A literatura na poltrona

outubro 2018 / A literatura na poltrona / Mishima no Brasil

Texto publicado na edição #222

Mishima no Brasil

Mishima se interessou — na verdade, se espantou — mais ainda com a língua portuguesa

> Por JOSÉ CASTELLO

Ilustração: Aline Daka.

Ilustração: Aline Daka.

Durante vinte e cinco anos, de 1945 a 1970, os escritores japoneses Yasunari Kawabata (1899-1972) e Yukio Mishima (1925-1970) trocaram uma delicada e vibrante correspondência, que marcou a vida de ambos. Vinte e cinco anos de idade os separava. Um mesmo destino os esperava: Mishima se suicidou por seppuku em 1970, aos 45 anos; Kawabata também cometeu suicídio dois anos depois, aos 73. Mas os laços que os ligam vão muito além desse desfecho trágico. Kawabata foi um mestre para Mishima, que lhe devolveu parte importante de sua juventude e energia perdidas.

Leio agora a Correspondência entre os dois, editada pela Austral, selo da argentina Emece Editores, em tradução de Liliana Ponce, em 2003. Detenho-me, em particular, na carta que Mishima escreveu para Kawabata em 13 de fevereiro de 1953, durante sua única visita ao Brasil. Mishima escreve desde Lins, no centro-oeste de São Paulo, onde um amigo, Tarama Toshihiko, tinha seus negócios agrícolas. Assombra-se, desde logo, com a adaptação do amigo ao Brasil. Diz: “Toshihiko conseguiu um domínio perfeito da língua brasileira, e por isso não há nada de assombroso que tenha trocado seu título de nobreza pelo título de senhor de terras”.

Mishima vinha de uma viagem de trabalho a Nova York, o que não impediu, mas até o estimulou a se encantar pelo Brasil. “Desde a minha chegada à América do Sul estou completamente seduzido pelos brasileiros”, escreve. “Jamais vi gente tão pouco complicada, inclusive os imigrantes são abertos e agradáveis — talvez porque a maioria deles tem fortunas que se calculam em milhões — e não se podem comparar com os japoneses servis instalados no Havaí ou na costa oeste dos Estados Unidos.” A imagem de um Brasil suave — é inevitável pensar — contrasta violentamente com o Brasil áspero e adoecido de ódio de hoje.

Mas Mishima se interessou — na verdade, se espantou — mais ainda com a língua portuguesa. “O português, que tem muitas vogais, se pronuncia quase como o japonês e até falado por nossos compatriotas soa bastante natural.” Ele compara, em particular, a fluência que os japoneses imigrados têm com o português com suas eternas dificuldades para dominar o inglês. Compara: “Quando os emigrantes japoneses do Havaí, ou seus filhos, dizem, por exemplo: ‘Let’s go’, ou ‘Hey, hey, come on, go ahead’, esses gritos de anglo-saxões corpulentos, que não lhes caem bem de modo algum, são de uma feiúra assustadora”. Nada disso se passa com o idioma português que, para Mishima, se adapta muito melhor aos japoneses.

Tenta trabalhar um pouco no campo, decidido que está a “viver o Brasil”, mas não suporta a rotina pesada. “Estou tão fatigado que passo a maior parte do tempo sem fazer nada”, confessa. Enquanto se deixa submergir na atmosfera tropical, admira-se com as formigas cortadoras, com os colibris e com os tatus, “embora a estes ainda não tenha visto”. Mas ele não se satisfaz só com a zona de migrantes do interior paulista. Planeja voltar em poucos dias à capital para, em companhia de um tal Nakamishi, viajar para o Mato Grosso, até a fronteira com a Bolívia. “Os japoneses que chegam até lá, me dizem, se contam com os dedos das mãos.” Depois, planeja ainda, voltará ao sudeste para passar, como um bom turista, o carnaval no Rio de Janeiro.

Planeja também esticar a viagem até Buenos Aires, mas não sabe se conseguirá um visto de entrada. Se não conseguir, regressará direto a Nova York e de lá a Tóquio. Como sempre faz, termina sua carta desdobrando-se em cuidados com Kawabata, a quem trata não só como um mestre, mas como um pai: “Nessa época em que o frio é muito rigoroso no Japão, lhe rogo que cuide de sua saúde”.

Quatro anos depois, em nova viagem a Nova York, onde se encontrou com Norman Mailer, e como tinha grandes dificuldades com o inglês, em vez de ir ao teatro optou por assistir a um musical. Parece mais uma vez deslumbrado, agora já não com a natureza, mas com a cultura. “Nas cenas de dança, por exemplo, as meninas são todas encantadoras e o vestuário, magnífico; em comparação, o ‘novo teatro japonês’ tem um aspecto tão lamentável que dá pena.” Supera em parte, também, os chavões a respeito da má qualidade da cozinha americana. “É falso dizer que a comida nos Estados Unidos é má.” Não é assim, ele rebate, “contanto que se coma em lugares caros, ou onde se serve o cardápio caseiro”.

Contudo, não consegue esconder sua decepção com a visita aos Estados Unidos. “Em geral, vivo em um ritmo bem tranqüilo. Não se passa nada verdadeiramente surpreendente.” Ainda assim, ele destaca: “O essencial é que as relações não são tão complicadas quanto no Japão”. Volta a se preocupar com Kawabata, agora pelo motivo contrário: “Em esta estação de calores enervantes, você deve estar muito ocupado com seu trabalho no Pen Clube. Cuide muito bem de sua saúde”.

Aproxima-se a data da volta ao Japão. Muito bem tratado por seus anfitriões, os Strauss, Mishima admite que se sentirá muito só ao regressar a Tóquio. Ainda não está casado e leva uma vida bastante reclusa. Apesar disso, lamenta o fracasso de sua investida literária em território americano. “Nada surpreende aos habitantes dessa cidade, nem mesmo um hipopótamo branco estendido ao lado de uma calçada.”

Na última carta de Mishima a Kawabata, datada de 6 de julho de 1970, que encerra o livro, depois de receber preocupantes notícias a respeito da saúde do amigo, Mishima se queixa: “Como é habitual, ao perder meu tempo gastando-o mal, correndo para lá e para cá, não reponho esse desgaste de energia e de todas as horas passadas em atividades puramente físicas”. Correr, agitar, viajar, não lhe basta, ao contrário, só o consome. É o terceiro ano em que pratica o karatê e acaba de receber a faixa preta. Ainda assim se lamenta: “Mas, quando alguém se torna forte, não se encontra realmente o adversário na medida, assim que me sinto frustrado”. Sabe que a força só não resolve. Precisa de oponentes suaves e amorosos, como Kawabata, para suportar a existência.

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