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fevereiro 2019 / Nossa América, nosso tempo / Minimanual do guerrilheiro urbano: leituras e prismas (7)

Texto publicado na edição #226

Minimanual do guerrilheiro urbano: leituras e prismas (7)

A originalidade da concepção de organização revolucionária de Carlos Marighella

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Carlos Marighella, autor de Minimanual do Guerrilheiro Urbano

Carlos Marighella, autor de Minimanual do Guerrilheiro Urbano

Mudança de rumo
Na última coluna anunciei uma comparação entre o Minimanual do guerrilheiro urbano e o ensaio La guerra de guerrillas. O contraponto entre Carlos Marighella e Ernesto Che Guevara pretende esclarecer a originalidade da concepção de organização revolucionária do brasileiro. Isto é, à tradicional e rígida hierarquia verticalizada da “guerra de guerrillas”, Marighella inovou com uma forma organizativa propriamente horizontal e fundamentalmente sem qualquer rigidez hierárquica. O cotejo com a reflexão de Guevara ilumina a singularidade do pensamento de Marighella — e nos próximos meses retornarei ao tema.

No entanto — e para minha surpresa — fui corretamente advertido por leitores sobre a necessidade de aprofundar meu entendimento da noção de rede no Minimanual, pois nessa noção, creio, encontra-se a potência do texto. Por isso, antes de proceder ao paralelo com outros textos clássicos do pensamento revolucionário, devo dar um passo atrás e explicitar o conteúdo e as consequências do conceito de rede no âmbito da Aliança Libertadora Nacional (ALN), a organização que deu corpo às ideias de seu fundador.

Aceito a crítica e mudo o rumo da prosa.

Um olhar contraintuitivo?

Logo na abertura do Minimanual, Marighella ofereceu uma interpretação sobre as causas da emergência da guerrilha urbana:

A crise crônica da estrutura que caracteriza a situação brasileira e lhe provoca a instabilidade política determinou o aparecimento da guerra revolucionária no país.[1]

O diagnóstico de Marighella surpreende.

Vejamos.

Como vimos, o Minimanual foi concluído em junho de 1969. Na época, o país era presidido pelo general Artur da Costa e Silva. Sob seu governo em 13 de dezembro de 1968 decretou-se o Ato Institucional número 5, o tristemente célebre AI-5, que levou ao fechamento do Congresso e à institucionalização da repressão, vale dizer, da tortura como política de estado. Em 31 de agosto de 1969 o general sofreu um acidente vascular cerebral e em seu lugar deveria ter assumido a Presidência o civil Pedro Aleixo. No entanto, o poder foi compartilhado entre as três forças militares e de 31 de agosto a 30 de outubro de 1969 uma Junta Militar governou o Brasil até a posse do general Emílio Garrastazu Médici, cujo mandato, de 30 de outubro de 1969 a 15 de março de 1974, marcou o período de maior repressão política durante a Ditadura Militar. Ao mesmo tempo, de 1967 a 1974, especialmente no momento do I Plano de Desenvolvimento Nacional (PND), ocorreu o “milagre econômico” — e se hoje identificamos os limites desse modelo econômico, no final da década de 1960 o progresso parecia palpável.

Você me segue, tenho certeza.

Esse brevíssimo apanhado histórico, e não apesar mas precisamente em função de sua ligeireza, nos obriga a questionar a afirmação de Marighella.

Mais uma vez: “A crise crônica da estrutura que caracteriza a situação brasileira (…)”.

Ora, a avaliação de Marighella era contraintuitiva, pois, muito pelo contrário, em 1969 o aparato militar que sustentava o regime encontrava-se perfeitamente estruturado. Aliás, o que se comprova pelo êxito da repressão aos diversos grupos de luta armada, virtualmente eliminados durante a presidência do general Médici.

Nesse caso, é preciso também ler o Minimanual contraintuitivamente.

Vamos?        

Redes e sistema nervoso
A seção Como vive e se mantém o guerrilheiro urbano fornece uma pista. Eis a passagem decisiva:

E ao expropriar os principais inimigos do povo, a revolução brasileira procura golpeá-los nos seus centros vitais. Daí porque ataca de preferência e de maneira sistemática a rede bancária. Quer dizer, desfecha seus golpes mais profundos no sistema nervoso do capitalismo. (p. 6, grifos meus)

Palavra puxa palavra.

Ver com olhos livres: centros vitais, rede, sistema nervoso: o vocabulário é cirúrgico e permite reconsiderar a avaliação de Marighella sobre a circunstância brasileira no final da década de 1960. Isto é, não haveria necessariamente um paradoxo na identificação de uma crise crônica num estado fortemente militarizado, pois, pelo avesso, a militarização bem poderia ser um recurso para controlar ou mascarar precisamente a crise crônica. Contudo, é preciso reconhecer que os seus efeitos demoraram anos para se manifestar. De fato, a alta do preço do barril do petróleo, decretado pela OPEP em 1973, conduziu ao colapso do modelo econômico adotado durante a Ditadura Militar, revelando seus limites e deixando clara sua orientação: a concentração de renda e o aumento da desigualdade social. Marighella contudo não teve tempo para testemunhar esse colapso.

Voltemos à questão da rede.

Na seção Greves e interrupções de trabalho, ainda que indiretamente, Marighella aprofundou o conceito:

Uma greve tem sucesso quando é organizada através da ação de pequenos grupos, tomando-se o cuidado de prepará-la em sigilo e na maior clandestinidade (p. 32, grifos meus).

A rede imaginada por Carlos Marighella dependia tanto do anonimato de seus membros quanto do caráter fragmentário de sua organização. Ou seja, tal rede implica uma radical horizontalidade, cuja radicalidade desautoriza o estabelecimento de hierarquias e simplesmente elimina a submissão a centros de comando. Nesse sentido, o anonimato é um aspecto nem sempre valorizado nas interpretações do Minimanual.

Na seção Assaltos o fator surpresa, que já discutimos em colunas anteriores, se revela um expediente que auxilia o anonimato:

E o ideal é que todos os assaltos fossem à noite, quando as condições para a surpresa são mais favoráveis e a escuridão facilita a fuga e o não reconhecimento do pessoal que opera (p. 25, grifos meus).

Sem dúvida, como também assinalamos nos últimos meses, o cuidado com o não reconhecimento e o favorecimento da ação de pequenos grupos respondiam a uma questão elementar de segurança. Afinal, dada a brutal assimetria de forças entre os aparelhos do estado e o núcleo guerrilheiro, era imperioso o esforço para manter a organização revolucionária, por assim dizer, “invisível”.

(Mas não se esqueça que precisamente essa invisibilidade nunca foi alcançada pelos grupos de luta armada, aí incluída a ALN.)

Desrespeitar esse princípio colocaria em risco nada menos do que o projeto da revolução brasileira. Na seção Os sete pecados do guerrilheiro urbano, Marighella chegou ao ponto de considerar o descuido com o anonimato um autêntico pecado. O trecho é eloquente:

(…) O segundo pecado do guerrilheiro urbano é vangloriar-se das ações que realiza e alardeá-las aos quatro ventos.

O terceiro pecado do guerrilheiro urbano é envaidecer-se.

O guerrilheiro urbano que padece desse pecado pretende resolver os problemas da revolução desencadeando ações na cidade, mas sem se preocupar com o lançamento e a sobrevivência da guerrilha na área rural.

(…)

O quarto pecado do guerrilheiro urbano é exagerar suas forças e querer fazer coisas para as quais não tem condições e não está à altura por não possuir uma infraestrutura adequada (p. 46, grifos meus.)

 

Todos esses tropeços podem ser traduzidos numa palavra: ostentação (das próprias forças), ou seja, o oposto da “invisibilidade”. E nem precisamos recordar os demais equívocos, pois o quarto pecado elencado por Marighella continha nada menos do que o anúncio de sua morte, ocorrida somente cinco meses após a escrita do Minimanual.

Pois, estrutura sem centro, a rede imaginada por Marighella seria invisível ou deixaria de existir.

Estrutura sem centro? É isso mesmo? — você se pergunta.

Sim: é exatamente o que proporei na próxima coluna.

[1] Carlos Marighella. Minimanual do guerrilheiro urbano, p. 2, grifo meu. Nas próximas ocorrências, mencionarei apenas o número da página citada. Alterei ligeiramente a pontuação do original para efeito de clareza.

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