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março 2020 / Nossa América, nosso tempo / Museus e a história do futuro: funerais e projetos (3)

Texto publicado na edição #239

Museus e a história do futuro: funerais e projetos (3)

Um pouco da intimidade na construção do mito Vladimir Lenin

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Uma visita não planejada
Na seção das exposições temporárias do Museu da Guerra Patriótica de 1812, você descobre uma retrospectiva sobre a construção do mito de Vladimir Lenin.
Como resistir?
Depois de um restaurador café, você volta ao Museu e permanece até que indecifráveis funcionários sinalizem intranquilos que literalmente as portas estão sendo fechadas.
Você guardou o catálogo e ao consultá-lo encontra o ingresso da exposição: você lá esteve num já distante 6 de abril de 2014. De igual modo, você se recorda de outra experiência proporcionada pelo retorno ao Museu: o catálogo não é bilíngue.
Isso: as letras do alfabeto cirílico se multiplicam nos breves textos explicativos que você desentende.
Você ri sozinha: nunca um museu esteve tão disponível à imaginação.

O mito e sua mensagem
Livre, você organiza sua própria visita. Você divide a exposição em dois grandes blocos: de um lado, objetos do dia a dia do homem; do outro, obras de arte e peças de imortalização do mito. Nessa oscilação entre o prosaico e o monumental, o efêmero e o perene, você se situa e quase esquece o alfabeto que lhe desafia. De fato, essa oscilação gera um ritmo que orienta seus passos.
Vejamos.
Aqui, o chapéu, o terno e a pasta de trabalho, modestos, emprestam movimento às cenas evocadas em quadros e esculturas fiéis ao estilo do realismo socialista.
Adiante, um quepe negro lado a lado com sua versão em bronze, num busto de pequenas dimensões, que bem pode ter encimado uma mesa qualquer do cotidiano soviético. E não se esqueça de um deslumbrante cartaz de propaganda, o melhor da arte gráfica russa; agora, num vermelho intenso, a ponta do quepe dialoga com a mão de Lenin anunciando o futuro — a confiança do gesto ilumina sua direção.
Uma fotografia em particular chama sua atenção. Ela é de 1920 — ao menos isso você descobre — e retrata um grupo heterogêneo que parece ter sobrevivido a uma longa reunião política.
Você se recorda de suas impressões — ou talvez finalmente você entenda.
Em primeiro lugar, somente três mulheres num grupo de aproximadamente trinta pessoas. Todas miram fixamente a câmera, que ainda permanecia um aparato alheio ao cotidiano, pelo menos não se havia banalizado ao ponto da invisibilidade. Claro, Lenin se destaca na composição, nem tanto por ocupar o primeiro plano quanto pela firmeza transmitida pela sua postura.
Você caminha entre quadros, cartazes, esculturas, moedas, objetos do dia a dia, registros audiovisuais, e subitamente você se dá conta da força icônica do mito.

(Não se visita impunemente a seção dos ícones da Galeria Tretyakov.)

A fim de confirmar sua intuição você retorna à fotografia. Das duas uma: ou a representação pictórica de Lenin é a mais completa realização da pintura figurativa ou Lenin incorporou a imagem que dele se projetava nos primórdios do culto à personalidade.

(Fernando Pessoa: o mito é o nada que é tudo.)

Portanto, se o mito desumaniza o homem ao convertê-lo em monumento, o fenômeno é favorecido pela monumentalização que o homem já havia internalizado ao ser alçado ao poder.
Será assim mesmo?, você se indaga, hesitante, até descobrir uma ilustração chinesa, datada de 1924 — um obituário, você supõe.

(Mas o bovarismo audiovisual não será um traço fundamental de uma cultura como a brasileira? Machado de Assis tudo viu no conto Singular ocorrência.)

Algo chama sua atenção, e não é a inscrição bilíngue em russo e em mandarim; afinal, se trata de uma óbvia peça propagandística. Nesse caso, deve alcançar o maior número possível de leitores ou de contempladores.
O que realmente faz você se fixar nessa ilustração? Sim! Aí está: nessa imagem, Vladimir Lenin evoca um mandarim, com o estereotipado bigode e cavanhaque, e talvez você esteja empolgada, mas inclusive os olhos estão ligeiramente puxados, dando ao russo um ar oriental. O corpo, mais volumoso do que o habitual, reforça o vínculo com a figura clichê do tradicional sábio chinês.
O mito consome o homem e assim ele pode ser apresentado de formas as mais diversas sem nunca perder a unidade, pois, no mito, a unidade implica a descontextualização estrutural da imagem-origem. Radicalizado o processo, a lembrança do homem Lenin torna-se inconveniente para o êxito do mito Vladimir Lenin. Linguisticamente, o processo se completa na metonimização da personalidade num atributo-índice: timoneiro da revolução; guia genial dos povos; em dicção tupiniquim, pai dos pobres.
Ao lado dessa ilustração, um painel, pintado em 1928, emulando a técnica narrativa dos biombos chineses, mostra o líder revolucionário na tradicional pose “avante” orientando anônimos e atentos aprendizes do amanhã.
Um detalhe fascina: Lenin, agora, é reduzido (ou ampliado ao máximo?) a uma silhueta, mero perfil, apropriadamente colorido de vermelho, e sem traço algum nitidamente definido, a não ser o contorno da figura. Nas desventuras de Peter Schlemilhl, o homem se desencontra de sua sombra. O que não ocorreu a Adelbert von Chamisso foi a oportunidade oposta: a sombra que, autônoma, dispensa o homem. Então, o homem torna-se substituível, numa involuntária ars combinatória da arte política.

É com esse que eu vou?
Eis que um inesperado, porém falso, Magritte se oferece à contemplação numa série de cachimbos, cuja veracidade histórica deve ser atestada por quadros de Joseph Stálin, nos quais os “mesmos” objetos podem ser vistos — e sobretudo comparados.

(Você se recorda do impossível: em Verona, por que não visitar a “casa” de Julieta? Seu amigo italiano, professor em Cambridge, não acredita: uma coisa é comentar o The Jerry Springer Show e assistir, em Londres, o musical a ele dedicado. Porém, se submeter à disneylandização do passado inglês da Itália? Há limites que não se devem menosprezar impunemente. Sem constrangimento algum, contudo, você paga o ingresso e rapidamente se delicia com a prova irrefutável da verossimilhança do local: trata-se, como duvidá-lo?, da residência histórica da Julieta; ora, você vê o mobiliário e o vestuário da malograda heroína. As evidências devidamente confirmadas pelo esclarecimento decisivo: os objetos, todos, pertenceram à filmagem do Romeu e Julieta, de Franco Zeffirelli. Ecco!)

Pouco a pouco o tema da exposição se amplia, a fim de incorporar, quase como um contrabando discreto, o mito-mor do período soviético: Joseph Stálin.
Um imponente uniforme militar ombreia com uma jaqueta de couro e um gorro à prova do inverno mais rigoroso — aquele que ajudou a derrotar os exércitos napoleônico e hitlerista. O uniforme domina a cena em dois quadros de 1949. Num deles, Stálin se debruça sobre um mapa, segura um lápis, pensativo fuma seu cachimbo, e, em tese, concebe a vitoriosa estratégia soviética contra o avanço nazista. No outro, Stálin, sempre fumando seu cachimbo e em reflexão profunda, folheia um livro e, visionário, descortina o devir.

(E pôde fazê-lo mesmo após sua morte, em 1953. Isto é, pôde fazê-lo até 1956.)

No final da exposição, a surpresa maior: imagens dos funerais de Vladimir Lenin e Joseph Stálin; dois filmes de curta duração, que, a seu modo, obrigam você a reconsiderar o conjunto da exposição.
Claro: na próxima coluna (finalmente!) analiso os dois filmes, isto é, os dois funerais.

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