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abril 2020 / Nossa América, nosso tempo / Museus e a história do futuro: funerais e projetos (4)

Texto publicado na edição #240

Museus e a história do futuro: funerais e projetos (4)

Você retorna a uma cena do funeral de Stálin: há algo que a inquieta

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Funeral de Joseph Stálin, em 1953.

Funeral de Joseph Stálin, em 1953.

E agora
O final está próximo, e muito adequadamente você tratará de funerais.

Dois: o de Vladimir Lenin e o de Joseph Stálin.

Você se recorda muito bem, não é mesmo?

Já na saída da exposição dedicada à construção do mito de Lenin, um discreto banco branco, não necessariamente confortável, observava sem descanso duas pequenas telas incrustadas na parede.

Apesar do cansaço, você resolve ser solidária e fazer companhia ao solitário banco. Acomodada como pode, você olha as pequenas telas. E começa decifrando as enigmáticas legendas concentrando-se nos números: 1924 e 1953.

Os anos das mortes de Lenin e de Stálin.

Claro!

As imagens que você tem diante dos olhos correspondem aos funerais dos líderes.

Não há tempo para uma pausa e o austero Museu tampouco dispõe de café; além disso, já é quase hora de seu fechamento.

Você respira fundo e se recupera: algo lhe diz que você pode ter chegado ao momento-chave da exposição.

O funeral de Lenin
Imagens em preto e branco, em aparência com uma edição nada sofisticada. Disciplinada, você respeita a cronologia e aqui principia. A primeira vez, observa somente a informação bruta; o vídeo não é longo, portanto, você pode assistir uma outra vez e ainda outras tantas.

(Fará o mesmo com o vídeo do funeral de Stálin: você é insuportável. E nem se preocupa.)

De imediato, você se surpreende com a espontaneidade do cortejo popular que acompanha o féretro de Lenin.

Espontaneidade — será essa a palavra justa? É evidente a hierarquia partidária na autêntica procissão dos membros mais destacados do partido, ladeando ostensivamente o caixão.

Contudo, uma ausência se destaca: onde se encontra Leon Trotsky?

Você conhece a resposta, mas, e você sorri, inesperados e surpresas sempre voltam a sua mente: Stálin manobrou nos bastidores para evitar a presença do comandante do Exército Vermelho, seu maior rival, no enterro de Lenin; fato que muito em breve foi usado contra Trotsky na feroz disputa pelo poder desencadeada pela morte de Lenin.

Espontaneidade?

O que você quer dizer com isso?

Você se pergunta enquanto assiste ao vídeo mais uma vez.

Eis!

Embora a hierarquia seja óbvia, assim como o desejo de ordenar as massas que pranteiam seu líder, aqui e ali, a longa fila se desorganiza, como organismo vivo que rejeita a imobilidade; aqui e ali, surgem movimentações alheias ao controle de oficiais em meio à multidão. Há uma oscilação constante entre a ordem almejada e a organização possível.

Àquela altura, não há dúvida, o Estado soviético já era autoritário, mas não se havia transformado numa máquina totalitária.

Qual a diferença precisa entre as duas formas de disciplinarização dos corpos?

Você não sabe e por isso retorna ao vídeo.

Uma ideia lhe ocorre.

Será?

Será mesmo isso?

Agora você entende por que a palavra espontaneidade surgiu do nada.

(Espontaneamente.)

A tristeza das milhares de pessoas nada tinha de protocolar. Em nada recordam as cenas coletivas de histeria coreografada dos funerais dos ditadores norte-coreanos — para ficar num único exemplo. O choro, inclusive o pranto, que dominam algumas cenas, antes evocam situações que você viveu ao se despedir de uma pessoa muito querida. Esse povo amava Lenin: eis o veredicto das imagens. É o seu afeto que confere transcendência ao vídeo e impõe à ordem autoritária um quê de improviso quase anárquico.

(O último suspiro do espírito dos sovietes antes de sua supressão pela burocracia do partido, metamorfoseada em Estado autoritário?)

O funeral de Stálin
Ao lado, como não poderia deixar de ser, o vídeo do funeral de Stálin — o autoproclamado herdeiro político de Lenin.

O contraste é tão evidente que você precisa se esforçar para não chegar muito rapidamente a conclusão alguma. Mais ou menos como escrever à mão para domar o fluxo do pensamento.

(Muito jovem, você foi jogadora de xadrez e, como parte de seu treinamento, se dedicava à resolução de problemas do tipo “Brancas jogam e são xeque-mate em dois lances”. Mal olhava as peças no tabuleiro, a solução lhe ocorria, quase sempre de imediato. Mas, desse modo, como aprender o segredo dos movimentos? A fim de melhor entender o jogo, você se especializou na arte de não resolver rapidamente problema algum.)

Você afasta os olhos da pequena tela e pensa na exposição que está prestes a deixar.

Volta ao funeral de Stálin e os contrastes lá seguem. A eles: pois, ao que tudo indica, oferecem a chave que você busca.

(Trouxeste a chave?)

A ordem que se insinuava no enterro de Lenin, agora se tornou organização estática: longas filas perfeitamente alinhadas; cidadãos perfilados como soldados; o militar como forma suprema de cidadania; o choro espontâneo substituído pelo aceno medido de mãos contidas; os políticos do Comitê Central do partido, no púlpito do Kremlin, em poses hieráticas, numa distância estudada da multidão.

Um requinte esclarece a diferença entre o autoritarismo e o totalitarismo.

Ora, com suas dimensões continentais, a União Soviética possuía em seu vasto território nada menos do que onze fusos horários diversos, estabelecidos em 1919. Nesse caso, como homenagear o líder no exato instante de seu sepultamento?

Questão menor para um estado totalitário! Como o vídeo mostra com indisfarçável orgulho, em toda a União Soviética, independentemente das diferenças de hora, todas as atividades foram interrompidas, para que todos os cidadãos, ao mesmo tempo, reverenciassem a memória de Joseph Stálin.

Em sua Autobiografia precoce, o poeta Evgeny Evtuchenko recorda a ocasião. Como milhares de jovens, ele tinha então 20 anos, esteve presente no funeral e jamais se esqueceu de uma tragédia.

Um tanque se encaminhava a seu destino, até que se deparou com uma multidão. Seu comando era o de seguir adiante; a população contudo tinha instruções para permanecer onde estava. Impasse criado, o tanque avançou contra as pessoas. Na interpretação ácida do poeta, e que vale por um ensaio de fôlego, tanto o soldado, condutor do veículo, quanto a multidão, estacionada em seu imobilismo submisso, só sabiam obedecer, pois haviam desaprendido a tomar decisões por conta própria.

Eis a diferença brutal entre um regime autoritário e um sistema totalitário; diferença captada com exatidão nos dois vídeos.

Você retorna a uma cena do funeral de Stálin: há algo que a inquieta.

E nada deveria chamar sua atenção, pois os altos dirigentes do Politburo não se diferenciam da multidão, pelo menos no tocante à contenção de gestos obedientes. Altivos, marmóreos, compungidos todos, executam à perfeição o ritual, lendo monocordicamente discursos com a solenidade exigida pela ocasião.

Todos?

Você se pergunta.

Ao rever a cena, a surpresa maior de toda a exposição.

(Calma! Na próxima coluna, concluo a série.)

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