Sujeito oculto

setembro 2014 / Sujeito oculto / Na caixa de sapatos

Texto publicado na edição #173

Na caixa de sapatos

A mãe lia a Bíblia com a ponta dos dedos. Tateava as letras em busca de alguma salvação, de um […]

> Por ROGÉRIO PEREIRA

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Ilustração: Hallina Beltrão

A mãe lia a Bíblia com a ponta dos dedos. Tateava as letras em busca de alguma salvação, de um significado. Os dedos, sempre lentos, grossos, pesados sobre o papel fino, quase transparente. Acariciava um Deus escondido nas entrelinhas. Afundada no sofá — o cárcere a que o câncer a condenara. A aspereza da pele não produzia ruído nas folhas delicadas. O silêncio pleno numa oração muda. Após muito tempo, uma página tombava com lentidão. O dedo indicador corria vagaroso, ignorante, da esquerda para a direita. Uma enxada a cavar a terra estéril. A semente atirada à cova gerava uma planta anêmica. O carinho no rosto de Deus era insuficiente para alcançar o paraíso.

Na roça, a escola era um casebre desengonçado, um ponto desenhado a quilômetros de casa. Dia após dia, a distância aumentava muitíssimo. A lavoura à espera das mãos de todas as crianças. Entre os dedos não havia espaço para o lápis e o cabo da enxada. O lápis abandonado no quarto de madeira. Durante dois anos, a mãe fez o trajeto até a sala de aula. Tempo suficiente apenas para que algumas letras grudassem na ponta dos dedos. Depois, a lida na plantação de milho e feijão. Uma caligrafia torta pela sobrevivência. Diante do papel, as letras se embaralhavam, se embaçavam, criavam um mundo de equívocos. A palavra escrita não passava de uma possibilidade — uma herança inexistente — a ser relegada aos filhos. Assim, arrancou a família da escuridão da roça e a arrastou para a cidade. Ali, a escola a poucos metros de casa. A enxada, abandonada num canto da infância.

Ao acordar, encontrei a mãe estirada, morta sobre as cobertas na manhã ensolarada. No caixão, as pontas roxas dos dedos. Tive a impressão de que se eu os furasse, a tinta escorreria palavras sobre as flores de plástico a enfeitar o corpo morto da mãe. Como se todas as palavras lidas com a ponta dos dedos estivessem aprisionadas sob as unhas mal aparadas. Quando chegasse ao paraíso, a mãe apontaria os dedos roxos em direção a Deus — prova de que sua fé trilhara da esquerda para a direita todas as poucas palavras possíveis.

Após enterrar a mãe, decidi organizar a casa. Derrubei paredes, tirei todos os móveis, doei as roupas a instituições de caridade. Ficaria com quase nada: a Bíblia, poucas fotos e um rosário. Ao vasculhar o guarda-roupa, a descoberta. Ao fundo, atrás de mantas e cobertas, uma velha caixa de sapatos, meio desbeiçada, gasta nas bordas, a tampa empenada, comida pelo tempo.

Retirei-a com cuidado e sentei-me no sofá onde a mãe passara seus últimos dias, encolhida, consumida pelo câncer a fartar-se do corpo de louva-a-deus. Ao levantar a tampa, o susto: estou ali, empilhado, dobrado em várias páginas de jornal. A minha foto estampa a entrevista ao caderno de cultura. Seguem-se reportagens, outras entrevistas e algumas crônicas. Nenhum sinal dos dentes de traças famintas. Tudo devidamente preservado.

A mãe nunca comentara nenhum texto meu, nenhuma entrevista. Nada. Talvez evitasse sujar a ponta dos dedos no papel ordinário dos jornais. Às vezes, ela assistia a alguma entrevista na tevê. Sorria de leve ao ver o filho a falar sobre um mundo desconhecido. Não dizia nada. Sempre nos amamos em silêncio.

Retiro a pilha de papel da caixa de sapatos. Guardo tudo numa gaveta. Deixo apenas a entrevista com a foto mais recente. Sobre ela, deposito a Bíblia da mãe. A caixa de sapatos agora está no meu guarda-roupa.

NOTA
A crônica Na caixa de sapatos foi publicada originalmente no Vida Breve.

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