Dom Casmurro

junho 2019 / Dom Casmurro / No mar

Texto publicado na edição #230

No mar

Poema de Lawrence Ferlinghetti

> Por Lawrence Ferlinghetti

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

O mar entre as árvores
distante
brilhando
O sombrio primeiro plano
um muro de pedra
coberto de líquen
Um velho marujo
sentado, contempla
o mar
Um vento balança, de vez em quando
as palmeiras
Mais um dia se prepara
para o calor e o silêncio
Um aviãozinho
zumbindo como uma mosca
perturba o céu
Que o ar o engole

Lá longe no mar sonolento
uma traineira vai se arrastando
O vento que vem do sul
sopra a isca na boca do peixe
O mar boceja e
engole a traineira
O líquen vai vivendo
em sua rocha vulcânica
taciturno
eterno
esperando por sua vez
nas voltas do sol
Eu nunca mais voltarei para cá
nunca mais
respirar esse ar
nessa longa marcha
no meio da manhã
onde o mar sussurra
paciência e sal
O sol
chamusca o céu
e cai como um palito de fósforo queimado
na noite
Sou um animal, um dia
talvez eu tenha sido um pássaro
um martim-pescador
que faz seu ninho no mar
no meu breve voo através
do pequeno mapa
de minha existência
A vida segue
repleta de silêncio e clamor
nas cidades cinzentas
burgos longínquos
nas brancas cidades à beira mar
por onde sigo em frente
escrevendo minha vida
nem em sangue nem em vinho
Ainda aguardo uma epifania
na beira da placa petri do mar
onde toda a vida teve início
nadando
Mas já é tempo
de contabilizar tudo
de explicar tudo
como por exemplo
por que a noite é escura?
Em todos os lugares o mar está se erguendo
eu, prestes a me afogar
com todos os outros
todos os animais da terra
varridos pelo oceano
maternalmente e incessantemente
neste momento extraordinário
de catastrófica mudança do mar
enquanto nosso mundinho desaparece
em um tremor de oceano e pavor
sob o murmúrio
do cérebro mediano da América
enquanto imbecis com gravatas
caem das árvores?
Então não importa
se eu acabar
num lar de insurgentes
na Avenida de los Insurgentes
ou descalço na praça central de Boston
ou largado e sem noção
na casinha de praia
de meu tio Désir
em Saint Thomas
Me perdoe por meus modos
se não consigo dar a você
uma palavra final —
uma teoria unificada a respeito da existência —
tudo junto
em um único grande pensamento
(visão utópica!)
Humanos com todas as suas vozes
como miríades, como
as sílabas do mar
jamais conseguiram inferir
o destino do homem
nem nos dizer porque estamos aqui
Ainda seremos, porém
livres como o mar
seremos nada além de
nossos sombrios seres
no fim das contas vagabundos de praia
num tempo futuro quando
não mais haverá nações
e a terra será varrida
por hordas étnicas
em busca de comida e abrigo?
Nem paciente nem plácido
em face disso tudo
no mar de cada dia
com suas duas marés
Eu corro ao vento
imune a recifes e baías escondidas
Alguém joga em mim
balas de goma
com o formato de coletes salva-vidas
Outros acenam
desde litorais distantes
Adeus! Adeus!
Por fim encalhado
descascando
Amaria ir de novo ao bosque
com suas velhas árvores
que cantam como sitares
ao vento
Ragas mudas!
Naufragado em terra firme
à mercê de avaras gaivotas —
E contudo e contudo
nós ainda não caímos no desespero
A primavera sempre chega
E aparece um bonde de turismo gay
O velho maquinista
com uma cartola
e um relógio de bolso dourado
nos cumprimenta como a passageiros há tempos esquecidos
nos presenteando com
colares de flores em volta do pescoço
como os braços de amantes
que insanamente nos envolvem
Haverá ainda algo a ser dito
antes que nos levem embora
como defuntos
enquanto ainda sonhamos
ainda em busca
do pão do mundo
lançado às águas
a massa que cresce
no fermento da fala
na palavra escrita
na poesia
Pegadas na areia!
deixadas por bandos de animais cercados
encurralados por hábitos e equívocos
e trens nos quais embarcaram
para destinos equivocados
ou viagens feitas ou não feitas
com anjos do amor
rumo às baixas latitudes
Entre duas ondas
o oceano é tranquilo —
um silêncio de eras
durando não mais que um instante
entre duas ondas
de emoção
enquanto os amantes
voltam-se um para o outro
ou para longe
O amor enche e vaza
vem e vai
entre duas emoções
mas ergue-se novamente
com cada nova onda
como algum animal marinho das profundezas
que se lança, num salto, à superfície!
O mar ruge mas nada mais fala
Oh, os casos que ele poderia desvelar
se quisesse
entre suas cóleras
sob o olho do sol
sob os ouvidos do céu —
Saqueadores e dólares espanhóis!
Cidades invisíveis!
Crânios de cristal!
Cascos petrificados!
Masturbações de marinheiros!
ou o esperma de ontem
perdido na marola deixada
por um barco do amor
Oh narrativa incoerente
e incompreensível — Viajante, prossiga!
Não somos nossos pais
ainda que sigamos
respirando como eles
amando e matando como eles
Para longe e longe
em nossos grandes e altos navios
por cima das colinas oceânicas
para onde a Atlântida
ainda conduz as marés
ou para onde aquela montanha mágica
que não está em mapa algum
envolta em esplendor
ainda se esconde

>>>

At Sea

The sea through the trees
distant
shining
The dark foreground
a stone wall
with lichen
An old salt
sits staring out
at the sea
A wind sways the palms
infrequently
Another day prepares
for heat and silence
A small plane
buzzing like a fly
disturbs the sky
The air eats it

Far out on the slumbering sea
a trawler creeps along
The wind from the south
blows the bait in the fish’s mouth
The yawning sea
swallows the trawler
The lichen lives on
in its volcanic stone
taciturn
eternal
awaiting its turn
in the turn of the sun
Never will I return here
never again
breathe this wind
on this far run
in the reaches of morning
where the sea whispers
patience and salt
The sun
scorches the sky
and drops like a burnt-out match
into night
And I am an animal still
perhaps once a bird
a halcyon
who makes its nest at sea
on my little flight across
the little chart
of my existence
Life goes on
full of silence and clamor
in the grey cities
in the far bourgs
in the white cities by the sea
where I go on
writing my life
in neither blood nor wine
I still await an epiphany
by the petri-dish of the sea
where all life began
by swimming
But it’s time now
to give an accounting of everything
an explanation of everything
such as
why there is darkness at night
Everywhere the sea is rising
Am I to be drowned
with the rest of them
all the animals of earth
washed away in ocean
motherer and moitherer
in this tremendous moment
of calamitous sea-change
as our little world disappears
in a tremor of ocean and fear
to the murmur
of the middle mind of America
as imbeciles in neckties
drop from the trees?
No matter then
if I end up
in a house of insurgents
on the Avenida de los Insurgentes
or shoeless on Boston Common
or cast-up clueless
in my great Uncle Désir’s
beach hut
in St. Thomas
Pardon my conduct then
if I can’t give you
any final word—
a final unified theory of existence—
all thought subsumed
in one great thought
(utopian vision!)
Humans with all their voices
as myriad as
the syllables of the sea
have never been able to fathom
man’s fate
nor tell us why we are here
Still will we be
free as the sea
to be nothing but
our own shadow selves
beach bums after all
in future time when
nations no longer exist
and the earth is swept
by ethnic hordes
in search of food and shelter?
Neither patient nor placid
in the face of all this
in the sea of every day
with its two tides
I run before the wind
immune to hidden reefs or harbors
Someone throws me
crystal fruits
in the shape of life-preservers
Others wave
from distant strands
Goodbye! Goodbye!
Beached at last
bleached out
I would to the woods again
with its ancient trees
that sing like sitars
in the wind
Wordless ragas!
Shipwrecked ashore
at the mercy of avaricious gulls—
And yet and yet
we are still not born for despair
Spring comes anyway
And a gay excursion train appears
The ancient conductor
with stove-pipe hat
and gold pocketwatch
greets us like long-lost passengers
gracing us with
wreathes around our necks
as arms of lovers
insanely embrace us
Is there anything more to be said
before they carry us off
as dead
while we’re still dreaming
still in search
of the bread of the world
cast upon the waters
the dough that rises
in the yeast of speech
in the written word
in poetry
Tracks upon the sand!
left by corralled bands of animals
cornered by mistakes and habitudes
and trains taken
to mistaken destinations
or trips taken or not taken
with angels of love
to lower latitudes
Between two waves
the ocean is still—
a silence of ages
lasting but a moment
between two waves
of emotion
as lovers
turn to each other
or away
Love ebbs and flows
comes and goes
between two emotions
but surges forth again
with each new wave
as some sea-creature from the deep
breaks the surface with a leap!
The sea roars but says no more
O the yarns it could spin
if it would
between its rages
under the eye of the sun
under the ear of the sky—
Plunderers and pieces of eight!
Invisible cities!
Crystal skulls!
Petrified hulls!
Sailors’ masturbations!
or yesterday’s sperm
lost in the wake
of a pleasure boat
O endless the inchoate
incoherent narrative—Voyageur, pass on!
We are not our fathers
yet we carry on
breathing like them
loving and killing like them
Away then away
in our great tall ships
over the hills of ocean
to where Atlantis
still rides the tides
or where that magic mountain
not on any map
wreathed in radiance
still hides

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