em que uma barata passa por uma metamorfose – sim, referência a Kafka – e se transforma no homem mais poderoso do país: o primeiro ministro. Saudado como um dos melhores textos do escritor, a novela faz um paralelo assustador com o Brexit, a negação da ciência e outras falácias plantadas por aí.

Breves

• O Itaú Social distribuirá gratuitamente mais de 3,6 milhões de livros por meio do projeto Leia para uma Criança. No total, desde a criação do projeto, foram distribuídos quase 60 milhões de exemplares.

• O Prêmio Off Flip de Literatura prorrogou as inscrições para a edição de 2020 até 8 de novembro. Mais informações: http://www.premio-offflip.net/.

• A Companhia das Letras anunciou, em outubro, a compra de 100% da editora Zahar. Com a fusão, a casa paulista passa a ter 17 selos.

• Fernanda Diamant foi confirmada como curadora da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em 2020. A jornalista já esteve à frente da festa em 2019.

• A Todavia publica em 2020 o novo livro de Domenico Starnone. Segredos sai em novembro na Itália.

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