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setembro 2018 / Nossa América, nosso tempo / Minimanual do guerrilheiro urbano: leituras e prismas (II)

Texto publicado na edição #221

Minimanual do guerrilheiro urbano: leituras e prismas (II)

O "Minimanual" é composto por um conjunto de notas que nem sempre parecem plenamente desenvolvidas

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Observações preliminares
Seguimos na leitura (cuidadosa) do Minimanual do guerrilheiro urbano?

Basta passar os olhos no sumário que esbocei na última coluna para assinalar dois ou três pontos que estruturam o texto.

O Minimanual é composto por um conjunto de notas que nem sempre parecem plenamente desenvolvidas, como se estivéssemos lendo o diário coletivo de um grupo revolucionário sistematizando suas ações. De fato, ao escrever seu programa, Marighella propôs reflexões sobre o modus operandi da Ação Libertadora Nacional (ALN), a organização revolucionária por ele criada, e que deveria fornecer um novo modelo de conduta para os demais grupos de guerrilha. O caráter fragmentário do texto tem um contraponto decisivo na própria figura do guerrilheiro urbano, o fio condutor que permite alinhavar a diversidade das anotações.

De igual modo, o datiloscrito não possui unidade na forma dos subtítulos. Ora apenas a primeira palavra começa com letra maiúscula, ora todas as palavras assim principiam, e, em poucos casos, todas as letras são maiúsculas. Não há critério que explique essas diferenças, que devem ser atribuídas às condições de produção do datiloscrito e sobretudo à dificuldade para sua circulação e para a confecção de novas cópias datiloscritas e mesmo mimeografadas.

O Minimanual foi concluído em junho de 1969. Nesse instante, segundo Mário Magalhães, ou seja, “em meados de setembro, a ALN vivia o seu apogeu”.[1] Sua redação se impôs como tarefa urgente, num esforço de teorização da prática revolucionária, que desde 1968 somente crescia em número e alcance; muito embora antes do final de 1969 Carlos Marighella tenha sido assassinado — no fundo, uma crônica da morte anunciada pelo próprio texto. O “apogeu” da organização estimulou a difusão do Minimanual, apesar das adversidades políticas e da violência da repressão: “na origem, a ALN mimeografou cem cópias”. Muito em breve, o Centro de Informações do Exército estava a par de seu conteúdo: “já em outubro de 1969, uma delas aquecia os arquivos do CIE”.

Hora de discutir precisamente o conteúdo e a estrutura do Minimanual do guerrilheiro urbano.

Inimigo por antonomásia
Logo no princípio do Minimanual, Marighella define o perfil do principal agente das ações revolucionárias na cidade:

O guerrilheiro urbano é um homem armado que luta contra a ditadura militar, empregando para isso meios não convencionais. Revolucionário político e ardoroso patriota, é um lutador pela libertação de seu país, um amigo do povo e da liberdade.[2]

A primeira parte da definição pouco surpreende, pois o caráter não convencional da ação é o denominador comum dos mais diversos grupos de guerrilha — e, como veremos nas próximas colunas, Marighella detalha vários aspectos estratégicos e táticos da guerrilha adaptada às circunstâncias inibidoras do meio urbano.

Já a referência à “libertação de seu país”, na segunda parte da definição, parece fora de lugar, afinal o Brasil não se encontrava militarmente ocupado. Porém, a insistência no tópico esclarece a estratégia discursiva de Marighella, qual seja, estabelecer uma equivalência entre a guerrilha brasileira e os movimentos de libertação nacional em caso de invasão do território por potências estrangeiras — na época, exemplificados pelo caso recente da Guerra da Argélia (1954-1962) e do conflito do Vietnã, e recorde-se que as tropas norte-americanas haviam começado a atuar com mais força a partir de 1965.

Esse ponto é de grande importância para avaliar o alcance mas também o limite do Minimanual.

O fecho do penúltimo parágrafo do texto remata a aposta ao reiterar a “luta contra o poder militar e o imperialismo norte-americano”. Remate porque a menção — sempre crítica, claro está — aos Estados Unidos é um dos eixos do Minimanual.

Vejamos.

Na segunda página do texto, o alvo é explicitado: “os grandes capitalistas e os imperialistas estrangeiros, particularmente os norte-americanos”.

Ainda na mesma página, defende-se a continuidade “do ataque e do saque devastador aos bens e à propriedade dos norte-americanos, dos empresários estrangeiros e da grande burguesia brasileira”.

Aqui, a ordem dos fatores importa e muito.

Ao tratar da complexa logística do guerrilheiro urbano, muitas vezes isolado em meio ao caos urbano, Marighella recorda uma e outra vez o norte da ação, isto é, favorecer por todos os meios possíveis a “guerra não convencional contra a ditadura militar e a dominação norte-americana no país”.

No país — cuidadosa escolha vocabular, reforçada na seção dedicada aos objetivos das ações da guerrilha. O primeiro é cristalino: “abalar o triângulo de sustentação do sistema estatal brasileiro e da dominação norte americana no Brasil”.

No Brasil — Marighella investe pesadamente na tentativa de caracterizar a inegável influência estadunidense como uma autêntica ocupação virtualmente territorial. Eis o que permite abordar o tema delicado do sequestro político com invejável segurança: “O sequestro de norte-americanos residentes no Brasil ou em visita ao país constitui uma forma de protesto contra a penetração do imperialismo dos Estados Unidos em nossa pátria”.

No tópico ainda mais difícil do justiçamento político, o tom somente aumenta em contundência: “O justiçamento é a morte de um espião norte-americano, de um agente da ditadura, de um policial torturador, de uma personalidade fascista do governo envolvida em crimes e perseguição de patriotas, de um dedo-duro, delator, informante da polícia ou provocador policial”. A lista, embora eclética, concede protagonismo ao inimigo por antonomásia: o norte-americano.

Guerra de libertação?
A descolonização da Argélia e o conflito do Vietnã demonstraram a força de um povo unido numa guerra de libertação, mesmo enfrentando potências mundiais muito superiores militarmente.

No Vietnã, a atuação do General Vo Nguyen Giap assumiu proporções lendárias. Em 1954, na Batalha de Dien Bien Phu, impôs a derrota decisiva ao imperialismo francês que se recusava a aceitar a independência proclamada em 1945 por Ho Chi Minh. A fim de assegurar a vitória em condições muito desfavoráveis, Giap envolveu a população numa incansável frente guerrilheira. Estratégia que voltou a empregar na guerra com os Estados Unidos, cuja superioridade militar e econômica tornava improvável, se não impossível prever o triunfo do Vietnã do Norte em 1975. Muito admirado pelos participantes da guerrilha no Brasil, o General vietnamita foi tema do documentário de Silvio Tendler, Giap, Memórias centenárias da resistência (2011).

Em 1966, apenas três anos antes da escrita do Minimanual do guerrilheiro urbano, Gillo Pontecorvo lançou o clássico A batalha de Argel, retratando a luta de libertação pelo fim da dominação colonial francesa. O filme marcou época ao denunciar que a tortura contra os argelinos foi uma política de estado do governo francês; aliás, a película abre com uma cena de tortura. Mais uma vez, o engajamento popular permitiu o triunfo da tática de guerrilha.

Essa era a aposta de Carlos Marighella, justificando sua insistência em caracterizar a guerrilha urbana como parte de um movimento mais amplo de libertação nacional. Desse modo, a participação popular seria o fiel da balança e o Minimanual foi escrito para incliná-la no sentido da revolução.

No próximo mês, discutirei as mil faces do guerrilheiro urbano na descrição de Marighella.

(Encontro marcado?)

[1] Mário Magalhães. Marighella. O guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 510. Nas próximas citações, mencionarei apenas o número da página.

[2] Carlos Marighella. Minimanual do guerrilheiro urbano, p. 2.

 

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