Dom Casmurro

abril 2020 / Dom Casmurro / No meu lugar

Texto publicado na edição #240

No meu lugar

Conto Inédito de Bernardo Carvalho

> Por BERNARDO CARVALHO

Ilustração: Carolina Vigna

Ilustração: Carolina Vigna

Aonde eu iria, se pudesse ir; o que seria, se pudesse ser; o que diria, se tivesse uma voz que falasse assim, dizendo-se eu? Responda simplesmente, que alguém responda simplesmente.
Samuel Beckett, Textos para nada

Desde que vim para cá adotei o serviço de transporte compartilhado. Segui o conselho de colegas que me precederam na mesma cátedra. No começo cheguei a hesitar na apropriação do que não era meu, provavelmente pela inércia de algum pudor deslocado, que logo perdi pela força da necessidade e do hábito.

O serviço de transporte compartilhado foi uma descoberta e uma solução. Moro num prédio para professores convidados, longe de tudo, menos da universidade. Os apartamentos são simpáticos e espaçosos; o lado ruim é que eu levaria uma eternidade para chegar ao teatro, ao cinema ou ao bar mais próximo se recorresse ao sistema de transporte público. Há dez anos, quando vim para esta cidade pela primeira vez, com uma bolsa de estudos, aluguei um quarto e sala modesto, mas central. Fazia tudo de bicicleta ou a pé, mesmo nos piores dias de inverno, e embora as distâncias aqui não sejam propriamente curtas, nunca levei mais de meia hora para chegar a lugar nenhum.

Desde que aprendi a localizar pelo aplicativo os carros disponíveis no meu bairro, num raio de algumas dezenas de metros ao redor do meu prédio, e a abri-los — com um simples toque no celular, sem precisar recorrer aos artifícios de um ladrão — como se já não houvesse propriedade privada, ficou difícil voltar a me servir de outro meio de transporte. O apito das portas a se abrir como a entrada de cavernas secretas ao som de palavras mágicas despertou em mim uma sensação de poder e transgressão até então desconhecida, de quem dispõe de coisas alheias sem autorização, me levando também a conjecturas romanescas que jamais teriam me ocorrido sem a ilusão dessa liberdade — digo ilusão porque, apesar de tudo, o serviço é pago.

Tornei-me vítima de uma curiosidade patológica, de início apenas um passatempo enquanto dirigia sozinho, imaginando, sem maiores indícios além de sacos de papel amassados no banco do passageiro ou pacotes de balas abandonados pela metade no porta-luvas, a vida dos motoristas que me precederam.

Sem que eu percebesse, aquilo foi ganhando contornos de automatismo e vício. Bastava abrir as portas dos carros que não me pertenciam para que eu começasse a imaginar. Até que numa manhã chuvosa, ao olhar pelo retrovisor antes de fazer uma curva mais fechada à direita, já perdido em elucubrações sobre o motorista que me precedera naquela caminhonete azul, apesar de estar atrasado para o meu seminário semanal sobre Literatura Visionária, notei afinal a mala esquecida no banco de trás. Era uma mala comum, dessas que as pessoas costumam pegar por engano nas esteiras dos aeroportos. Bem que poderia ser minha.

Só a buzina furiosa e a freada do carro que por um triz não se espatifou contra o meu — quero dizer, contra a minha caminhonete compartilhada — enquanto eu avançava o sinal, distraído, sob o efeito entorpecente da descoberta, foram capazes de me trazer de volta à realidade. Foi um achado desnorteante. Nenhuma desculpa seria suficiente para aplacar a ira do motorista que me xingava de todos os nomes, tanto que eu não disse nada. Que é que podia dizer? Que acabara de descobrir que minha imaginação era capaz de se materializar? Ele estava coberto de razão e eu já com a cabeça em outro lugar.

Já não tinha condições, por exemplo, de me concentrar na aula. Não conseguia pensar em outra coisa além da mala, de modo que também fiquei mudo quando uma aluna me interpelou para perguntar quem era eu para discorrer sobre um texto como aquele do qual eu vinha falando automaticamente (por causa da mala) e que a minha leitura distorcia numa interpretação grosseira e sem conhecimento de causa. Cada vez mais inflamada diante da minha aparente apatia, a aluna exortou o resto da turma a também se manifestar contra a apropriação espúria que, do meu lugar — afinal estávamos ou não estávamos numa universidade progressista? —, eu fazia de uma experiência e de uma identidade que não me pertenciam.

Uma vez em casa, procurei entrar em contato com o serviço de transporte compartilhado para comunicar minha descoberta. Logo descobri mais uma coisa: era natural que não entendessem a minha língua, mas nunca me passaria pela cabeça que ninguém no serviço de transporte compartilhado falasse nenhum outro idioma além da língua local, que eu não falo (na cátedra que ocupo na universidade, os professores dão aulas no idioma de sua escolha, para alunos poliglotas), de modo que a comunicação se revelou impossível. Meus conhecimentos da língua local me permitem o uso das ferramentas básicas do aplicativo e olhe lá. Quando tentei relatar por escrito a descoberta da mala, fazendo uso do tradutor eletrônico no computador, recebi uma resposta imediata, automática, indicando que, em caso de perdas e furtos, entrasse em contato por telefone. E não foram necessárias mais de duas tentativas para entender que não haveria meios de me fazer compreender. Escrevi cartas em inglês para a direção do serviço, mas tampouco obtive resposta. Poderia ter recorrido à ajuda dos alunos ou de colegas do departamento, é claro, mas preferi não misturar os canais. Não ia devassar o que já se configurava como parte da minha mais recôndita intimidade.

Enquanto ainda nutria a esperança de uma reação qualquer aos meus esforços, uma resposta retardada da parte do serviço de transporte compartilhado, mantive a mala fechada no meio da sala, como um monumento à inviolabilidade do pertencimento e da propriedade. É claro que não podia simplesmente tê-la abandonado no carro onde a encontrei, para ser encontrada e aberta por outro motorista. Não dava para saber o que um motorista menos escrupuloso poderia fazer no meu lugar. A mala pertencia a alguém, e se não era minha, tampouco seria de algum dos motoristas que me sucederiam. Pertencia a alguém que me precedera, o que a tornava um legado involuntário, secreto — ou assim passei a vê-la no meu isolamento.

Não podia convidar ninguém para subir, tomar café ou um drinque no final da tarde, por causa da mala. Convertera-se numa instalação, uma espécie de altar. E de certa forma sua presença imponente e hierática no meio da sala me tranquilizava ao chegar em casa. Ela passou dias ali, intocada — uma semana, talvez duas?

Nesse meio-tempo, entre uma aula e outra, encontrei no escaninho que me fora reservado no departamento um envelope lacrado, sem remetente, e dentro dele a ata de uma reunião excepcional do diretório de alunos sobre meu comportamento irregular e minha “apropriação indébita”. A princípio não entendi do que estavam falando. Pensei logo na mala, é lógico. Chamado ao Conselho Universitário, entretanto, fui obrigado a ouvir uma cantilena sobre os limites do meu lugar, sobre os assuntos que me cabem como professor, por ser eu quem sou. Recebi a lista do que estava autorizado a ensinar e do que não estava. Em outros tempos, talvez eu reagisse com mais pulso em minha defesa, mas a indiferença com a qual acatei a reprimenda apenas confirmou a acusação dos alunos. Eu me tornara um provocador involuntário, pela voz interposta dos autores que ensinava em sala de aula.

Claro que a reverência àquele monumento ao segredo, atravancando a sala do apartamento que, embora não me pertencesse, seria meu por direito enquanto durasse o seminário (ou pelo menos enquanto o Conselho Universitário não me demitisse), não podia resistir por muito tempo aos apelos insistentes da curiosidade. Com as mãos trêmulas, me aproximei da mala numa noite de insônia e por fim a abri. E o que encontrei lá dentro pouco resolveu do mistério que, fechada, a mala parecia guardar. Havia roupas que eu mesmo poderia usar, artigos de toalete que eu mesmo poderia ter comprado na farmácia da esquina — e uma agenda.

Levei mais um dia ou dois para conseguir manuseá-la, menos por resquício do pudor que me impedira de ter acesso ao conteúdo da mala até aquela noite do que pelo temor de, ao abrir a agenda, terminar corrompendo a última esperança de descobrir o que quer que fosse; temor de que, tal qual com a mala, o interior da agenda não revelasse nada.

Ao final de outra noite de insônia, já de manhã, enfim fechei os olhos e, tateando-a com os dedos novamente trêmulos, abri a agenda. Abri os olhos segundos depois. E, para minha decepção, me vi diante de uma página em branco.

É impossível expressar agora a combinação de alívio e desvario que me acometeu ao entender que tinha aberto a agenda no mês de setembro, quando meu seminário já teria terminado. Ainda estávamos em março. Folheei-a de volta ao presente, apenas para constatar que havia, na página relativa àquele mesmo dia, como em todas as quartas-feiras até o final do semestre, um compromisso dali a meia hora. Sem pensar duas vezes, tirei o pijama e vesti as roupas que encontrei dentro da mala. Não me passou pela cabeça tomar banho. Estava atrasado. Se não me apressasse, perderia o compromisso e a primeira chance até aquele momento de encontrar o homem da mala e lhe devolver o que lhe pertencia. Vesti suas roupas por intuição, para que as reconhecesse ao me ver e viesse ao meu encontro recuperar o que era seu.

E pela primeira vez não me esforcei para imaginar o motorista que me precedera naquele carro compartilhado, enquanto seguia para um compromisso cuja razão eu ignorava, embora o endereço me parecesse familiar. Já não havia espaço na minha cabeça para outra pessoa.

Cheguei ao prédio de tijolos vermelhos em cima da hora. Tenho um fraco por prédios de tijolos vermelhos, ainda mais os antigos, com cara de armazém ou fábrica, remanescentes de um tempo supostamente promissor, quando indústria e técnica ainda engatinhavam rumo a um futuro glorioso, como se neles reconhecesse a nostalgia de um passado que não vingou e que não vivi embora pareça me pertencer. Amo o abandono desses prédios, sua promessa esquecida.

Estacionei o carro na esquina. O prédio de tijolos vermelhos pode ter sido uma fábrica no passado, mas agora produz tendências e consensos, mais do que ideias propriamente. O interior foi completamente remodelado. A recepcionista me cumprimentou como se me conhecesse e me liberou a entrada antes que eu pudesse responder. O que não faz uma roupa?, eu pensei. A sorte estava do meu lado. Não ia desperdiçá-la com perguntas ou retribuição de gentilezas.

Fui até os elevadores. Meu compromisso era no segundo andar. E foi lá, enquanto tentava me fazer reconhecer por aquele de cujas roupas eu tinha me apropriado, entre homens e mulheres sentados em torno de uma mesa de trabalho numa sala ampla, que ouvi o meu nome. Sim, dirigiam-se a mim, estavam à minha espera. Cabia a mim anunciar a que vinha, o que afinal estava fazendo ali. Cabia a mim e a mais ninguém assumir a palavra e a voz de um desconhecido, como se já não bastasse ter me apropriado de seus pertences. E foi aí, depois de encará-los um a um, como se de repente reconhecesse neles os rostos dos meus alunos, e de tomar fôlego, que comecei a falar, e a contar esta história, não mais como professor, mas como quem responde simplesmente, na pele de outra pessoa, a acusações impróprias.

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