Ensaios e Resenhas

julho 2012 / Ensaios e Resenhas / Na superfície

Texto publicado na edição #147

Na superfície

Mário de Andrade, quando leu os primeiros contos escritos por Murilo Rubião, detectou um problema que traduziu numa queixa. O […]

> Por MAURÍCIO MELO JÚNIOR

Antonio Carlos Olivieri, autor de Farsantes & fantasmas

Mário de Andrade, quando leu os primeiros contos escritos por Murilo Rubião, detectou um problema que traduziu numa queixa. O mineiro era um escritor de fato, mas sua opção pelo fantástico estava marcada por um excesso de timidez. Tinha seres e situações mirabolantes nos contos, no entanto o realismo imprimia a eles uma força tão avassaladora que, em parte, encobria os devaneios, os vôos da imaginação.

O novo romance de Antonio Carlos Olivieri, Farsantes & fantasmas, sofre um tanto deste mal da timidez. Em princípio, abre várias frentes de gênero — é um policial, uma crônica de costumes, uma reflexão sobre a inviabilidade ética —, mas, ao fim e ao cabo, não se realiza em nenhuma delas. Ou seja, permanece como uma leitura de entretenimento onde falta um humor mais vivo, inteligente e imprescindível.

Padronização vazia
Moreira é um ex-jornalista que usa um escritório herdado do pai no Centro de São Paulo para trabalhar como ghost-writer. Seu principal cliente é José Augusto Lobo Pavão, um editor oportunista e inescrupuloso que vive caçando livros de ocasião que possam vender aos milhões. Para criar o disfarce necessário de produto cultural, arrisca publicar herméticas teses universitárias, embora, para tanto, não se constranja em raspar a conta bancária do autor, sócio involuntário da empreitada. Neste ponto entra em cena um terceiro personagem, a bela e sensualíssima intelectual Lucila Napolitano, autora de um livro sobre o conto Desenredo, de Guimarães Rosa, que Moreira ajuda a tornar legível.

Contratado por Lobo Pavão, Moreira se encarrega de dar algum sentido e escrever as obviedades ditas pelo Dr. Paul Mahda, um psicanalista que cuida de estrelas e celebridades, mas também um inescrupuloso que pousa de gênio e trepa com as clientes. Às vésperas de sua publicação, o livro aí gestado, “A supremacia psicobiológica — Um guia para a paz na guerra dos sexos”, ganha o reforço necessário para se tornar best-seller: seu suposto autor é encontrado morto dentro de um carro estacionado numa rua deserta da cidade. O crime abre espaço para a entrada triunfal de outro personagem, Lopes Cliff, um delegado mal-vestido e desleixado, mas infalível.

Este enredo chapado e bem previsível, onde Antonio Carlos Olivieri manipula personagens e ações padrões, serve de base para falar de um mundo de farsas e trapaças. Neste caso, toda degradação envolve o universo editorial, talvez por ser aquele de maior intimidade do escritor que, em suma, parece querer falar do preço da vaidade. Seu romance, afinal, está plenamente construído sobre personagens interesseiros e capazes de tudo na busca de seus objetivos, quase sempre antiéticos. Aqui não há heróis, e esta regra nivela todos ao rés do chão, resultando numa padronização se não chata, pelo menos medíocre e vazia.

Fato mesmo é que todos os personagens são estereotipados e, parece, tirados de antigos seriados de TV. Existem apenas para mostrar a já imensamente batida crueldade humana que somente é combatida por homens probos e incorruptíveis, como Lopes Cliff. O problema é que tudo isso cansa o leitor mais atento, que certamente não está muito disponível para ler caminhos já tantas vezes lidos e relidos.

A impressão que fica é de que Olivieri não conseguiu se libertar de todo das exigências cobradas pelas editoras aos autores infanto-juvenis. Estes ditames pedem que, ao trabalhar na formação de novos leitores, os escritores manipulem enredos menos complexos e personagens de pouca densidade. Assim, jogou fora a oportunidade de retratar com mais acuidade um universo pouco explorado na ficção brasileira, mas que, ao lidar com futilidades e densidades, com opostos claros e vivos, pode muito bem traduzir todas as fronteiras da realidade universal. Aliás, neste sentido já caminharam outros autores nacionais, como Rodrigo Lacerda e Edgar Ribeiro Telles.

A verdade é que tudo ficou na superfície. Em Farsantes & fantasmas, publica-se por vaidade, lê-se o vazio e todos os golpes são brindados com o sucesso. Naturalmente que o realismo mesmo da vida não é tão raso assim. E o autor nos oferece um olhar desbotado da vida, talvez por não querer colori-la com as tintas do humor, do fantástico ou mesmo do aprofundamento psicológico dos personagens.

Antonio Carlos Olivieri, em suma, já mostrou em outras ocasiões que não lhe falta talento, mas neste novo romance houve um erro de opção. O resultado é uma indefinição meio sem sentido. E isso fez desandar todas as outras intenções.

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Antonio Carlos Olivieri

Carioca de nascimento, em 1957, e paulista de coração, Antonio Carlos Olivieri é formado em Letras. Professor e jornalista, é autor de mais de dez títulos voltados para o público infanto-juvenil. Em 2001, ganhou o Prêmio FNLIJ, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, com Sherlock Moreira.

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Antonio Carlos Olivieri
Record
160 págs.