Ensaios e Resenhas

fevereiro 2013 / Ensaios e Resenhas / Na Nigéria de hibiscos roxos

Texto publicado na edição #154

Na Nigéria de hibiscos roxos

Resenha de "Hibisco roxo", de Chimamanda Ngozi Adichie

> Por GISELE EBERSPÄCHER

Chimamanda Ngozi Adichie, autora de Hibisco roxo, proferiu, em julho de 2009, uma palestra sobre o perigo de se ter uma história única — saber uma única versão ou informação sobre algo ou alguém. Para ilustrar, ela usou diferentes momentos de sua própria vida. Quando criança, costumava ler livros infantis escritos na Inglaterra, com personagens loiros de olhos azuis que brincavam na neve e comiam coisas que não eram vendidas na Nigéria. Chimamanda acreditava assim que esse era o único modelo de literatura possível.

Aos 19 anos, quando sai da Nigéria para cursar a faculdade de comunicação e escrita criativa nos EUA, ela se depara com o outro lado da história: sua colega de quarto tem dificuldades de lidar com ela, achando que não saberia falar inglês (que é a língua oficial da Nigéria) e que tinha um modelo de vida tribal completamente oposto da vida americana. Essa colega tinha uma história única da Nigéria e da África como um local de guerra e pobreza.

(A palestra foi realizada no TED Global, em Oxford, na Inglaterra, e pode ser encontrada na íntegra no Youtube sob o nome “The danger of a single story”).

Segundo Chimamanda, o perigo de se ter uma história única é que esta se torne uma história definitiva, uma espécie de estereótipo — que não é necessariamente uma inverdade, mas é possivelmente incompleto. E um julgamento feito dessa maneira pode ser prejudicial para todas as partes.

A protagonista de Hibisco roxo, Kambili, tem uma história única em relação ao mundo: católicos fervorosos e seriamente praticantes têm seu lugar ao céu; os outros, não. Adolescente nigeriana e filha de família rica, vive na grande mansão de seu pai, Eugene, dono de grandes fábricas e um jornal importante da região. Sua mãe, Beatrice, é submissa ao marido e ajuda na educação rígida de seus filhos.

Kambili e Jaja, seu irmão mais velho, têm cronogramas restritos estipulados pelo pai, que diz o que devem fazer a cada momento do dia. Devem ser os primeiros de suas turmas no colégio e seguir estritamente os ensinamentos religiosos. Apesar de terem em casa aparelhos de televisão e som de última geração, não têm permissão para usá-los.

A narração é feita em primeira pessoa por Kambili. Pouco espontânea, raramente sabe o que dizer quando se depara com algo fora do esperado. Não tem amigos e não conversa com as meninas de sua turma (é até considerada antipática e metida pelas colegas).

A narrativa começa, porém, com uma mudança no mecanismo da família. Jaja decide não receber a comunhão no domingo de ramos. Kambili não entende a vontade do irmão e passa a imaginar os possíveis castigos que lhe serão aplicados pelo pai. O acontecimento causa um grande descontrole familiar. Nesse momento, o enredo volta para mostrar outros fatos, anteriores a esse domingo.

Transformação
Na época de Natal, a família deixa a cidade em que mora — Enegu — para passar alguns dias na cidade de origem — Abba. Lá, vemos sua complicada relação com o avô paterno, que, na época da colonização, não seguiu os catequistas católicos. Considerado por Eugene um pagão, não tem contato com a família até que pede a permissão de ver pelo menos os netos. Kambili e Jaja o visitam anualmente por quinze minutos, e não podem consumir nenhum tipo de bebida ou alimento oferecido pelo avô. A protagonista passa o curto tempo ouvindo a conversa entre o avô e o irmão, sem saber o que dizer.

Uma visita que recebem também nesse Natal é da irmã de Eugene, Ifoema, com seus três filhos. Nesse momento, é feito um convite para que Jaja e Kambili passem um tempo em Nsukka, cidade em que a tia mora e leciona.

A viagem de fato acontece e Kambili fica desconfortável no início. Não sabe lidar com os primos, sente-se constrangida e não sabe o que fazer. Também não sabe como ajudar com a casa, já que as tarefas no lar da tia são divididas entre todos. Sua prima, Amaka, com a mesma idade que ela, já usa shorts, batom, ouve música e é politicamente consciente — coisas com que Kambili não está acostumada. A família ri e conversa de maneira espontânea, o que assusta a adolescente no começo, mas aos poucos passa a encantá-la.

É também na casa da tia que a personagem conhece o padre Amadi, missionário na paróquia freqüentada pela família em Nsukka. Jovem, risonho e bem mais despojado que o padre que conhecia em sua cidade, Amadi dá atenção à Kambili, que fica até apaixonada por ele.

A principal mudança da personagem acontece quando o avô, muito doente, precisa ir para a casa de tia Ifoema. Nem Kambili nem o irmão têm permissão de ficar na mesma casa de um pagão, mas mesmo assim decidem não contar isso para o pai. A menina, porém, passa a ver o avô de uma maneira muito diferente nesse período — ele deixa de ser apenas um pagão que irá para o inferno para se tornar um humano que reza, ri, conversa e tem histórias para contar. Kambili deixa de ter uma história única de seu avô nesse momento, e passa a perceber várias coisas de uma maneira diferente.

Florescer
As informações que o leitor (e Kambili) recebe sobre a política e a sociedade da Nigéria são passadas por duas fontes diferentes: pelo Standart, jornal que o pai administra, e algumas breves conversas em casa; e pela tia, que conta de maneira mais real e próxima sobre greves e problemas de abastecimento de água, luz, gás e gasolina nas cidades, realidades muito distantes da vida dos irmãos.

A mudança no pensamento dos dois fica ainda mais perceptível na volta para casa. Ao mesmo tempo, alterações políticas e econômicas do país, que passa por um golpe político, fazem com que o jornal do pai precise se posicionar de uma maneira mais forte. Pensamentos e opiniões da família se alteram drasticamente. Kambili finalmente conseguiu escapar da repressão e violência do pai — ao mesmo tempo em que a sociedade se revolta com seu governo, incapaz de prover qualidade de vida e que censura idéias contrárias às suas.

O hibisco roxo, uma variedade rara da flor feita por uma botânica amiga de tia Ifoema, é levada para casa por Jaja e começa a florescer nesse momento, como um forte simbolismo de que algo novo entrou na vida da família tão super protegida.

Para o leitor, a visão fundamentalista e extremista de Eugene, que aplica severos castigos físicos nos filhos e na mulher, e os rituais praticados pela família são uma narrativa completa e doentia que beira o absurdo.

Hibisco Roxo é um exemplo de como uma história única estreita opiniões e sentimentos. É apenas quando deixa de ter apenas histórias únicas que Kambili passa a ser mais autônoma, completa em si mesma. O livro mostra o crescimento e amadurecimento de pessoas através do conhecimento, não necessariamente de uma educação formal. Mostra que o controle total — dos filhos ou de uma nação — é capaz de aniquilar uma identidade e um pensamento independente.

O livro também acaba com mais uma história única: o leitor percebe detalhes sociais da Nigéria muito maiores do que aqueles mostrados pela mídia. Apresenta uma sociedade que se divide exatamente por não ser capaz de ver mais que um estereótipo.

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Chimamanda Ngozi Adichie

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Nasceu na Nigéria, em 1977. Aos 19 anos, mudou-se para os EUA para estudar comunicação e escrita criativa. Já tem três livros publicados: Hibisco roxo (2003, publicado em 2011 no Brasil), Meio sol amarelo (2006, publicado no Brasil em 2008) e o livro de contos This thing around your neck, ainda não traduzido. Recebeu prêmios por seus dois romances: Commonwealth Writer’s Prize, Hurston/Wright Legacy, Orange Priza e National Book Critics’ Circle Award.

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Chimamanda Ngozi Adichie
Trad.: Julia Romeu
Companhia das Letras
328 págs.