Palavra por palavra

julho 2020 / Palavra por palavra / Necessidade de Jorge

Texto publicado na edição #243

Necessidade de Jorge

A força da literatura de Jorge Amado contra o racismo

> Por RAIMUNDO CARRERO

Ilustração: Carolina Vigna

Ilustração: Carolina Vigna

Iniciamos esta série sobre a obra de Jorge Amado com o artigo Jubiabá neles [abril #240], provocada pela biografia de Josélia Aguiar, em que defendemos a leitura deste exemplar romance para o combate e resistência ao racismo, registrado primeiramente nos estádios de futebol com agressão verbal a jogadores, depois chegando às ruas de países europeus, que muito lembra o ressurgimento do nazismo — confirmado com a eleição de presidentes de ultra-direita e declaradamente nazistas, alguns deles com serviços prestados ao partido — estendendo-se à América Latina. O caso do Brasil, aliás, está numa exaltação à violência com arminha — não gosto desta expressão no diminutivo — e ofensas aos negros, índios e minorias. Os fatos são bem claros.

Jubiabá, romance de 1935, volta ao combate para enfrentar, junto com os seus leitores, este grupo de insanos com uma violência que arrepia. Causa horror aquela imagem do policial branco pisando até a morte o pescoço de um negro nos Estados Unidos. Acreditamos mesmo que aquela imagem permanecerá como um símbolo, muito mais do que uma metáfora, desses tempos cruéis. Para questioná-la, só o romance em questão, com a figura de Antônio Balduíno avultando, vencendo a luta com Ergin, o branco. Neste instante, revejo os anos 1960, quando os brancos americanos assassinaram Martin Luther King e Malcom X, profetas negros que conduziam a raça para a vitória.

O primeiro capítulo de JubiabáBoxe — vale por um manifesto com toda carga de emoção e força, quedas e conquistas, até a vitória final. E não poderia ser diferente por se tratar de um “romance honesto sobre o negro brasileiro”, conforme definiu o próprio Jorge Amado, em carta a Erico Verissimo, que se declarara naquela época um “liberal democrata”. Terminologia nem conhecida ainda.

A frase de abertura do capítulo — que, pelo óbvio, é a frase inicial do romance — sugere o instante em que a igualdade e a democracia se levantam para combater a injustiça e a dor: “A multidão se levantou como se fora uma só pessoa”. Uma só pessoa é justamente esta raça que se levanta para combater o mal, personificado nestes grupos cheios de ódio, de preconceitos, de violências — assim mesmo no plural com as suas incríveis variações. De repente, estamos no ringue, todos nós estamos no ringue lutando contra o ódio branco, combatendo o nojo branco, enfrentando o desafio branco. Com altos e baixos.

Veremos, agora, um breve trecho do livro em que distinguimos logo a personalidade do negro e a plateia que assiste à luta e que, naturalmente, são a chamada para a leitura de Jorge Amado:

O largo da Sé pegara uma enchente naquela noite. Os homens se apertavam nos bancos, suados, os olhos puxados para o tablado onde o negro Antônio Balduíno lutava com Ergin, o alemão. A sombra da igreja centenária se estendia sobre os homens. Raras lâmpadas iluminavam o tablado. Soldados, estivadores, estudantes, operários, homens que vestiam camisa e calça, seguiam ansiosos a luta. Pretos, brancos e mulatos torciam todos pelo negro Antônio Balduíno que já derrubara o adversário duas vezes.

Observem os elementos da cena — ou das cenas, cuja técnica chama-se cenas sobre cenas sobre cenas: homens apertados num banco, crítica sutil à Igreja, com uma “sombra da igreja centenária que se entendia sobre os homens”. Homens? Que homens? Soldados, estivadores, estudantes, operários, e o negro e o branco se repetindo seguidamente, identificados, ainda, como pretos, brancos e mulatos, também uma referência a nossa formação racial. Nenhuma palavra fora do lugar e, em rápidas palavras, uma visão do Brasil.

Daí a necessidade do nosso reencontro com Jorge Amado para este combate ao racismo e aos preconceitos de agora. Talvez a leitura nos coloque, imediatamente, em combate. Se quisermos um pouco mais, poderemos ir ao encontro de O país do carnaval, Capitães da areia,

Terras do sem-fim, Mar Morto.
O professor Antônio Dimas, da USP, escreve no posfácio da edição de Jubiabá, da Companhia das Letras:

Em pleno Largo da Sé de Salvador, marco zero da cidade e ponto de partido do romance, Balduíno e Ergin se atracam em luta de boxe, protegidos pela sombra da igreja da Sé. Apesar da supremacia ariana, tão apregoada naqueles anos 30, vence Balduíno, o mis instintivo, o mais preparado, o mais natural. Ciclope enfurecido, enxergando com um olho apenas — porque o outro tinha sido esborrachado por um murro certeiro do alemão — Balduíno nocauteia o adversário, derruba-o na lona e com isso desmonta a suposta superioridade de quem viera da Europa Central. Na frente de uma plateia improvisada, barulhenta e sem modos, Balduíno vira rei. Majestade que, logo em seguida, vai ser devolvida à condição de populacho, depois de trocar de roupa no mictório público e antes de procurar a namorada na zona.

Sem esquecer que Jubiabá foi traduzido na Europa como Bahia de todos os Santos. A que se acrescentaram quase todos os pecados.

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