Dom Casmurro

setembro 2017 / Dom Casmurro / Naraka

Texto publicado na edição #208

Naraka

Trechos do novo livro de Homero Gomes

> Por HOMERO GOMES

Ilustração: Carolina Vigna

Ilustração: Carolina Vigna

Ele não tem onde reclinar a cabeça.

Seu travesseiro de pedra

‒ crânio espatifado no asfalto, os espinhos na pele suada de sal ‒

ele não tem,

reclinar sua consciência de ser em ombros alheios não pode mais

‒ onde a cabeça.

 

Pulsam as têmporas flácidas de tão ocas. Cheiro de podre nos pelos das narinas inexistentes.

O vazio ‒ sinal:

símbolo da sua (d)existência.

 

Pus vazando pelos olhos avermelhados de cansaço. Cansar no ócio do ontem na previsão da inutilidade de adiante.

 

Reclinar

o peso que ele não tem na cabeça.

 

Onde.

Peso ‒ pedra sem sono.

A leveza da densidade da matéria.

Não. Leveza ‒ plumas sem esse cão que se esfrega na barra da calça. O peso desse oco que suga a gravidade dos olhos.

 

Essa cabaça seca caída sobre a terra rachada poeirenta sólida como a rocha ‒ sua cabeça sobre o nome: a maldição efêmera dos símbolos.

Seu nome reclinando sobre a cabeça do rio esquecido.

 

O tempo não corre mais    só o vapor da pedra no ar.

: o resto nas sombras das arestas dessa pequena densidade :

***

Pedro, uma rocha?

Um iceberg: sobre o mar, um pequeno floco.

Desse mar primitivo e sem mistérios ‒ esconderijo.

Um cobertor, no silêncio, o mantra. Um canto de proteção sem glória: a primeira mãe dos homens.

 

Com as unhas roçando os corais, dorme. Acalenta o desespero refletido na lembrança azeda do leite escorrido de sua mãe.

***

Querer deitar sem querer mais nada

‒ ilusões nos olhos irritados de fuligem.

Lençóis engordurados na imensidão do quarto nu,

a desistência e a poeira acumulam no rodapé das calçadas mormacentas.

Saliva e moscas beijam-se vagabundas.

 

O enforcado trança a fibra fraca e velha

‒ no peito uma lata de sardinha.

 

Fotografias: uma navalha enferrujada pelo sangue imundo uma boina no abandono do passado pregos corroídos pelo chão cabeças de peixes a prostituta de mãos dadas com uma boneca.

 

Não querer mais o grito que ainda ecoa na garganta. Querer

deitar sem ter consumado o

dia,

que se vai desmanchando

na renda

azulada

‒ pássaros voam na chuva fria dançam como se já não soubessem da secura da semente mostarda ínfima que engasga a gárgula de néon que se vê de onde corre o rio.

 

E depois amanhecer soluço.

***

Cheiro do vômito que bloqueia o ralo.

O augusto sem sonhos,

Pedro esmagado, lavando as mãos na imundície dos homens.

Esquece as amoras que roubava dos quintais vizinhos, das reminiscências com Augusto, das andanças nas trilhas sempre recém-descobertas por exploradores alienígenas, das ideias exageradas entre árvores com piratas e índios violentos que encontravam, do futebol seco no campinho, da grama cheia de coceira. Esquece.

Na fome e no frio, perde memórias.

 

Os olhos vagando por não espaços,

por estações,

entre os pelos de Rosa,

por entre as pernas que estavam ao redor.

O cheiro acumulado das latrinas da cidade abaixo da marquise que serve de cama, casa e dormitório.

 

: as formigas empurram eufóricas a asa de uma barata no início do dia :

 

Assim: sem mais a zombeteira juventude em seus bagos.

Luzes refletidas na janela engordurada

‒ acorda sombra que é.

Morte nas reverberações maquinais

‒ ilusões.

Álcool na ferida aberta: desencaminha.

 

A luz desnecessária cariando seu último apego.

A mulher que dorme      :      imagem de um passado nunca ido.

 

Suor.

As luzes de todos os sóis que se levantam

‒ o coração não estremece mais.

***

Como me fiz

não isso

o que foi feito de mim

‒ essa ressonância de infernos particulares:

meus deuses

 

É o que menino alicercei em moscas

deitado na areia quente e molhada

‒ o calor do corpo redescoberto e a umidade do Sol gotejando em mim

 

Visões e dores

incongruências esféricas na melodia que assobio

 

Crer ou não

talvez menos

nem isso

 

Mas ver e ser impelido

o gorgolejo da voz ainda frágil

 

Cantar nas ruas

e o povo rir sem fé

‒ e o menino que nem chora,

mas pra quê?

Exigir o que será tirado de quem passa ao lado. Arrancar o que me pertence por força e caninos. Alimentar apenas o que doer dentro do corpo ‒ nunca o cristal que espelha espectros, digitais de memórias e futuros, medo dos olhos que atravessam os meus.

 

Fui feito

‒ esse duplo que se esparrama no rubi ancestral do mundo e arranca as vísceras do anjo: que frágil se dissipa ‒

coluna terracota.

 

Me chamam Augusto,

augusto me fiz.

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