Entrevistas

janeiro 2012 / Entrevistas / No reino das palavras

Texto publicado na edição #115

No reino das palavras

  A palavra escrita seduz Ruy Castro. Ele se deixa seduzir há muito tempo. Deste balé harmônico — executado com […]

> Por ROGÉRIO PEREIRA

"A verdade é que, se fosse preciso — e se eu pudesse —, eu pagaria para fazer o que faço."

 

A palavra escrita seduz Ruy Castro. Ele se deixa seduzir há muito tempo. Deste balé harmônico — executado com maestria entre a literatura e o jornalismo — nasceram biografias como O anjo pornográfico (sobre Nelson Rodrigues), Estrela solitária (Garrincha) e Carmen (Carmen Miranda), livros de ficção (Bilac vê estrelas e Era no tempo do rei), ensaios, reportagens e crônicas. A sedução lenta e duradoura construiu uma sólida paixão, escancarada em O leitor apaixonado, cuja organização é de Heloisa Seixas. É uma coletânea de textos publicados na imprensa brasileira desde a estréia de Ruy Castro como jornalista no final da década de 1960. O epicentro são a literatura e o jornalismo. Sempre com um olhar atento e, muitas vezes, irônico — marcas inconfundíveis da escrita deste mineiro nascido em Caratinga em 1948, mas cuja vida está visceralmente ligada ao Rio de Janeiro, que lhe concedeu o título de cidadão benemérito.

Nesta entrevista concedida por e-mail, Ruy Castro fala, entre outros assuntos, sobre suas duas grandes paixões: jornalismo e literatura. “A palavra escrita é o grande aval, não? As coisas só parecem ter acontecido depois que a gente as vê impressas”, diz.

• Na apresentação de O leitor apaixonado, vislumbra-se uma foto de um repórter de 19 anos acompanhando a mítica posse de João Guimarães Rosa na Academia Brasileira de Letras. O que aquele jovem Ruy Castro buscava nas letras, no jornalismo e na literatura? E o que ele encontrou nestas décadas de vida dedicadas à arte de ler e escrever?
Naquela noite de novembro de 1967, eu tinha exatamente nove meses de profissão, já estava no meu segundo emprego e me sentia um veterano — começara no Correio da Manhã em março, como repórter, e, em fins de outubro, a Manchete, que ainda era a revista mais poderosa do Brasil, me convidara a ir para lá, também como repórter. A cobertura da posse do Rosa foi uma das minhas primeiras saídas pela revista. Àquela altura, eu já deixara temporariamente de lado a idéia de que iria usar o jornal para escrever ensaios profundos e pretensiosos sobre cinema, literatura, música popular etc. — que foi o que pensei no começo do ano, quando o José Lino Grünewald me levou ao Newton Rodrigues, redator-chefe do Correio, sugerindo a minha contratação — e já me sentia totalmente à vontade numa revista semanal ilustrada, entrevistando pessoas da área cultural ou de outras áreas. O responsável por isso fora o Newton, ao me aceitar no jornal e me mandar para a reportagem geral, não para o Segundo Caderno. Na hora fiquei chateado, porque a geral significava cobrir áreas sem o menor charme, como polícia, hospital e esgoto de rua — numa época em que a vida cultural carioca estava fervendo, com o cinema novo, o teatro de agressão, Tom Jobim gravando com Frank Sinatra, os primeiros festivais da canção, o movimento estudantil etc. Mas aceitei, claro, porque meu sonho era trabalhar no Correio da Manhã, não importava onde — se precisasse, aceitaria cobrir turfe ou jardinagem. E aconteceu que essa experiência com a reportagem braba me quebrou um pouco a crista e me fez ver o quanto eu tinha de aprender se quisesse continuar em jornal. Comecei a achar ótimo sair com aqueles fotógrafos cascudos, que não davam boa vida a repórter, e a fazer matérias em dupla com os outros rapazes, alguns pouco mais velhos do que eu, mas já com dois ou três anos de jornal. E, na verdade, não demorei muito a emplacar pautas também no Segundo Caderno, então editado pelo José Lino. Além disso, desde cedo me interessei por toda a operação: entregava a matéria ao editor e ia com ele ao arquivo procurar fotos para ilustrar as matérias, ficava ao lado do diagramador para ver como ele ia jogar o texto na página e já lhe entregava os títulos, subtítulos e legendas antes que ele terminasse o trabalho. Continuei a fazer isto quando fui para a Manchete, embora, lá, os repórteres não tivessem o prestígio que tinham no jornal — as estrelas eram os redatores. Mesmo assim, com o rabo do olho, eu observava o diretor Justino Martins paginando com o chefe de arte Wilson Passos — e não era à toa que Manchete era uma das revistas mais bonitas do mundo. Enfim, se eu ainda tinha veleidades “literárias”, elas já tinham sido substituídas por um fascínio pelo universo da imprensa. No ano seguinte, 1968, voltei para o Correio, no Segundo Caderno e sob as ordens de Paulo Francis, mas já então com certa liberdade para elucubrar. Na mesma época, Francis me convidou também a colaborar na revista Diners, que ele também editava, e ali já eram artigos mesmo, sérios ou de humor, sem muita “reportagem”. Mas eu já tinha sido batizado e crismado na rua no ano anterior, cobrindo carnaval, passeatas estudantis, dando plantão em delegacia, entrevistando políticos etc. — e levaria sempre comigo a idéia de que o leitor de jornal ou revista não é obrigado a entender Heidegger no café da manhã [risos]. A vida deu voltas e, 20 anos depois, em 1987, meu principal veículo passou a ser o livro — mas a preocupação com o leitor continuou a mesma. Aliás, acho que isso pode ser percebido nos textos de O leitor apaixonado.

• O prólogo da coletânea (Começou com Alice) é uma espécie de declaração de amor à literatura: “A vida não é mais a mesma depois que se penetra no reino das palavras”. Que poder transformador tem a literatura na vida cotidiana das pessoas?
A palavra escrita é o grande aval, não? As coisas só parecem ter acontecido depois que a gente as vê impressas. No meu caso, foi fundamental. Veja bem, nasci em 1948, aprendi a ler entre 1952 e 1953 e, desde então, me senti contemporâneo de tudo de importante que me passou pelos olhos: morte do cantor Francisco Alves em 1952, várias “invasões” de discos voadores em 1953, estouro da Marilyn Monroe no cinema em 1954, suicídio do Getúlio no mesmo ano, morte da Carmen Miranda em 1955, os vários campeonatos cariocas conquistados pelo Flamengo naqueles anos [1953-54-55], morte do James Dean também em 1955, campanha e eleição do Juscelino idem, lançamento do Sputnik em 1957 etc. Ouvia meu pai e seus amigos falando desses assuntos e, depois, lia sobre eles nos jornais e revistas que rolavam pela minha casa — Correio da Manhã, O Jornal, Última Hora, Tribuna da Imprensa, O Cruzeiro, Vida Doméstica, Mundo Ilustrado. E eles só pareciam existir porque o jornal ou a revista falava deles — as próprias fotos eram avalizadas pelas legendas. A literatura trabalha em outro plano. Li meu primeiro livro também em 1953, Alice no país das maravilhas, que ganhei no aniversário de cinco anos. Depois, saí com meu pai para comprar eu próprio um livro e, sem ninguém para dar palpite, escolhi Tarzan, o filho das selvas, do Edgar Rice Burroughs, numa linda edição da coleção Terramarear. Li, adorei, comprei mais Tarzans, descobri o Sherlock Holmes, depois o Arsène Lupin, mergulhei em muito capa-e-espada, devorei os clássicos completos do terror e, naturalmente, descobri os brasileiros — um dos primeiros foi Memórias de um sargento de milícias, do Manuel Antônio de Almeida. E qual a diferença da literatura para com os jornais? É que, no livro, você descobre que os personagens pensam, sentem, amam, odeiam — enfim, têm uma rica vida interior. Parecida com a sua.

• No texto Perigo — palavras enlouquecendo (2002), ao apontar uma série de barbaridades cometidas diariamente contra a língua portuguesa, o senhor escreve que “num processo galopante de degeneração da língua, estamos falando como zumbis, e os jovens, talvez, mais do que todos”. O senhor acredita que a língua portuguesa passa por maus bocados neste momento no Brasil? E a que (ou a quem) o senhor credita este descaso?
Hoje de manhã, uma amiga minha me disse candidamente: “Fulano me adicionou no Facebook” — e, pela minha cara, caiu em si, sentiu o ridículo, viu que estava falando em internetês e começou a rir. Já falamos melhor, não? Apesar dos acréscimos à língua — usamos hoje palavras que não existiam há 20 ou 30 anos, porque não havia função para elas —, temo que o vocabulário de uso corrente tenha sido consideravelmente reduzido. A culpa disso é nossa, que trabalhamos com livros, jornais, revistas — não estamos sabendo resistir à pauperização da língua. Sempre que deixamos de usar uma palavra ou expressão, porque ela “pode não ser entendida pela maioria”, contribuímos para sua morte — e aí é uma ferramenta lingüística a menos. Se quiser se certificar do estado deplorável da língua na boca do povo, ouça as entrevistas dos jogadores de futebol depois dos jogos — eles nunca foram, nem precisaram ser grandes oradores, mas, neste momento, duvido que a maioria deles use mais que umas mil palavras no dia-a-dia. E todos usam as mesmas palavras: “com certeza”, “a gente já sabia” e “agora é levantar a cabeça”.

• Se por um lado a língua portuguesa não é tratada com galanteios pelo povo, a literatura brasileira parece percorrer um caminho bem mais animador. Nunca o país abrigou tantos festivais, feiras, bienais etc., e também há um grande número de prêmios literários (alguns deles com premiação significativa em dinheiro, como é o caso do Prêmio São Paulo, no valor de R$ 200 mil). O senhor concorda que a literatura brasileira passa por um bom momento? Ou estes sinais que chegam de vários cantos do Brasil têm pouco significado?
Concordo. A literatura brasileira passa por um bom momento de mercado. Os prêmios, feiras e bienais tornam alguns escritores conhecidos e isso pode ajudá-los a vender mais e a se profissionalizar. É do que precisamos: de escritores profissionais — os gênios virão com o tempo. Ao mesmo tempo, houve uma mudança de escala, fazendo com que certos best-sellers estrangeiros agora saiam aqui com uma tiragem de 800 mil exemplares, segundo suas editoras. Se isso for verdade, que interesse elas terão em editar um romancista brasileiro estreante que, se vender excepcionalmente bem, não chegará a 8 mil?

• O acordo ortográfico assinado entre os países de língua portuguesa tem uma importância real ou é apenas mais uma invenção burocrática? Ressalte-se que, enquanto o Brasil se apressou a adequar-se ao acordo, Portugal segue incólume a ele.
Não tem a menor importância, não precisávamos dele e foi imposto à força. A prova de que é inútil é que Portugal e os países da África se recusam a aplicá-lo, e quero vê-los sendo forçados a fazer isso. A beleza da língua portuguesa está em que, com todas as particularidades de cada região, é a mesma língua e inteligível por todos, assim como o português falado nas diversas partes do Brasil. Então, por que unificar a escrita? Para mim, a única vantagem foi a volta do k, do w e do y à legalidade, com o que meu nome voltará a ser escrito com y nos livros do Sérgio Cabral.

• A leitura do conjunto de textos de O leitor apaixonado causa certa nostalgia de uma época romântica do jornalismo, desde os jornais cariocas das décadas entre 1950 e 1970, aos grandes jornais e revistas do mundo feitos há alguns anos. O senhor considera que o jornalismo já teve tempos mais gloriosos do que os vividos atualmente? O que mudou? Por que mudou?
A nostalgia é de vocês, não minha. Acho os jornais de hoje melhores que os dos anos 1950, que eram uma bagunça gráfica, sem qualquer critério editorial, os textos tinham enormes narizes-de-cera e a opinião contaminava permanentemente a informação — uma simples notinha de cinco linhas n’O Globo, por exemplo, era quase um editorial, principalmente se envolvesse comunismo ou algum aspecto moral. A partir da reforma do Janio de Freitas no Jornal do Brasil, em 1959, as coisas melhoraram. Mas, mesmo assim, a maioria dos outros jornais levou décadas para seguir o modelo do JB, e vários morreram pelo caminho antes de adotá-lo. O que os salvava eram os colunistas: a Última Hora tinha Nelson Rodrigues, Antônio Maria e Sérgio Porto. O Correio da Manhã tinha Carlos Drummond de Andrade e um escrete de críticos — Moniz Vianna e Sérgio Augusto no cinema, Fausto Cunha na literatura, Mario Pedrosa nas artes plásticas. O Globo tinha uma ótima seção de esportes, inclusive desde cedo usando cores. Mas não eram jornais fáceis de ler. Os de hoje são mais bem editados, os assuntos são organizados em cadernos. O que eles quase não têm é o charme dos antigos colunistas e cronistas. Das revistas antigas, sim, sinto saudade — acho que nunca houve uma revista semanal melhor que a Manchete dos anos 60 e 70. Trabalhei lá como redator, de 1970 a 1973, era uma delícia.

• No texto A pior pelada da literatura (2000), o senhor escreve sobre a crônica: “Não deixa de ser um subgênero literário, quase apenas brasileiro e, particularmente, carioca”. A afirmação é apenas uma provocação ao leitor ou o senhor realmente considera a crônica um gênero menor, mesmo ao escrever sobre Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos?
A palavra subgênero não quer dizer menor, exceto talvez em tamanho. O Jardim Pernambuco, um dos lugares mais exclusivos do Rio, onde só moram milionários, é um sub-bairro do Leblon. E como pode ser menor um gênero praticado por Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos? Curiosamente, nenhum deles carioca nato, não? Assim como o capixaba Carlinhos Oliveira, o pernambucano Nelson Rodrigues ou a paulistana Elsie Lessa. Mas todos eles só se realizaram como cronistas no Rio. O qual também produziu os seus: Machado de Assis, Olavo Bilac, João do Rio, Lima Barreto e, mais modernamente, Vinicius de Moraes (sim, ótimo cronista), Millôr Fernandes e Carlos Heitor Cony.

• Nas entrelinhas (e em especial no texto Best-sellers — Qual você está lendo [1988]) de O leitor apaixonado perpassa certo desprezo pela cultura do best-seller que há anos tomou conta das livrarias brasileiras. O best-seller deve ser combatido ou incorporado como um aliado na formação de leitores, que por meio dele poderão chegar à “alta literatura”?
Combatido, nunca. Mas pode ser motivo de chacota, por que não? Se até Ulisses e Grande sertão: veredas já foram ridicularizados…

• No texto sobre o romancista norte-americano Nathanael West (O dia do gafanhoto, 1974), lemos: “Sua história não continha um começo, meio e fim, e isso era tão chocante naquele tempo como é hoje uma história que contenha começo, meio e fim”. Esta afirmação vale para a literatura brasileira feita atualmente, passados 35 anos da publicação do referido texto? Os autores continuam muito interessados em experimentações de linguagem em detrimento da velha e boa história bem contada?
Não acompanho tão de perto o movimento literário para responder com precisão, mas, de qualquer maneira, as distorções da narrativa tradicional, que pareciam coisa de vanguarda nos anos 1960, se incorporaram de tal maneira à gramática narrativa que ninguém mais se espanta com elas. Minha mulher, Heloisa Seixas, por exemplo, que adora a narrativa linear das romancistas inglesas do século 19, usa de todos os recursos de tempo e espaço nos seus romances, principalmente em Pérolas absolutas. E faz isso sem esforço, me parece. Tornou-se um recurso natural, que o leitor também já assimilou.

• O que mais lhe atrai e o que mais lhe incomoda na literatura brasileira contemporânea? Que autores lhe chamam a atenção e conquistam o privilégio de permanecer em sua biblioteca?
Como disse, não acompanho tão de perto o movimento. Gosto de autores como Per Johns, Edgar Telles Ribeiro, Heloisa Seixas, Reinaldo Moraes e outros que têm muito que dizer e capricham ao escrever. O que me incomoda é a escrita desleixada, frouxa, rebarbativa, que às vezes vejo por aí.

 

Ruy Castro por Osvalter

• O senhor é um jornalista e escritor que se interessa por diversas áreas culturais (música, cinema, literatura, artes visuais etc.). Como o senhor organiza a sua vida de leitor? Há uma rotina definida? Que autores nunca o abandonam?
Não tenho nenhum método para ler e, aliás, há muito que não tenho tempo para ler por prazer. Digo, ler consistentemente, por prazer e por programa, como fiz muito nos anos 1970 — por exemplo, tirava um mês inteiro para ler Aldous Huxley, outro para ler George Orwell, outro para ler Evelyn Waugh. Hoje passo o dia todo lendo a trabalho, a valer três pontos, e só à noite posso me dedicar a algo que me dê prazer. Aí, nesse caso, leio mais biografias de escritores, diretores de cinema e compositores ou ensaios. Autores que nunca me abandonam? Dorothy Parker, Scott Fitzgerald, Rubem Braga, Raymond Chandler, P. G. Wodehouse e todos os cronistas do Rio, de Machado para cá.

• Hoje, podemos afirmar que há uma retomada do jornalismo literário no Brasil, em publicações como Piauí, Rolling Stone e em alguns cadernos dos grandes jornais. O senhor acredita que ainda há muito espaço para este tipo de jornalismo (cuja essência, além de aproximar literatura e jornalismo, são os textos longos e apurados com paciência pelo repórter) nesta época em que certa neurose apregoa a total falta de tempo das pessoas para qualquer coisa que não lhes tome poucos minutos?
Sinceramente, não sei o que seria jornalismo literário. Rubem Braga também não saberia e duvido que Millôr Fernandes saiba. Jornalismo é jornalismo, e todo repórter tem por obrigação apurar com paciência e escrever direito, não importa se em texto longo ou curto. Mesmo assim, isso não o torna um “literato”. O conceito de “jornalismo literário” nasceu, me parece, em São Paulo, criado por gente que não é jornalista, nem literato. Há uma mitificação grande a respeito desses textos da New Yorker ou da Esquire, mas eles sempre existiram, inclusive no Brasil. Leia as reportagens de Joel Silveira na coleção de “jornalismo literário” (sic) da Companhia das Letras — foram feitas nos anos 40, quando Gay Talese ainda estava lutando com o bê-a-bá.

• Que tipo de benefício a internet pode trazer à literatura? Ou não há benefício algum nesta relação que busca algum tipo de harmonia?
Quando ouço alguém dizer que “pesquisou” a meu respeito no Google, já sei que vem besteira a caminho. O Google só deveria ser acessível a pessoas com, no mínimo, um Ph.D. em história e filosofia [risos]. É um instrumento poderoso demais para ser usado por semi-ignorantes. E é claro que é também maravilhoso, se você souber separar o que é documento e o que é pura leviandade.

• É muito comum as biografias causarem grande alvoroço com os familiares dos biografados ou, às vezes, com os próprios biografados. Livros são proibidos de circular. Processos se arrastam na Justiça. Qual a sua opinião sobre a chamada “Lei das Biografias”, que pretende alterar o artigo 20 do Código Civil na tentativa de evitar que biografias sejam impedidas de circular?
Totalmente a favor. Qualquer medida que venha proteger a biografia — ou seja, garantindo o seu direito de circular — deve ser apoiada, mesmo que venha à custa do biógrafo como pessoa física, que pode ser processado. Eles começaram processando um livro e tirando-o de circulação por um ano, como aconteceu comigo no caso de Estrela solitária — Um brasileiro chamado Garrincha, em 1995. Depois processaram, tiraram de circulação e sumiram com o livro do Paulo César Araújo sobre aquele cantor. E agora querem impedir que o Edmundo Leite publique ou mesmo escreva sua biografia sobre Raul Seixas. É a lei da mordaça, nas barbas desse Código Civil frankenstein que existe no Brasil.

• De que maneira a iniciativa privada e os governos podem (e devem) fortalecer o hábito da leitura em um país formado por uma estrondosa leva de analfabetos (puros ou funcionais)?
Abrindo e estimulando a criação de bibliotecas em todo o país. Deveria haver uma biblioteca para cada 30 mil habitantes em todas as cidades. Além de estimular a leitura, isso permitiria também um aumento brutal das tiragens pelas editoras, com a conseqüente redução do preço do livro nas lojas.

• Há pouco tempo, assiste-se a uma proliferação de oficinas de criação literária pelo Brasil. Alguns autores se dizem “formados” em oficinas. Como o senhor avalia este fenômeno? Estas oficinas têm a capacidade de formar escritores?
Bem, eu próprio já dei vários cursos de biografia, no Rio e em São Paulo, e diplomei centenas de alunos. Alguns se tornaram biógrafos, com livros publicados, como Stellinha Caymmi, que biografou seu avô, e Marco Aurélio Barroso, que biografou Nelson Gonçalves. Outros dois alunos estão trabalhando em biografias de Ferreira Gullar e José Mauro de Vasconcellos. Gostei de ter dado os cursos e pretendo dar outros, porque essa matéria não existe nas nossas faculdades de Letras. E, mesmo que existisse, elas não seriam suficientes. Para se formar em biografia, um estudante precisaria ter aulas em pelo menos três faculdades: de Letras, de História e de Jornalismo. Acredito em oficinas de “criação literária”, desde que ministradas por escritores de verdade, não por professores inéditos, e mesmo assim apenas para dar um polimento ou orientação a um talento que já exista no aluno.

• Como é o seu processo criativo, seu processo de trabalho a cada novo livro? De que maneira nascem seus livros?
Cada qual nasce de um jeito. As biografias partem de uma admiração que eu tenha pela obra de alguém (Nelson Rodrigues, Garrincha, Carmen Miranda) e grande curiosidade sobre sua vida. Os livros de reconstituição histórica, se podem ser chamados assim (Chega de saudade, sobre a bossa nova; Ela é carioca, sobre Ipanema), nascem de uma vontade de mergulhar naquele universo e naquela época. Todos partem do princípio de que, por mais que o assunto já tenha sido explorado (Carmen, por exemplo, tinha sido objeto de vários livros), eu confie em que ainda há muito a ser descoberto. Carnaval no fogo era para ser uma crônica longa ou um ensaio curto sobre o Rio — adorei fazê-lo e o livro parece ter dado certo, porque já saiu na Inglaterra, em Portugal, na Espanha, na Itália, no Japão, na Rússia e na Turquia. Aliás, vários outros livros já saíram também lá fora, inclusive O vermelho e o negro, sobre o Flamengo, que saiu no Japão — o que prova a popularidade global do Flamengo. Os dois livros de ficção, Bilac vê estrelas e Era no tempo do rei, vieram para compensar o rigor do biógrafo, que não tem o direito de inventar, supor ou presumir nada e que é um escravo da informação. Na ficção, é o contrário: é obrigatório inventar. Mesmo assim, não me livrei do vício do biógrafo e, para cada um dos dois livros, passei um ano estudando sobre o período, os costumes, falas, roupas, comidas, cheiros, meios de transporte etc., e também sobre a psicologia dos personagens reais, respectivamente Olavo Bilac e o jovem príncipe D. Pedro. Neste momento, estou me preparando para estudar outro período do Rio (e dos Estados Unidos) do século 19, tendo em vista mais um livro de ficção… Isso tudo porque não sou um ficcionista nato, alguém a quem os plots cheguem com muita facilidade, como acontece com a Heloisa. Ao contrário, cada plot é, para mim, um parto e, mesmo assim, tenho de me basear em fatos reais. Mas a ficção é uma experiência maravilhosa, que não pretendo abandonar. E levou 15 anos, mas finalmente consenti que Heloisa organizasse coletâneas de meus artigos na imprensa. Saíram três até agora: Um filme é para sempre, sobre cinema; Tempestade de ritmos, sobre jazz e música popular; e O leitor apaixonado, sobre literatura, todos pela Companhia das Letras. Ela mergulha nas montanhas de pastas, seleciona os artigos, organiza-os segundo seus próprios critérios e só então eles chegam a mim, já digitados. Daí, meto-lhes o mouse e a caneta, e os deixo de jeito para terem mais cara de livro. Mas, basicamente, são os mesmos artigos originais, como, aliás, qualquer pessoa pode verificar, se confrontar o texto do livro com o do jornal, se tiver guardado o recorte. Neste momento, estou acabando de organizar, para a Imprensa Oficial de São Paulo, O melhor da Senhor, uma antologia de textos publicados pela grande revista que circulou no Rio de 1959 a 1964 — os colaboradores eram Paulo Francis, Ivan Lessa, Vinicius, Antônio Maria, Armando Nogueira, Jorge Amado, Guimarães Rosa e quem você pensar. E há outras coisas cozinhando, nada ainda muito definido. Aliás, são tantos projetos, cada qual mais gostoso de fazer, que até para mim é difícil saber qual atacar primeiro. A verdade é que, se fosse preciso — e se eu pudesse —, eu pagaria para fazer o que faço.

LEIA RESENHA DE O LEITOR APAIXONADO.

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