Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Morno drama

Texto publicado na edição #120

Morno drama

A poesia de Carlito Azevedo não é um divisor de águas em nossa história literária, mas seu nome faz indubitavelmente uma clara […]

> Por MARCOS PASCHE

A poesia de Carlito Azevedo não é um divisor de águas em nossa história literária, mas seu nome faz indubitavelmente uma clara separação de opiniões. Os que apreciam a linhagem poética que hoje é a mais prezada entre críticos e poetas — a qual concebe a poesia como um exercício metadiscursivo — reverenciam-no como o maior poeta brasileiro surgido nas últimas duas décadas; do outro lado, encontram-se aqueles que também vêem Carlito como poeta representativo, mas do que a poesia nacional tem de menos interessante, que é, precisamente, o vício da experimentação abstratizante, pondo a linguagem num patamar maior que o da própria poesia.

No entanto, ninguém poderá negar haver em Carlito Azevedo um poeta altamente cônscio e realizador de suas diretrizes artísticas, hábil manejador do verso e dotado de apreciável verve, o que poemas como A uma passante pós-baudelaireana — “Mas eu te dedico quando passas/ me fazendo fremir// (entre tantos circunstantes, raptores fugidios)// este tiroteio de silêncios/ esta salva de arrepios —, de Collapsus linguae (1991), ratificam com felicidade.

Mas a capacidade técnica de que se serve Carlito (aspecto preponderante em seu ofício) não garante à sua obra a força e a profundidade alardeadas por seus admiradores e estudiosos, fato verificável em Monodrama. Recebido com bastante entusiasmo pela imprensa — sobretudo porque o autor estava há quase dez anos sem publicar —, o livro não justifica os predicados que lhe foram atribuídos, como a percepção aguda do desmoronamento do mundo e de suas causas e/ou conseqüências mais expressivas.

Na abertura, o poema Emblemas parece buscar a captação dos estilhaços da realidade contemporânea, como a turbalização fragmentária das sociedades urbanas — “a multidão grita/ em frente ao Banco/ aparece um malabar/ aparece um pastor/ imagens da pura/ desconexão” —, a fazer com que se diluam identidades sob os desígnios da existência mercadológica: “Os rostos/ se sucedem/ nos monitores/ dentro da/ sala de segurança/ do Banco/ como projeção/ de slides”. Mas o feito é apenas aparente, pois a exagerada fragmentação discursiva contribui para que o texto perca em densidade, tornando-se defasado em sua expressão: “Entre tantos/ manifestantes/ é ela quem arranca/ a primeira/ ereção do dia/ do segurança/ de óculos espelhados:// uma pequena/ vibração/ em um dia/ cheio de vibrações”. É certo que se efetua um exercício isomórfico (o texto espatifado para tratar da espatifação do tempo), mas não é menos certo que se instaura um paradoxo: se o poeta manifesta a oposição e o descumprimento do estatuto da técnica, do racionalismo pragmático e da brutalidade, sendo quem ousa olhar a flor em meio ao asfalto ou quem ouve as estrelas entre a hipérbole dos prédios, não deveria ele alertar sobre os perigos da absorção das nuvens ou da fumaça da época que lhe é coetânea? No caso de Monodrama, como acontece na obra dos autores irmanados esteticamente a Carlito Azevedo, tal confusão, ao invés de aproximar, termina por ocasionar um grande afastamento entre a arte e a carne viva do dia-a-dia.

O livro também apresenta vários textos em prosa. Mas a despeito da diferença formal, mantém-se neles outra peça basilar da escrita do poeta carioca: a formulação de imagens inusitadas (refratárias a qualquer referencialidade), ao gosto dos epígonos dos surrealistas, mas sem o significado necessariamente cultivado pelos pares de Dalí e Magritte. O texto Um confeiteiro da cidade x… é forte exemplo dessa característica, ao qual se soma, em verso, Dois estrangeiros: “E quando na curva seguinte/ Saltou da sombra fria da montanha/ Uma névoa quase mágica/ Abriu o vidro da janela e gritou-lhe:// ‘E não admito mitigação entendeu bem senhor dos exércitos’”.

Monodrama é encerrado com um texto homônimo, o único a justificar o título da obra, sendo o mais digno de todo o conjunto. H. baseia-se na morte da mãe do poeta (chamada Hilda), e alcança o ocultíssimo nervo tenso e intenso do drama, sem descambar para a pieguice nem pecar pela falta de vigor: “Antes de ser fechado o caixão, dei-lhe ainda um beijo na testa e sussurrei-lhe: ‘Este é o último, viu? Muito obrigado pela paciência. Te amo’. E beijei a lona”. Ao aproximar-se de forma mais humana e menos teórica da vida (e sem prescindir do apuro formal), Carlito escreveu passagens significativas, afastando das páginas a tepidez típica do livro, abrindo, por isso, espaço ao leitor.

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Carlito Azevedo_Monodrama_120

Carlito Azevedo
7Letras
156 págs.