Inquérito

setembro 2018 / Inquérito / No (des)limite da linguagem

Texto publicado na edição #221

No (des)limite da linguagem

26 perguntas a Iacyr Anderson Freitas

> Por RASCUNHO

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O poeta Iacyr Anderson Freitas (1963) nasceu em Muriaé (MG) e está radicado em Juiz de Fora. Sua estreia aconteceu em 1982, com Verso e palavra, em edição do autor. A partir daí, seguiu publicando com regularidade e possui vários prêmios, indicações e menções em concursos literários — entre outros, venceu duas vezes o Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte. Além da extensa produção poética, que inclui, entre outros, Primeiras letras (2007) e A soleira e o século (2002), Anderson Freitas também já praticou a narrativa curta nos contos de Trinca dos traídos (2003), que lhe rendeu uma menção honrosa Prémio Literário Casa de las Américas (Cuba).

• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Ao ler Machado de Assis e, alguns anos depois, uma antologia poética do Manuel Bandeira. Duas revelações maravilhosas. A partir daquele momento, me aventurei a escrever poesia.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Depois de escrever um texto e de revisá-lo diversas vezes, coloco-o numa gaveta e só vou retomá-lo alguns anos depois. Por quê? Porque, como autor daquele texto, estou muito próximo dele e não consigo revisá-lo com a mínima isenção assim que o escrevo.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Sou um leitor compulsivo. E eclético também. Logo, a leitura desejada — não importa qual seja a do momento — será sempre imprescindível no meu dia a dia.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Michel Temer, qual seria?
Como A radiografia do golpe, do Jessé Souza, talvez não seja uma boa ideia — assim como o maior livro de ficção da nossa Bruzundanga, a Constituição da República Federativa do Brasil ora em vigor (quer dizer, em tese), recomendo-o ao inferno, quer dizer, ao Inferno. Ah… sim, de Dante.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Partindo do princípio de que devemos ter a saúde sempre por base, pois não há boa literatura que resista a uma simples dor de dente, as circunstâncias ideais para escrever envolvem silêncio e conforto térmico. Detesto o calor, por exemplo, bem como seus agregados: pernilongos, mutucas, ventiladores, aparelhos de ar condicionado etc.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Idem, ibidem.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Um dia de trabalho produtivo pode ser aquele em que me debruço, como leitor, sobre um livro excepcional; um dia em que me dedico a um grande filme; um dia em que passo folheando livros de arte e ouvindo música; um dia em que estou ao lado das pessoas que amo ou admiro; um dia em que decido colocar no papel o fruto de muitos dias; em resumo, um dia que seja contraparente da eternidade.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Explorar, seja no processo de criação ou revisão, o horizonte semântico e as diversas versões de um mesmo texto. Estabelecer a versão final, essa que jamais se encerra em nós, após inúmeras contendas internas.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Confiar demais no próprio taco. Sentir segurança extrema diante da página em branco. Depositar todas as fichas naquele tipo de certeza absoluta que só os medíocres professam.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Eu resido em Juiz de Fora, sou funcionário público aqui, trabalhando na área de auditoria tributária. Por conseguinte, não me desloco habitualmente para lançamentos e palestras — não gosto muito de viagens, aliás —, não me encontro inserido profissionalmente no meio acadêmico, não circulo pelos eventos destacados nos segundos cadernos dos jornalões, enfim, não tenho “vida literária”, por assim dizer. E nada me incomoda.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Quando o assunto é poesia, há um número extenso de autores, vivos ou mortos, injustamente esquecidos. Ao segundo grupo se juntou, para nossa tristeza, o grande poeta Eustáquio Gorgone, dono de uma obra magistral. Um nome que não pode ser esquecido.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Tendo em vista o momento político atual — de ataques a direitos sociais conquistados a duras penas pela parcela mais pobre da população brasileira —, a (re)leitura de Morte e vida severina, obra primorosa de João Cabral de Melo Neto, torna-se imprescindível. No que se refere a livros descartáveis, a concorrência é enorme. Fica muito difícil, e é muito injusto, destacar um só.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
A trivialidade.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Nenhum. Desde que receba o tratamento correto, qualquer assunto é bem-vindo.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Não estou lá muito bem situado entre os adeptos dessa seita gnóstica chamada inspiração, mas já me apoiei nos cantos mais inusitados da existência para compor minha obra. Meu livro mais recente de poesia, aliás, volta-se para o ambiente hospitalar — por natureza, “bem pouco lírico”, como diriam alguns — e a segunda peça do volume é um poema intitulado Sangue oculto nas fezes, feito a partir do referido exame laboratorial. Para muitos, um tema verdadeiramente antipoético.

• Quando a inspiração não vem…
Insista. Trabalhe mais um pouco. Eu já passei algumas décadas tentando encontrar a expressão mais ajustada a um tema que me fustigava a memória. Depois de muitos tropeços, consegui colocar no papel o que eu tinha em mente. E o que acabou sendo destinado à prensa, no fim das contas, foi um poema com sete estrofes. Veja bem: mais de duas décadas… e sete pequenas estrofes!

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Penso sempre que o melhor dos grandes autores está nas suas obras. Para que evitemos dissabores ou decepções, fiquemos com elas. Todavia, minha enorme admiração me força a cometer o pecado de convidar o Bruxo do Cosme Velho para um café. Com pão de queijo, naturalmente.

• O que é um bom leitor?
Para fruir integralmente o universo literário, permitindo que a catarse aristotélica se realize, um radical mergulho na alteridade precisa ser efetuado. Eis aí o grande barato: aceder a si mesmo através do outro. Para a literatura, só existe o leitor ativo, capaz de preencher as lacunas semânticas e fazer do próprio ato de ler uma produção contínua de sentidos. Um grande poema exigirá sempre do seu leitor tudo o que nossos tempos líquidos repelem: vagar, concentração, disponibilidade extrema, reiterações em cascata, foco na qualidade da leitura (jamais na quantidade) etc. A poesia opera no (des)limite da linguagem, na extremidade dos seus horizontes cognitivos, por isso um bom leitor será sempre um criador, na acepção mais radical do termo.

• O que te dá medo?
Viver é muito perigoso, já dizia o Rosa. Se retirarmos as muitas cortinas ficcionais que moldam o nosso universo psicológico, não colocaremos mais os pés na rua. Ando com muito medo da maré conservadora e neoliberal que pretende transformar em estado crítico (não em estado mínimo apenas) um país que já é campeão mundial de desigualdade. Se o Brasil sempre desconheceu o que chamamos de estado do bem-estar social, o que podemos esperar agora, depois de uma reforma trabalhista tão injusta e tão monstruosa? Que futuro teremos, se a reforma previdenciária seguir os padrões propostos pelo sistema financeiro e pelas políticas neoliberais? Nosso país não se liberta desse viés esquizofrênico que nos faz almejar menos violência ao mesmo tempo em que ampliamos vertiginosamente nossa desigualdade social, nossa intolerância, nosso racismo, nosso descarado machismo e nossa homofobia.

• O que te faz feliz?
Um número infinito de grandezas. Todas simples, gregárias e transitivas. Como cantou Tom Jobim: “É impossível ser feliz sozinho”.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Quando comecei a escrever, eu tinha muitas certezas. Felizmente o tempo se encarregou, sem grandes delongas, de jogá-las por terra. É sempre mais honesto e produtivo enfrentar a dúvida e o risco.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Oferecer aos outros aquilo que eu, como leitor, gostaria de encontrar num livro.

• A literatura tem alguma obrigação?
Tem muitas. A principal, com certeza, é com a qualidade daquilo que deve ser destinado à prensa.

• Qual o limite da ficção?
Não há limite para a ficção.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Em primeiro lugar, eu pediria a ele para não menosprezar tanto assim a nossa inteligência. Tudo bem, o planeta Terra não nos permite grandes esperanças. Olhemos bem, por exemplo, para o Bolsonaro. Mas nem tudo é Temer ou Trump, ora pois! E diria em seguida, pra encurtar a conversa: “você ainda tem direito a mais duas perguntas”.

• O que você espera da eternidade?
Na melhor das hipóteses — e com todos os ventos soprando a favor —, que seja. Na pior, que seja breve.

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