Ruído branco

outubro 2011 / Ruído branco / Nem sempre os grandes escritores são bons escritores

Texto publicado na edição #130

Nem sempre os grandes escritores são bons escritores

Gosto de frases espirituosas, espinhosas, afiadas. Quando soube que a Arquipélago Editorial acabara de lançar uma coletânea de máximas e […]

> Por LUIZ BRAS

Gosto de frases espirituosas, espinhosas, afiadas. Quando soube que a Arquipélago Editorial acabara de lançar uma coletânea de máximas e aforismos de Karl Kraus, traduzida por Renato Zwick, não perdi tempo. Tratei logo de garfar meu exemplar.

Outra surpresa muito prazerosa, recém-lançada: Eu sou uma antologia, reunião de frases raras, gracejos memoráveis e axiomas paradoxais de Fernando Pessoa e seus heterônimos, publicada pela Portal Editora. Essa seleta de aforismos e afins organizada e apresenta por Carlos Filipe Moisés reúne as frases definitivas do poeta-filósofo, agora destacadas de seus poemas e de suas cartas. São oitocentos e dez textos curtos e cortantes, classificados em cinco categorias temáticas.

Leminski não curtia Pessoa. Num delicioso e provocativo ensaio-anseio publicado em 1979, no número 28 da revista Escrita, ele confessou: “Nunca fui muito fanático por Fernando Pessoa, de quem gosto mais do processo do que do produto, que, às vezes, me dá a impressão de mero ardil: saltos ornamentais numa piscina vazia”.

Aí está outra máxima saborosa e maldosa: “Pessoa: saltos ornamentais numa piscina vazia”.

É claro que ao menos nesse ponto eu discordo de Leminski. Sou fanático por Fernando Pessoa, de quem Carlos Felipe Moisés separou, por exemplo:

Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais.

Quando falo com sinceridade, não sei com que sinceridade falo.

A humanidade é uma revolta de escravos.

Amar a nossa terra não é gostar do nosso quintal.

Tudo consiste em não consistir.

O que é este intervalo que há entre mim e mim?

Porém, como não sou uma criatura perfeita e coerente, também há momentos em que desgosto de frases espirituosas, espinhosas, afiadas. Mistério. Se minutos atrás elas me divertiam e iluminavam, agora elas me irritam e inquietam. Parecem provocações ingênuas, pueris. Atrás do humor ou da afronta o que há? Nada. O vácuo.

“O aforismo jamais coincide com a verdade; ou é uma meia verdade ou uma verdade e meia”, escreveu Karl Kraus. Nessa natureza incerta — para menos ou para mais — está sua força e sua fraqueza.

E assim, ora gostando ora desgostando — jamais indiferente —, vou tocando a vida.

Atribuída a Lêdo Ivo, a afirmação que dá título a esta crônica é uma provocação do tipo chinês, um koan zen-tropicalista que cutuca o raciocínio cartesiano. Apócrifa ou não, cruzei com ela quando navegava na web e não consegui deixar de pensar no assunto.

“Nem sempre os grandes escritores são bons escritores.” Bobagem ou verdade?

Creio que o sentido dessa afirmação está no valor semântico das expressões grandes escritores e bons escritores. Eu pessoalmente desconfio que a primeira expressão, grande escritor, significa “escritor canonizado, legitimado pela tradição”, ou seja, alguém cuja obra venceu todas as barreiras e todos os testes, e foi finalmente incorporada ao cânone mundial.

Já a expressão bom escritor a meu ver significa “escritor que respeita os critérios estabelecidos pela maioria”, ou seja, alguém que escreve de acordo com a norma vigente, de acordo com a gramática, um beletrista, um bom menino.

Assim, o que o Lêdo Ivo está dizendo é que nem sempre os escritores importantes para a cultura são os escritores que respeitam o bom gosto do público e da crítica.

Nosso modernismo está apinhado de poetas e prosadores que comprovam essa afirmação. Está cheio de escritores desleixados e transgressores, que deram uma banana para o bom gosto e para a norma culta, e por isso mesmo entraram para o cânone: Oswald de Andrade, Bandeira, Drummond, Clarice, Leminski, Dalton, Manuel de Barros, Rosa…

Em 2002, a editora Devir me enviou um exemplar do romance O cheiro do ralo, recém-lançado. O autor eu já conhecia, dos quadrinhos: o desenhista Lourenço Mutarelli.

Comecei a ler o romance e… Gostei da bizarrice, do humor grotesco, do protagonista calhorda fisicamente parecido “com aquele cara do comercial do Bom Bril”, dono de uma loja de compra e venda de artigos usados.

Mas confesso que achei a escritura meio tosca, meio suja, desmazelada, deselegante. E, pra piorar, havia os erros de revisão, muitos, pelo menos um por página. Como se o editor tivesse pegado o arquivo de Word e publicado, sem passar para um revisor profissional (tenho quase certeza de que foi isso mesmo que aconteceu). Mas conforme eu ia lendo e mergulhando na bizarrice escatológica, mais eu ia gostando do romance.

Como é possível?, pensei. Como posso estar curtindo uma narrativa tão desleixada, tão malcheirosa? Pelo visto, não era só eu: nos anos seguintes O cheiro do ralo virou uma obra cult e foi parar no cinema. Mesmo com todas as suas imperfeições!

O koan atribuído a Lêdo Ivo, pelo que eu entendi, confirma isso: até mesmo uma obra mal escrita pode vir a ser uma obra-prima.

Relendo trechos da História social da arte e da literatura, de Arnold Hauser, tive a confirmação da confirmação: Balzac e Dostoievski foram muito criticados, em sua época, por escreverem desleixadamente, sem se preocuparem com a elegância do estilo. Até o aristocrático Henry James também foi muito criticado pelo excesso de advérbios e de palavras repetidas num mesmo parágrafo…

Em A ascensão do romance, Ian Watt conta como os primeiros romancistas ingleses — Defoe, Richardson, Fielding — eram escritores de aluguel que escreviam por encomenda e recebiam por página. Questão óbvia: por que queimar os neurônios produzindo versos metrificados e rimados (na época, o drama e a sátira versificados eram a quintessência da arte literária), se a prosa é muito mais fácil?

Elegância verbal, estrutura complexa, execução cuidadosa, linguagem sofisticada… Tudo isso levava tempo demais. Quem pagava o romancista era o editor, e não mais o mecenas, então é claro que “rapidez e volume tornaram-se as supremas virtudes econômicas”. Além disso, narrar de modo explícito e até mesmo tautológico ajudava os leitores menos instruídos a compreender a história narrada.

No final do século 18 era mais ou menos habitual acusar-se um autor de escrever profusamente por razões puramente comerciais. Havia tempo que Defoe seguia nesse rumo. No começo da carreira ele utilizou o meio vigente da sátira versificada, mas depois passou a dedicar-se quase exclusivamente à prosa. E essa prosa obviamente era fácil, prolixa, espontânea: qualidades bem adequadas ao estilo de seus romances e à maior compensação financeira por sua labuta. (Watt)

Esses autores não estavam mais escrevendo para a elite dos salões sofisticados. Eles escreviam para o grande público. Para os leitores de folhetins: gente que só se impressionava com os grandes efeitos dramáticos e não estava nem aí para as sutilezas de estilo. A ironia é que hoje nós lemos seus livros de outro modo. Como altíssima e refinadíssima literatura.

Bem, no final, o que fica de tudo isso?

Duas verdades embaraçosas:

1. As regras de bom comportamento e do bom-tom nem sempre se aplicam à arte e à literatura.

2. O desleixo dos loucos, dos bêbados e dos clowns (como queria Bandeira), dos feios, sujos e malvados (Ettore Scola), pode ser bastante expressivo, afastando qualquer possibilidade de beletrismo e pedantismo.

Essas duas verdades agora podem ser transformadas em uma só: um escritor desleixado não é necessariamente um grande escritor, mas um grande escritor às vezes também é um escritor desleixado.

LEIA TEXTO DE RODRIGO GURGEL SOBRE AFORISMOS

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