Inquérito

fevereiro 2018 / Inquérito / No embalo da empolgação

Texto publicado na edição #214

No embalo da empolgação

26 perguntas a Ana Maria Machado

> Por RASCUNHO

Ana Maria Machado, autora de Um Mapa Todo Seu.

Ana Maria Machado, autora de Um Mapa Todo Seu.

A carreira de Ana Maria Machado impressiona. São mais de 40 anos escrevendo, mais de cem livros publicados (dos quais nove romances e oito de ensaios), cerca de 20 milhões de exemplares vendidos, publicados em 20 idiomas e 26 países. Sua obra recebeu inúmeros prêmios nacionais e internacionais. Nascida no bairro de Santa Tereza, em 1941, a autora ocupa a cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras, que presidiu de 2011 a 2013.

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Nunca. Não houve um querer prévio. Transbordou de eu ser leitora. Fui escrevendo, publicando e, quando me dei conta, tinha leitores. Aí vi que já tinha virado escritora.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Tentar escrever todos os dias. Deixar o texto descansar um bom tempo antes de entregar ao editor.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Jornais. E um livro antes de dormir — prosa ou poesia.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Michel Temer, qual seria?
Ele já está bem grandinho, pode escolher o que quiser.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Sem pressão de agenda e sem interrupções externas.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Sem interrupções e deitada numa rede.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Aquele em que consegui ir em frente no que estou fazendo e me deixa vislumbrar para onde vou em seguida.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Ser levada pela empolgação do que estou escrevendo, deixando para depois o trabalho de analisar, corrigir, cortar e editar.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
A preocupação com alguma pauta exterior ao que o texto pede.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Vaidades transbordantes. Picuinhas. Gente que quer ditar regras sobre o que não conhece.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Enrique Vila-Matas. Sua inteligência sempre me deslumbra. E como escreve bem!

• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível é Shakespeare. O descartável eu já descartei e esqueci, quando nas primeiras páginas adivinhei para onde ele ia e como. Ou quando ficou intransponível, de tão chato.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Intenção prioritária de transmitir mensagens. Ou embevecimento com a própria voz.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Nunca pensei nisso, não acho que tenha um index prévio.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Minha própria casa.

• Quando a inspiração não vem…
Seguir o conselho de Drummond: “Não forces o poema a desprender-se do limbo…”.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Albert Camus.

• O que é um bom leitor?
Aquele que acolhe o texto, dialoga mentalmente com ele, inventa ao lado dele.

• O que te dá medo?
Que aconteçam coisas ruins com quem eu amo.

• O que te faz feliz?
Afetos mútuos, tecidos na verdade. Fortes e poucos.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Obedecer à coerência interna que aquele texto está determinando, e é única em cada caso.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Descobrir a estrutura recôndita daquela obra e ser fiel a suas exigências.

• A literatura tem alguma obrigação?
A de expressar a verdade do autor e fazer isso de forma original, que, de vez em quando, dê um arrepio de surpresa a algum leitor diante do uso das palavras.

• Qual o limite da ficção?
Não acho que exista.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Não creio em ET nem em líder pessoal.

• O que você espera da eternidade?
Nada.

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