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julho 2017 / Fora de sequência / Na zona crepuscular da leitura (EUA)

Texto publicado na edição #207

Na zona crepuscular da leitura (EUA)

A preocupação norte-americana com o rápido declínio da leitura por lá

> Por FERNANDO MONTEIRO

Ilustração: Bruno Schier

Ilustração: Bruno Schier

O meio acadêmico norte-americano há muito se preocupa com o declínio da leitura mesmo nos melhores “ambientes” da superpotência (que já não é tão superpotência assim).

Essa preocupação é um dado relevante porque o mercado editorial deles era de uma pujança invejável. Cem mil, duzentos mil exemplares de livros até de jovens escritores desconhecidos — como um William Goyen, ao estrear com o maravilhoso The house of Breath — não eram raras num meio em que narradores talentosos como Ernest Hemingway (mesmo antes do prêmio Nobel, está claro) faziam grandes fortunas com direitos autorais de tiragens em edições capa dura e pocket, passando eventualmente, depois, para a cessão dos direitos de adaptação cinematográfica etc. (o que só fazia aumentar as vendas nas livrarias de vitrines cheias da nova capa muitas vezes estampando alguma cena do filme respectivo já lançado por Hollywood etc.).

Bem, era um largo, próspero, pujante negócio — lá —, acho que todo mundo bem pode imaginar, até pela lenda de agentes literários e/ou editores como Max Perkins e outros, sem falar de casas do porte de Knopf, Ballantine, Random House e inúmeras outras.

Essa cadeia do negócio do livro ianque, no que diz respeito aos velhos hábitos de leitura dos americanos, está em franco declínio — pelo menos em comparação com o já é considerada ultrapassada “Idade de Ouro” — e o dados recolhidos nas últimas décadas sinalizam para a queda numa planície tão rasa que começou a assustar estudiosos preocupados com a cultura em tempos de Bush, Obama e (agora) Trump.

Um dos americanos mais angustiados com as perspectivas da leitura nos EUA é Caleb Craig, colunista na New Yorker, que escreveu Twilight of the books (“O crepúsculo do livro”), orientado pela pergunta sobre como será a vida se as pessoas deixarem de ler, segundo a séria constatação de um estudo a apontar para um forte declínio da leitura de obras literárias no país.

A coisa é mais grave do que parece à primeira vista. O que o jornalista americano quer ressaltar é que o declínio da leitura atinge, como um todo, a sociedade dos EUA. Sua afirmação se baseia em dados estatísticos relativos à questão da leitura, levantados por vários institutos de pesquisas: em 1937, 29% dos americanos disseram ao Gallup que estavam lendo um livro. Em 1955, esse número caiu para 17%. Em 1978, os pesquisadores mudaram o teor das perguntas e obtiveram a seguinte resposta: 55% dos entrevistados haviam lido um livro nos últimos seis meses. Entre 1998 e 2002 as perguntaram se tornaram ainda mais vagas; 70% dos entrevistados haviam lido um romance, um conto, um poema, uma peça de teatro nos últimos doze meses. Em agosto de 2007, 73% haviam lido algum tipo de livro, não excluídos aqueles que são lidos para a confecção de trabalhos escolares. E observa Craig: “se não lermos nas entrelinhas, seremos tentados a pensar que a leitura está em alta”. Ledo-e-Ivo engano, como veremos.

Baseado em dados mais detalhados levantados pelo Census Bureau and the National Endowment for the Arts, que, desde 1982, entrevista milhares de americanos sobre hábitos de leitura, Craig informa que o quadro anualizado dos números é desanimador (“dispiriting”): em 1982, 56,9% dos americanos haviam lido uma obra literária nos últimos doze meses. A proporção caiu para 54% em 1992 e para 46,7% em 2002. Em novembro (2007), o NEA realizou uma pesquisa mostrando correlações entre o declínio da leitura e fenômenos sociais diversos como a disparidade de renda. Conclui o presidente do NEA, Dana Gioia: “Pouca habilidade para a leitura tem relação íntima com falta de emprego, baixos salários e poucas oportunidades de crescimento profissional”.

No que tange à imprensa escrita, a realidade não é diferente. Em janeiro de 1994, 49% dos entrevistados disseram ao Pew Research Center for the People and the Press que haviam lido um jornal no dia anterior; em 2006, esse número caiu para 43%. Quanto aos livros, estão com as vendas mais do que estagnadas: estão em franco declínio. Conforme o Book Industry Study Group, as vendas de livros caíram de 8,27 livros por pessoa em 2001, para 5,93 em 2015. O indicador mais grave, porém, é que os americanos não estão só perdendo o gosto pela leitura, mas também a capacidade de ler.

O problema, porém, não parece ser exclusivamente americano. É o que informa o colunista da New Yorker. Ele cita dados relativos à Holanda mostrando que a televisão e outras mídias estão reduzindo o tempo dedicado à leitura no que diz respeito a todas as gerações. Craig afirma: “Estamos lendo menos à medida que envelhecemos, e lemos menos do que o faziam as pessoas da nossa idade há dez ou vinte anos”.

Talvez para atenuar um pouco o estrago que causa com seu relato desolador para leitores como nós, que ainda acreditamos na leitura — chegamos mesmo a imaginar que seja possível viver de escrever para outros lerem —, Craig assinala: “Não há razão para imaginar que a leitura e a escrita estão prestes a se extinguirem, mas alguns sociólogos especulam que a leitura do livro por prazer será, um dia, uma província de uma ‘classe de leitura’ especial — mais ou menos como foi, antes do advento da cultura de massa, na segunda metade do século 19”. Em resumo, a leitura literária será, brevemente, um hábito arcaico ou exótico.

Adendo
É necessário lembrar, entretanto, que a prática, em si, da escrita — literária e não literária — está encontrando na Internet uma espécie de mola propulsora ora levando ao beco (quase) sem saída das chamadas “redes sociais”, nas quais a maioria só escuta, aparentemente, aquilo que “confirma” seus pontos de vista (sólidos ou não) ou, então, deblatera como um louco ameaçado num hospício, com uma faca na mão (para lembrar a imagem de Tarkovski).

Por outro lado, editoras independentes e\ou “alternativas” surgiram, nas últimas décadas, para contrabalançar o jogo de cartas marcadas — frequentemente — das chamadas “grandes editoras”. Aqui no Brasil, eu faço questão de citar uma editora “pequena” que está, neste momento, levando vitoriosamente a sua firme independência para o domínio das “médias”, ganhando um novo status sem perder suas belas características “out-Market” etc., que é a Confraria do Vento. Outra é a Nephelibata, ainda mais radical num artesanato que envolve pessoalmente o seu editor — Camilo Prado — com cada livro saído do forno sob o lema “do raro autor para o raro leitor”. Parabéns para ambas, respectivamente no Rio e em Santa Catarina, seus Estados de “levitação” acima da vulgaridade editorial digamos que triunfante.

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