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novembro 2018 / Nossa América, nosso tempo / Minimanual do guerrilheiro urbano: leituras e prismas (4)

Texto publicado na edição #223

Minimanual do guerrilheiro urbano: leituras e prismas (4)

Carlos Marighella redigiu o Minimanual tendo em conta as experiências da guerrilha urbana

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

1, 2, 3…
Hora de propor uma breve recapitulação do que discutimos nos três primeiros textos desta série.

Principiei modestamente pela descrição do Minimanual do guerrilheiro urbano, esboçando um “sumário” que não consta do original, assim como assinalando seu projeto de oferecer uma espécie de poética da guerrilha urbana.

Explico o paralelo (não se assombre!): se Aristóteles compôs sua Poética através da sistematização do teatro grego a partir de textos concretos e de suas encenações, Carlos Marighella redigiu o Minimanual tendo em conta as experiências da guerrilha urbana, especialmente as ações armadas ocorridas no Brasil das décadas de 1960 e 1970, ainda mais particularmente as estratégias adotadas pela Ação Libertadora Nacional (ALN). Marighella, aliás, reconheceu o caráter coletivo das reflexões por ele coligidas:

(…) as ideias aqui expostas e sistematizadas refletem a experiência pessoal de um grupo de homens que lutam à mão armada no Brasil, e entre os quais tenho a honra de estar incluído.[1]

No segundo momento, iniciei o estudo propriamente dito do texto. Privilegiei um aspecto que esclarecia a retórica de Marighella, qual seja, sua insistência no emprego do vocabulário típico das guerras de libertação colonial, tão frequentes após a Segunda Guerra Mundial. Desse modo, projetava-se para a circunstância brasileira a possibilidade da adesão das massas à luta guerrilheira, assim como as guerras de libertação colonial foram bem-sucedidas ao contarem com o respaldo popular.

Finalmente, na última coluna, desdobrei a consequência lógica da aposta de Carlos Marighella, pois, se o vocabulário da libertação nacional empolgasse o debate político, então o número potencial de guerrilheiros urbanos somente aumentaria. No plano textual, o projeto conheceu uma tradução peculiar na proliferação de tipos de guerrilheiro — o urbano, claro está. Mas também o franco-atirador; e ainda o guerrilheiro urbano manifestante. E por que não o guerrilheiro urbano intelectual, artista, médico, estudante de medicina, enfermeiro, farmacêutico “ou simplesmente iniciado em serviços de urgência” (49). A contraditória inespecificidade desse último tipo traz à tona o dilema que Carlos Marighella precisou enfrentar.

E muito rapidamente.

Afinal, não se esqueça da vertigem do tempo: o Minimanual do guerrilheiro urbano foi concluído em junho de 1969.

Pois bem: em outubro desse ano, o Centro de Informação do Exército já tinha obtido uma cópia do documento.

No dia 4 de novembro de 1969, Carlos Marighella foi assassinado numa emboscada na Alameda Casa Branca em São Paulo.

Não havia tempo algum a perder.

Autonomia ou autossuficiência?
O tema é difícil.

Eis uma enunciação brutal: se lido com intensidade, o Minimanual, pelo menos em alguma medida, contém uma imagem do colapso da própria forma de organização militar adotada pela Aliança Libertadora Nacional.

Voltemos à abertura do texto. Sua primeira seção, O que é o guerrilheiro urbano, insinua a contradição que nunca foi resolvida:

O guerrilheiro urbano não teme desmantelar e destruir o atual sistema econômico, político e social brasileiro, pois o seu objetivo é ajudar a guerrilha rural (2, grifo meu).

Como vimos, a fim de se opor radicalmente ao modelo centralizador e paralisante do partido comunista tradicional, disfarçado sob o eufemismo de “centralismo democrático”, Marighella concedeu ao militante soberania na tomada de decisões: “Não pode haver, entretanto, grupo de fogo que não tenha iniciativa própria” (12).

Autonomia, portanto, define o horizonte tático do guerrilheiro urbano.

Mas o que dizer de sua autossuficiência?

Ora, a guerrilha urbana é apresentada, uma e outra vez, como um prólogo ao autêntico objetivo, já que a frente de batalha decisiva se encontrava em cenário diverso: a guerrilha rural. Atividade arriscada — arriscadíssima — embora ancilar; à guerrilha urbana se atribuiu uma função preparatória, de algum modo, um instante hierarquicamente subordinado a um plano mais relevante e abrangente.

Vejamos outras passagens do Minimanual.

Na seção que detalha as Características e a técnica do guerrilheiro urbano, o seguinte tópico é cristalino:

  1. c) é uma técnica visando ao desenvolvimento de uma guerrilha urbana cuja função consiste em desgastar, desmoralizar e distrair as forças inimigas, permitindo a eclosão e a sobrevivência da guerrilha rural, esta sim a desempenhar o papel decisivo na guerra revolucionária (15).

A redação é tão direta que dispensa comentários. Porém, não nos desobriga de levantar uma objeção: nesse caso, por que não principiar a ação por meio de um processo lento de imersão no meio rural, a fim de preparar, passo a passo, e sem pressa alguma, o amadurecimento das condições revolucionárias?

Não se diga que tal projeto é apenas ingenuamente utópico. Foi assim mesmo que o futuro Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN) iniciou sua atuação junto às comunidades indígenas de um dos lugares mais pobres e desfavorecidos do México, o estado de Chiapas, ao sul do país. Em 1º de janeiro de 1994 eclodiu a rebelião zapatista, que ainda hoje segue firme em sua resistência em zonas autônomas, estruturadas nos “caracoles zapatistas” — forma de organização social que não pretende disputar o poder executivo federal, mas que almeja antes revolucionar as esferas do cotidiano, confiando na ressonância de suas práticas para muito além das fronteiras rígidas das zonas autônomas.

A guerrilha brasileira, contudo, adotou caminho oposto. A seção Objetivos das ações do guerrilheiro urbano justifica a estratégia num outro tópico igualmente revelador:

  1. e) aumentar gradativamente os distúrbios da guerrilha urbana numa sequência interminável de ações imprevisíveis, e de tal modo que as tropas do governo não possam deixar a área urbana para perseguir as guerrilhas do interior, sem correr o risco de desguarnecer as cidades e ver a rebelião crescer tanto no litoral como no fundo do país! (24)

O ponto de exclamação expressa muito mais um desejo e muito menos uma análise realista de conjuntura. Na prática, e apesar do discurso relativo à centralidade da guerrilha rural, talvez seja possível sugerir uma motivação dupla para a preeminência e no fundo a quase exclusividade da guerrilha urbana no cenário brasileiro.
(Escrevi: talvez: isto é: trata-se de uma hipótese — não custa lembrar nos tempos que correm.)

De um lado, uma reação subjetiva à falta de resposta ao golpe de 1964. A frustação causada pela inoperância do celebrado “dispositivo militar”, que em tese asseguraria a sustentação do governo João Goulart, favoreceu a decisão política pelo caminho da luta armada tomada pelos diversos grupos de guerrilha no Brasil. Recorde-se o sintomático título escolhido por Carlos Marighella para o batismo de fogo de sua organização: Ação Libertadora Nacional.

(Ação: palavra-imã nesse contexto.)

De outro lado, uma condição objetiva, qual seja, a eclosão da guerrilha rural exigia tanto recursos generosos quanto recrutamento sistemático. A cidade oferecia diretamente meios de acelerar o acúmulo dos dois fatores. Nas últimas páginas do Minimanual a esperança se mantinha ativa:

São essas circunstâncias desastrosas para a ditadura que permitem aos revolucionários desencadear a guerrilha rural, em meio ao incremento incontrolável da rebelião urbana (49).

Autônomo, o guerrilheiro urbano não era, contudo, autossuficiente — sua ação projetava um horizonte que sempre lhe escapou. Ele deveria ser ao mesmo tempo ubíquo e invisível; onipresente mas sem deixar rastros.

Como operar a improvável alquimia?

Você adivinhou: na próxima coluna arriscarei uma possibilidade.

[1] Carlos Marighella. Minimanual do guerrilheiro urbano, p. 1. Nas próximas ocorrências, mencionarei apenas o número da página citada.

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