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agosto 2018 / Nossa América, nosso tempo / Minimanual do guerrilheiro urbano: leituras e prismas (I)

Texto publicado na edição #220

Minimanual do guerrilheiro urbano: leituras e prismas (I)

O ensaio de Marighella teve ampla repercussão na década de 1970

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Primeiro passo
Começo neste mês uma série de artigos sobre o Minimanual do guerrilheiro urbano, de Carlos Marighella.
Uma série que promete ser longa.
Justifico.

O ensaio de Marighella teve ampla repercussão na década de 1970, época em que foi relevante para grupos de ação armada em todo o mundo. Traduzido para diversos idiomas e difundido tanto por editoras quanto clandestinamente, o manifesto da técnica revolucionária, voltado para a cidade e não para o campo, empolgou corações e mentes.

Mário Magalhães tudo disse em sua biografia de Marighella, cujo subtítulo, O guerrilheiro que incendiou o mundo, encontra-se intrinsecamente associado à fortuna do Minimanual:

No campo, o inspirador fora o Che; nas cidades, era Marighella. Sua obra atravessou fronteiras e arrebatou insurgentes, muitos atuando em democracias, e não no contexto extraordinário, uma ditadura, em que Marighella deflagrou a luta armada. Entre eles a Organização para a Libertação da Palestina, as Brigadas Vermelhas, na Itália, o IRA, na Irlanda, o Baader-Meinhof, na Alemanha, e o Exército Simbionês de Libertação, nos Estados Unidos. Caducava o título de janeiro de 1969 da revista chilena Punto Final, “Marighella, o profeta armado do Brasil”. Com o Minimanual, o apóstolo da guerrilha urbana incendiava o planeta.

Ou não.
Nos últimos anos tornou-se comum a produção de vídeos no qual trechos do Minimanual, cuidadosamente pinçados, e, claro, devidamente descontextualizados, são alvo de comentários raivosos, cujos autores não se constrangem em defender o retorno à ditadura militar.

Sem comentários.
Não: pelo contrário, é preciso denunciar a hermenêutica mediúnica dos que celebram ou rechaçam o Minimanual do guerrilheiro urbano sem efetivamente tê-lo estudado.
Hora de ler com atenção o programa revolucionário de Carlos Marighella.
Começo da forma a mais modesta possível, esboçando uma descrição do texto.

(Mais ou menos como ensina as regras do método da arqueologia: mapear o terreno é sempre o alfa de toda operação.)

O Minimanual
 Inúmeras versões do Minimanual do guerrilheiro urbano circulam no território livre, leve e solto da internet. Devo portanto esclarecer a que utilizo — e agradeço a Mário Magalhães pelo acesso ao texto com o qual trabalho.

Trata-se de cópia datiloscrita apreendida pelo Dops em 2 de fevereiro de 1970, segundo notação apensa na folha de rosto. O texto é assim apresentado:

MINI-MANUAL DO GUERRILHEIRO URBANO
Carlos Marighella

O pequeno livro contém 51 páginas, sem sumário. Organizo, então, o índice do Minimanual para dar uma visão panorâmica de seu conteúdo:

À guisa de introdução – 1
O que é o guerrilheiro urbano – 2
Qualidades pessoais do guerrilheiro urbano – 3
Como vive e como se mantém o guerrilheiro urbano – 4
O preparo técnico do guerrilheiro urbano – 7
As armas do guerrilheiro urbano – 8
O tiro-a razão de ser do guerrilheiro urbano – 10
O grupo de fogo – 11
A logística do guerrilheiro urbano – 13
A técnica do guerrilheiro urbano – 14
Características da técnica do guerrilheiro urbano – 15
As vantagens iniciais do guerrilheiro urbano – 16
A surpresa – 16
O conhecimento do terreno – 17
Mobilidade e Rapidez – 18
A Informação – 20
Decisão – 22
Objetivos das ações do guerrilheiro urbano – 23
Sobre os tipos e a natureza das modalidades de ação do guerrilheiro urbano – 25
Assaltos – 26
O assalto a banco-modalidade popular de assalto – 28
INCURSOÕES E INVASÕES – 29
OCUPAÇÕES – 29
EMBOSCADAS – 30
TÁTICAS DE RUA – 30
Greves e Interrupções de Trabalho – 32
Deserções e Desvios de Armas, Capturas e Expropriações de Armas, Munições e Explosivos – 33
O Resgate de Presos – 35
Justiçamento – 36
Sequestro – 36
A Sabotagem – 36
Terrorismo – 38
A Propaganda Armada – 39
A Guerra de Nervos – 40
O Método de Conduzir a ação – 41
Algumas Observações Sobre o Método – 42
Resgate dos feridos – 43
A Segurança do Guerrilheiro – 44
Os sete pecados do guerrilheiro urbano – 46
O Apoio Popular – 47
Guerrilha Urbana – Escola de Seleção do Guerrilheiro – 49

Para não deixar margem a dúvida, após a última frase do Minimanual anuncia-se:

FIM

Observações preliminares
Basta passar os olhos no sumário para assinalar dois ou três pontos, que analisarei com maior cuidado nos próximos artigos.

O Minimanual é composto por um conjunto de notas que nem sempre parecem plenamente desenvolvidas, como se estivéssemos lendo o diário coletivo de um grupo revolucionário sistematizando suas ações. De fato, em mais de um caso, ao escrever seu programa, Marighella propôs reflexões sobre o modus operandi da Ação Libertadora Nacional (ALN), a organização revolucionária por ele criada, e que deveria fornecer um novo modelo de conduta para os demais grupos de guerrilha. Por isso o caráter fragmentário do texto tem um contraponto decisivo na própria figura do guerrilheiro urbano, o fio condutor que permite alinhavar a diversidade das anotações.

De igual modo, o datiloscrito não possui unidade na forma dos subtítulos. Ora apenas a primeira palavra começa com letra maiúscula, ora todas as palavras assim principiam, e, em poucos casos, todas as letras são maiúsculas. Não há critério que explique essas diferenças, que devem ser atribuídas às condições de produção do datiloscrito e sobretudo à dificuldade para sua circulação e para a confecção de novas cópias datiloscritas e mesmo mimeografadas.

O Minimanual foi concluído em junho de 1969. Nesse instante, segundo Mário Magalhães, ou seja, “em meados de setembro, a ALN vivia o seu apogeu”. Sua redação se impôs como tarefa urgente, num esforço de teorização da prática revolucionária, que desde 1968 somente crescia em número e alcance; muito embora antes do final de 1969 Carlos Marighella tenha sido assassinado — e, como veremos, numa espécie de crônica da morte anunciada pelo próprio texto. Daí o esforço para a difusão do Minimanual, apesar das adversidades políticas e da violência da repressão: “na origem, a ALN mimeografou cem cópias”. Muito em breve, o Centro de Informações do Exército estava a par de seu conteúdo, pois, “já em outubro de 1969, uma delas aquecia os arquivos do CIE”.

A partir da próxima coluna discutirei precisamente o conteúdo e a estrutura do Minimanual do guerrilheiro urbano.

(Encontro marcado?)

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