Dom Casmurro

janeiro 2019 / Dom Casmurro / Muriel Rukeyser

Texto publicado na edição #225

Muriel Rukeyser

Seis poemas de Muriel Rukeyser

> Por André Caramuru Aubert

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Muriel Rukeyser (Nova York, 1913-1980) foi poeta e militante por direitos civis, com frequência misturando as duas atividades, em um daqueles raros casos em que a poesia não perde com a militância. Até porque ela jamais “barateou” seus poemas: os versos de Rukeyser costumam ser densos, complexos e, com frequência, até mesmo intraduzíveis.

The sixth night: waking

That first green night of their dreaming, asleep beneath the Tree,
God said, “Let meanings move,” and there was poetry.
Na sexta noite: despertando

Naquela primeira noite verde em que sonhavam, adormecidos sob a Árvore,
Deus falou, “Que os significados se mexam,” e se fez a poesia.

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Life of the poet

Words? Yes, made of air,
and in the air dissolved.
Give me your gift, to lose my self in words,
let me become the air on living lips,
one breath that goes wandering without barriers,
scent of a moment in the air diffused.

Even so light in itself is lost.
A vida do poeta

Palavras? Sim, feitas de ar,
e no ar dissolvidas.
Dê a mim seu dom, para que eu me perca em palavras,
deixe que eu me torne ar em lábios vivos,
um sopro a perambular sem barreiras,
aroma de um instante espalhado no ar.

E ainda assim a luz em si mesma se perdeu.

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Driveway

Speeding from the city, feeling day
grimmer and more opaque,
a thousand times more Death than night
here on the pebbled roads, bled of all light and kind,
hastening darkness to the impatient mind,

we shook off nights our fever watched the street,
besieged by laughter from the outer room,
heard the pang, pang of bells bury our hope
for private warmth or time or bed or house
free from the failure public in that place.

Here was to be moment of proof, if any
conspiracy of night and speed and river
could lift us whole from danger, and make real
the veiny tree, the gleaming parallel
of railroad tracks and water, using our trespass well

to heal all breaches, prove our hope’s disease
curable by annealing, bandage night,
blank out the city’s bricked-up doors, the glare
of the night-watchman’s ray. No Trespassing,
Don’t Walk Here, Stay At Your Window, Keep On Looking.

Reaching the full-grown field, danger slowed down,
darkness enlarged around the blind, parked car.
No need to look; the brilliant fatal skim
of light swung over the acre, striking the night-proof dead,
the Caretaker’s flashlight sending his shadow up ahead.
Saindo da estrada

Acelerando para fora da cidade, sentindo o dia
mais cinzento e escuro,
mil vezes mais Morte do que noite
aqui nas estradas de terra, sangrando toda luz e delicadeza,
apressando para a mente ansiosa a escuridão,

sacudíamos a noite, nossa febre observava a rua,
envolvidos pelo riso da sala da frente,
ouvimos o ding dong dos sinos a sepultar nossa esperança
de termos aconchego, ou tempo, cama, ou casa
livre da falência pública naquele espaço.

Aqui estava o momento de saber se alguma
conspiração da noite e agilidade e rio
poderia nos erguer totalmente para fora do perigo, tornando real
a árvore rugosa, o reluzente paralelo
dos trilhos do trem e a água, usando nosso poço transgressor

para curar todas as feridas, provar que a fé na cura de nossas
moléstias pela brasa, noite de curativos,
apagar as portas emparedadas da cidade, o brilho
da lanterna do vigia noturno, Não Entre,
Proibido Andar Aqui, Fique Na Sua Janela, Preste Atenção.

Chegando ao campo exuberante, o perigo reduz a velocidade,
a escuridão cresceu em volta do carro cego e estacionado.
Não é preciso olhar; a fina, brilhante e fatal lâmina
de luz dançou sobre o hectare, atingindo os mortos da noite,
a lanterna do zelador enviando suas sombras para a frente.

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Haying before storm

The sky is unmistakable. Not lurid, not low, not black.
Illuminated and bruise-color, limitless, to the noon
Full of its floods to come. Under it, field, wheels, and mountain,
The valley scattered with friends, gathering in
Live-colored harvest, filling their arms; not seeming to hope
Not seeming to dread, doing.
I stand where I can see
Holding a small pitcher, coming in toward
The doers of the day.
These images are all
Themselves emerging: they face their moment: love or go down,
A blade of the strong hay stands like light before me.
The sky is a torment on our eyes, the sky
Will not wait for this golden, it will not wait for the form.
There is hardly a moment to stand before the storm.
There is hardly time to lay hand to the great earth.
Or time to tell again what power shines past storm.
Ceifando antes da tempestade

O céu, inconfundível. Nem lúgubre, nem baixo, nem escuro.
Iluminado e de cores feridas, sem limites, rumo ao meio-dia
Repleto de enchentes a caminho. Sob ele, campo, feno enrolado e montanha,
O vale, com amigos por toda parte, se encontrando na
Colorida ceifa do feno, enchendo os braços; não parecendo crer
Não parecendo temer, fazendo.
Eu fico aqui onde consigo ver
Segurando uma pequena jarra, indo em direção
Aos que hoje trabalham.
Estas imagens estão, todas
Elas, emergindo: encaram o momento: amar ou cair,
Uma poderosa lâmina do feno diante de mim, como luz.
O céu, um tormento para nossos olhos, o céu
Não vai esperar por este ouro, não vai esperar pela ordenação.
Não resta quase tempo algum antes que caia a tempestade.
Não resta quase tempo algum para deitar as mãos na grande terra.
Ou algum tempo para dizer, de novo, que forças brilharão depois da tempestade.

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Rite

My father groaned; my mother wept.
Among the mountains of the west
A deer lifted her golden throat.

They tore the pieces of the kill
While two dark sisters laughed and sang. —
The hidden lions blare until

The hunters charge and burn them all.
And in the black apartment halls
Of every city in the land

A father groans; a mother weeps;
A girl to puberty has come;
They shriek this, this is the crime

The gathering of the powers in.
At this first sign of her next life
America is stricken dumb.

The sharpening of your rocky knife!
The first blood of a woman shed!
The sacred word: Stand Up Your Dead.

Mothers go weep; let fathers groan,
The flag of infinity is shown.
Now you will never be alone.
Rito

Meu pai lamentou; minha mãe chorou.
Entre as montanhas do Oeste
Um cervo ergueu sua garganta dourada.

Eles rasgam em pedaços o que mataram
Enquanto duas sombrias irmãs riam e cantavam. —
Os leões escondidos trombeteiam até

Que os caçadores atirem e destruam-nos todos.
E nas salas dos sombrios apartamentos
De cada cidade do país

Um pai lamenta; uma mãe chora;
Uma menina, à puberdade, chegou;
Eles guincham isso, esse é o crime

O encontro dos poderes.
Sob este primeiro sinal de sua próxima vida
A América é acometida pela estupidez.

O fio cortante de sua faca de pedra!
O primeiro sangue vertido por uma mulher!
A palavra sagrada: Erga Seus Mortos.

Mães irão chorar; deixe que os pais lamentem,
Foi exibida a bandeira do infinito.
E você jamais ficará só.

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Born in December
For Nancy Marshall

You are like me born at the end of the year;
When in our city day closes blueness comes
We see a beginning in the ritual end.

Never mind: I know it is never what it seems,
That ending: for we are born, we are born there,
There is an entrance we may always find.

They reckon by the wheel of the year. Our birth’s before.
From the dark birthday to the young year’s first stay
We are the ones who wait and look for ways:

Ways of beginning, ways to be born, ways for
Solvings, turnings, wakings; we are always
A little younger than they think we are.
Nascida em dezembro
Para Nancy Marshall

Você como eu é nascida no fim do ano;
Quando na nossa cidade o dia se encerra chega a melancolia
Nós vemos no fim do ritual um começo.

Não tem importância: eu sei que nunca é o que parece,
Aquele final: porque nascemos, nascemos aqui,
Há uma porta de entrada que sempre podemos encontrar.

Eles calculam pela roda do ano. Nosso nascimento, antes.
Do negro aniversário até a chegada do novo ano
Nós somos as que esperam e procuram caminhos:

Caminhos para começar, caminhos para nascer, caminhos para
Resolver, para mudar, despertar; nós somos, sempre,
Um pouco mais jovens do que acham que somos.

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