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março 2019 / Nossa América, nosso tempo / Minimanual do guerrilheiro urbano: leituras e prismas (8)

Texto publicado na edição #227

Minimanual do guerrilheiro urbano: leituras e prismas (8)

O analfabeto ideológico só apreende do texto — ou a ele atribui — o que seja espelho de suas convicções políticas

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Carlos Marighella, autor de Minimanual do Guerrilheiro Urbano

Carlos Marighella, autor de Minimanual do Guerrilheiro Urbano

Atenção!
(Um passo atrás se impõe nesta longa série — e não pretendo encerrá-la tão cedo. No último mês, radicais de direita e de extrema-direita iniciaram uma campanha difamatória contra a figura histórica de Carlos Marighella. O instrumento favorito dessa difamação é a “leitura” do “Manual” do guerrilheiro urbano. Ora, nem o título do livro acertam. Hora, pois, de reagir.)

Radicais (nada livres) na pista
No próximo mês de abril, Wagner Moura lançará Marighella, filme que marca sua estreia como diretor. A cinebiografia do líder político de esquerda enfatizará os cinco anos finais de sua vida. O período privilegiado, ou seja, de 1964, ano do golpe militar, a 1969, data de sua morte, retrata um dos momentos mais polarizados da história republicana, possivelmente comparável à crise aberta pela abdicação de Pedro I em 1831. A sucessão de rebeliões provinciais, e mesmo independentistas, levou ao Golpe da Maioridade, que, em 1840, conduziu ao trono um Pedro II adolescente. Em ambos os instantes, movimentos armados contestaram a legitimidade do poder constituído e nos dois casos as forças de repressão lograram conter o impulso revolucionário.

No Brasil contemporâneo, a pólis pós-política transformou o conflito, sem mediação possível, em autêntica razão de ser. Junho de 2013 foi o anúncio definitivo de uma rejeição ecumênica, ainda que difusa, do sistema: palavra-valise com ares de caixa de Pandora. O processo de impeachment conduziu o país a uma polarização ainda mais acirrada, cuja radicalidade invadiu literalmente todas as esferas do cotidiano: dos debates públicos às disputas familiares. Nunca a matéria política foi tão determinante do comportamento das pessoas, mas isso ocorreu simultaneamente à negação completa da política institucional. A política é o centro das ações, embora não se possa mais identificar centro algum de legitimação sólida dos poderes executivo, legislativo e judiciário.

O paradoxo desse excesso de atividade ao lado de completa ausência de legitimidade propiciou a emergência tsunâmica das redes sociais como agente político, com um protagonismo inédito e perfeitamente verificável nas eleições presidenciais de 2018. O modus operandi bélico do universo digital, homólogo ao binarismo de seu suporte, não pode senão agravar os extremismos que inviabilizam o diálogo nas atuais circunstâncias da vida mental brasileira.

Analfabetismo ideológico
Nesse contexto agônico, proponho o conceito de analfabetismo ideológico, a fim de compreender o beco sem saída no qual nos metemos.

O analfabeto funcional, cuja onipresença é um fenômeno contagioso e não apenas no Brasil, sabe decodificar primariamente um texto, porém não consegue interpretar seu sentido.

Por sua vez, o analfabeto ideológico não tem dificuldade para interpretar textos complexos. Pelo contrário, pode contar com razoável habilidade retórica e até boa formação intelectual. No entanto, o analfabeto ideológico só apreende do texto — ou a ele atribui — o que seja espelho de suas convicções políticas. Um trapezista das ideias, duplo twist carpado algum é capaz de intimidar o tipo.

(Calma! Você pensa que me perdi num labirinto. Mas eu sei muito bem aonde vou e, embora você possa até duvidar, pelo menos intuo a direção.)

O analfabeto ideológico percorre todo o espectro político, já que ele é daltônico. Aqui, como em tantos outros casos, os extremos se tocam. O analfabeto ideológico se assusta com o espectro que ronda o mundo: o marxismo cultural. Mas, no outro polo, ele também pode vislumbrar a mão do FBI no judiciário tupiniquim.

Voltemos ao filme de Wagner Moura. O nível intelectualmente grosseiro de vídeos postados nas redes sociais e inclusive de programas radiofônicos é uma desagradável surpresa mesmo numa atmosfera carregada como a que constrange a todos no Brasil.

Uma ou duas ilustrações bastam.

Só um caso?

De acordo!

Programa Morning Show, transmitido pela Rádio Jovem Pan.[1] Edgard Piccoli faz a chamada para a apresentação de Marighella no Festival de Cinema de Berlim. Na sequência, Paula Carvalho enumera dados relevantes acerca da vida de Carlos Marighella e sobre o filme. Isto é, segundo os preceitos básicos do jornalismo, apresenta-se ao ouvinte um conjunto de informações para que o ouvinte possa contextualizar a produção.

Eis que Edgard Piccoli passa a palavra a Caio Copolla. Começa o show de obscurantismo com sorriso polido — o estilo do comentarista.

(Espere um pouco! Não digo isso porque eu seja de esquerda e Caio Copolla de direita. Por favor… Continue lendo e muito provavelmente você me dará razão.)

Logo nos primeiros segundos, o comentarista presta um esclarecimento perturbador: “Eu vou assistir o (sic) filme. Eu não sou contra obra de ficção, Edgard”. Ficamos aliviados, pois o opinionista assistirá ao filme. Uma inquietação permanece: alguém poderia ser a priori contra uma obra de ficção?

Não é tudo — na verdade, ainda é muito pouco.

Escutemos o comentarista, que decidiu brindar o ouvinte com sutis análises psicanalíticas: “Existem forças poderosas que movem a humanidade. Uma delas é a culpa”. Não se trata de confissão inesperada ou de bem-vinda autocrítica. Imagina! Caio Copolla arrisca o salto mortal: “Wagner Moura, existencialmente, vive em estado de culpa permanente”. Entenda-se o profético diagnóstico: o êxito popular do personagem Capitão Nascimento pavimentou o terreno para o Capitão Jair Messias Bolsonaro.

Isso mesmo que você leu! Se fosse artista de circo, o comentarista seria um exímio trapezista — e dispensaria todas as redes de proteção. Logo a seguir, num giro inesperado, Copolla muda de área com rara elegância e equilíbrio, ingressando no complexo terreno da ética: “Da mesma forma que a esquerda odeia a verdade, a direita odeia a mentira”.

Nesse mundo confortavelmente dividido entre lobo mau e meninos bons, o opinionista ignora limites possíveis para a erudição fastfood. Ademais, como Caio é generoso, ele edificou a transmissão com pílulas de sabedoria:

É por isso que essa obra de Wagner Moura (…) é iconólatra. A gente falou de iconoclastia; tem também a iconolatria, né? Latros é… é justamente isso… É você adorar o quê? Adorar imagens, símbolos.

Capisce? Seria maldade sublinhar as hesitações, que, a contrapelo, preparam o tropeço maior.

Mas, o que é isso: latros?

“Pelo amor dos meus filhinhos!”, diria o filólogo Silvio Luiz. Não quero ser indelicado, mas como reprimir o bom humor diante de uma etimologia tão criativa?

Vamos lá: afinal, o jovem de direita odeia a mentira.

(Às vezes, porém, um velhinho de esquerda também se interessa pela verdade.)

Iconolatria é uma palavra derivada do grego, formada pela reunião do substantivo eikon (imagem) com o sufixo latria — que vem do substantivo latreia (adoração). A etimologia não é latina, como a palavra inventada por Copolla sugere: latros.

Inventada, eu disse.

Em latim, não existe o sufixo latros; aliás, nem mesmo a palavra! O que de mais próximo se encontra na língua de Cícero é o substantivo latro (-onis), isto é, ladrão…

Pois é.

No fundo, toda mentira etimológica pretende lançar mão de um argumento de autoridade para enobrecer um discurso caricaturalmente ideológico. Ato falho, e pelo sequestro do intelecto, latros iguala analfabeto ideológico e assalto à democracia.

Há mais: o comentarista se refere ao “Manual” e não ao Minimanual do guerrilheiro urbano, texto que evidentemente não leu, embora tenha sobre ele opiniões severas — expressas sempre com honestidade, claro está.

Paremos por aqui: a série de adjetivos-muleta que informa uma erudição-capenga destaca a tarefa urgente no calor da hora: denunciar o analfabetismo ideológico é a condição sine qua non para resgatar a possibilidade de diálogo.

Na próxima coluna, retorno à leitura do Minimanual do guerrilheiro urbano.

Conto com você?

De verdade?

[1] Eis o link para assistir o trecho que comentarei: https://www.youtube.com/watch?v=VwHPZE9H55I. Antes de continuar a leitura, assista ao vídeo com atenção: são apenas 11 minutos.

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