Quase-diário

junho 2015 / Quase-diário / Muro da vergonha e outras vergonhas

Texto publicado na edição #181

Muro da vergonha e outras vergonhas

31.05.1982 Fui visitar o “muro da vergonha”, o “Charlie point” — conexão com o lado comunista. O muro de concreto […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

31.05.1982

Fui visitar o “muro da vergonha”, o “Charlie point” — conexão com o lado comunista. O muro de concreto ali em frente. Do lado de cá, algumas guaritas com policiais americanos, alemães, ingleses. Ao lado, uma carroça vendendo sanduíches e refrigerantes para quem vai passar aí alguns minutos ou horas. Há um ponto de observação montado num tablado para que a gente possa subir a escada e ver mais. Defronte, a uns 50 metros, uma cabine de concreto, os policiais do lado comunista nos olham de binóculos. Há outra torre como essa a uns 100 metros, de onde outros soldados comunistas também nos observam, que, de binóculos ou câmeras também os observamos.

No muro desenhos, frases, insultos, grafites diversos. Fico por ali bundeando. Entro num prédio ao lado em que há uma exposição de tudo que conseguiram agrupar sobre o drama da fuga: pessoas encolhidas em caixa/tanques de gasolina adaptado; fotos de pessoas cavando túneis (um desses heróis foi contratado pela MGM para fazer um roteiro do filme de sua fuga; pessoas que fugiram de balão; que construíram paredes de concreto dentro da porta de seus carros; outros que trombaram com o caminhão no muro para derrubá-lo, enfim, toda sorte de truques.

Pergunto como fazer para atravessar para o outro lado, mas prefiro esperar uma excursão em grupo, programada. Compro umas camisas para as meninas e volto.

À tarde percorro vários quilômetros ao pé do muro, pois me perdi para achar a Staad Blindeck onde começaria o festival Horizonte. Caminho por ali, no sol quase tropical deste verão. Tiro o paletó. Passam ciclistas. Pelo menos do lado de cá. Paro num circo onde dois atletas me indicam o caminho. Essa cena precisa de um fundo musical qualquer. E chego enfim à Biblioteca.

Fala Octavio Paz. Aliás, lê poemas, depois de ter lido uns textos em prosa descritivos (me parece) de paisagens. Os poemas são curtos, os melhores. Os maiores, mais surrealistas, mais palavrosos, chatos mesmo. Não tem jeito de eu mudar de opinião: sua poesia parece da geração 45 no Brasil. Claro que uma grandeza ou delicadeza maior. É metafísica, mas no sentido imediato, proposital, quase a transposição para a prosa de alguns conceitos que ele leu.

Quando responde às perguntas, melhora. Anoto a primeira frase marcante: “o bom poeta é também um bom jornalista”. Em algum lugar já falei que o poeta é o jornalista da alma humana, Dante, etc. Meu trabalho demonstra isso antes, durante e depois do JB.

Outra citação que me fica: que T. S. Eliot disse que a boa poesia guarda sempre o ritmo, a melodia, a conversa. E dizia isso a respeito desse efeito da poesia moderna que introduz o prosaico no poético. Curiosamente sua poesia não faz isso. Nossos modernistas usam esse efeito. Ele faz, em grande parte, esse tipo de poesia “pura”, “leve”, “metafísica”.

Curioso: ele leu um longo poema sobre o internato onde esteve, dizendo que era autobiográfico e que esperava que os leitores aí encontrassem parte de sua biografia adolescente. Não gostei. Escuro. Barroco. Não sei qual a identidade se pode reencontrar aí. Pelo menos, a minha, não. Penso nos poemas biográficos que faço e que dizem coisas muito mais concretas, uma biografia muito mais social. A teoria dele, nesse caso, não joga com o texto.

Duas coisas boas ele ainda diz… que me tocam: temos que “rir da seriedade dos que governam” — isso aplicando ele também aos que escrevem romances e textos muito sérios como se a verdade estivesse com eles.

Finalmente, essa sua autoclassificação, que me é útil, sobretudo nesse ódio recente que veio do cristianismo depois que escrevi o livro do desejo/psicanálise. Ele disse: “sou um pós-cristão”. Isso confirma em mim certas ideias, intenções, impulsos.

06.06.1982

Aconteceu o que eu previa. Considero um desastre a mesa redonda que lá em Berlim reuniu escritores brasileiros. Lamúrias típicas daqueles anos 70. Naquele tempo isso era aceitável. E era um público interno, no Brasil. Era emocional, um grave suspiro contra a ditadura.

Mas agora esse discurso foi incorreto, enquanto dados sobre o Brasil; inapropriado para o público estrangeiro. E mais: confirmou o desnível entre eles e os latino-americanos que hostilizam. Deveriam estudar mais antes de mostrar tanta incultura e primitivismo.

Alguns dos pontos que me irritaram mais:

1. Darcy dizendo que o país hoje é mais pobre que há 20 anos e que no ano 2000 será mais pobre que hoje. (Até Conceição Tavares reconhece que a ditadura modernizou muita coisa no Brasil e acumulou riquezas. O que espanta é que alguns levaram textos escritos, poderiam usar pelo menos estatísticas óbvias que a Veja, IstoÉ, JB publicam).

2. Confusão sobre o parque editorial brasileiro. Desinformação. Contradição no próprio discurso.

3. Burrice diante da universidade, que em grande parte inventou esses escritores. Darcy levianamente esculhambando os brasilianistas americanos.

4. Um desconhecimento do papel da poesia nisso tudo.

5. O Merquior apareceu no final e não pôde ouvir a esculhambação indireta que davam nele, talvez o “teórico”, o “crítico”, que queriam acertar. Fui só para o hotel, jantei como Merquior tentando recuperar alguns dos problemas mal colocados por aquele grupo. No que diz respeito a coisas que ele escreve: explicitei minha discordância sobre os artigos dele sobre psicanálise e minha perplexidade diante da debilidade dos que discutiram publicamente com ele sobre isso.

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