Inquérito

julho 2014 / Inquérito / Movido pela dúvida

Texto publicado na edição #172

Movido pela dúvida

Ainda criança, José Roberto Torero já estava decidido: seria escritor e astronauta. Acabou somente com a primeira opção, a qual […]

> Por RASCUNHO

Ainda criança, José Roberto Torero já estava decidido: seria escritor e astronauta. Acabou somente com a primeira opção, a qual se dedicou com devoção. Nascido em Santos (SP), em 1963, formou-se em Letras e Jornalismo pela Universidade de São Paulo e iniciou, sem concluir, cursos de pós-graduação em Cinema e Roteiro. Autor de mais de trinta livros, ganhou notoriedade em 1995, ano em que faturou o Prêmio Jabuti nas categorias Romance e Livro do Ano, com O Chalaça. Já em 2012, com o livro de contos Papis et Circenses, ficou com o primeiro Prêmio Paraná de Literatura. Começou sua carreira de cronista no Jornal da Tarde; posteriormente, escreveu textos sobre futebol para a Placar e a Folha de S. Paulo, onde ficou por mais de uma década. No livro Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso, reuniu cerca de trinta crônicas publicadas entre esses veículos. Ao lado de Marcus Aurelius Pimenta, publicou vários livros para crianças, entre eles Os 33 porquinhos e Branca de Neve e as sete versões. Versátil, também possui uma longa carreira como roteirista e cineasta, sendo coautor, entre outros, do roteiro do filme Pequeno dicionário amoroso e diretor do premiado curta-metragem Amor!.

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José Roberto Torero. Foto: Maria do Carmo/Divulgação

Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Lembro que lá pelos meus oito anos fizeram uma pesquisa na escola perguntando o que cada um queria ser quando crescesse. Respondi “escritor e astronauta”.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Uma mania é ler o texto em voz alta para ver se há rimas indesejáveis, se há excessos de “quês”, etc.

Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?
Bulas de remédio. Uma literatura vital.

• Se pudesse recomendar um livro à presidente Dilma, qual seria?
Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Começando às sete e meia da manhã, depois de um pão na chapa e um pingado.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Filas. Podem ser de banco, no correio ou numa repartição pública. Ônibus e metrô também são ótimos.

O que considera um dia de trabalho produtivo?
O dia em que escrevo, ou reviso, dez mil toques (com espaços).

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
A reescrita. As últimas versões de um livro, quando a gente corta muito, é que são divertidas. Você vê o texto se acertando, encontrando o ritmo. Imagino que deve ser como o fim de uma escultura, quando você faz os detalhes que deixam a estátua realmente bela.

Qual o maior inimigo de um escritor?
Fico em dúvida entre a preguiça e a soberba. Mas as duas têm o mesmo resultado: o escritor, por preguiça ou por achar que é muito bom, não aperfeiçoa o seu texto, que assim não fica tão bom quanto poderia.

O que mais lhe incomoda no meio literário?
Escritores melhores em marketing do que na escrita.

Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Laurence Sterne. Já se presta alguma atenção nele, mas o número de teses e mesmo de leitores comuns poderia ser bem maior.

Um livro imprescindível e um descartável.
A Bíblia, se lida como literatura. A Bíblia, se lida como manifestação divina.

Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Falta de tesoura e borracha para limar os excessos.

Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Nenhum.

Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Tive a ideia de fazer o Papis et Circenses olhando a capa de uma caderneta.

Quando a inspiração não vem…
Há que ir atrás dela.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Machado de Assis.

O que é um bom leitor?
Aquele que sujeito que entra numa livraria, abre um monte de livros, lê um pouco de cada, e aí escolhe qual vai levar para casa. Ou seja, é um leitor que escolhe os livros por si mesmo, sem se deixar levar por modas.

O que te dá medo?
A morte, é claro.

O que te faz feliz?
Ver alguém comprando meu livro numa livraria. Pena que seja uma felicidade rara.

Qual dúvida ou certeza guia seu trabalho?
Só dúvidas. Que são: será que isto é bom? Este é o jeito certo de contar esta história ou deveria fazer justamente o contrário? Alguém vai ler essa joça?

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Fazer algo que eu gostaria de ler se não fosse o autor, mas apenas um leitor daquele texto.

A literatura tem alguma obrigação?
Não.

Qual o limite da ficção?
Nenhum. Essa é a graça.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Ao Matias, meu filho de um ano. Ele pensa que sou seu escravo. E eu tenho certeza.

• O que você espera da eternidade?
O mesmo que ela espera de mim. Nada.

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