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maio 2019 / Nossa América, nosso tempo / Minimanual do guerrilheiro urbano: leituras e prismas (10)

Texto publicado na edição #229

Minimanual do guerrilheiro urbano: leituras e prismas (10)

Rapidamente os órgãos de repressão consideraram a ALN o mais poderoso grupo de guerrilha no Brasil

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Carlos Marighella, autor de Minimanual do Guerrilheiro Urbano

Carlos Marighella, autor de Minimanual do Guerrilheiro Urbano

Tudo ou nada?
A longa série dedicada à leitura do Minimanual do guerrilheiro urbano entra na reta final. Hora, portanto, de retomar a força e o limite da estratégia adotada pela Ação Libertadora Nacional (ALN), tal como delineada no próprio Minimanual.

(Em tempos de analfabetismo ideológico, vale esclarecer: tenho proposto uma análise textual do Minimanual, a fim de identificar sua singularidade e, ao mesmo tempo, surpreender o impasse da dinâmica da ALN. Não se trata, pois, de um estudo histórico do período da ditadura militar.)

Recordemos a avaliação interna feita no documento de maio de 1969, O papel da ação revolucionária na organização (e assinale-se que esse título era antes de tudo uma declaração de princípio):

Em 1968 não éramos ainda uma organização nacional. Éramos apenas um grupo revolucionário de São Paulo, não tínhamos praticamente nada. As nossas ramificações no território nacional eram quase inexistentes.[1]

Em relativamente pouco tempo, a situação da ALN conheceu uma mudança significativa e a organização tanto adquiriu expressão nacional quanto experimentou um crescimento constante. O modelo inovador adotado pela ALN propiciou esse primeiro momento de expansão. A recusa decidida do “centralismo democrático”, a ênfase na ação direta e a horizontalidade das relações no interior da organização favoreceram a adesão sobretudo de jovens militantes. Isso sem mencionar que membros do PCB, antigos companheiros de Carlos Marighella, e descontentes com a linha política do Partidão, que condenava a luta armada, associaram-se à ALN, engrossando suas fileiras em todo o país. Desse modo, o grupo fundado por Marighella reuniu a maturidade de quadros políticos com larga experiência e o ímpeto da geração de estudantes que abraçou a causa da luta armada, numa mescla rara e produtiva.

Muito rapidamente os órgãos de repressão consideraram a ALN o mais poderoso grupo de guerrilha no Brasil e elegeram Carlos Marighella o inimigo público número 1. Para os integrantes do grupo não havia dúvidas: esse êxito era o testemunho mais eloquente do acerto de sua estratégia ideada. Assim o documento a sintetizou:

1) uma organização afirma-se pela ação que desenvolve;

2) o que faz a organização e lhe dá nome é a ação revolucionária. (p. 267)

O impacto provocado por iniciativas bem-sucedidas e de grande repercussão desempenhou um papel relevante no crescimento da ALN, demonstrando que, pelo menos no curto prazo, justificava-se a primazia da ação revolucionária sobre a organização hierárquica e verticalizada, típica dos grupos mais tradicionais de esquerda. Contudo, o limite desse modelo não tardou a ser esclarecido. Aliás, outras organizações do período assinalaram os impasses associados à forma de ação proposta por Marighella. No documento de maio de 1969, na seção 6, Críticas e objeções surgidas contra nós em certos meios revolucionários, a ALN reconheceu o teor dessas críticas:

Tais objeções giravam em torno das seguintes questões:

  1. a) que não dispúnhamos de qualquer estratégia e que não sabíamos o que fazer;
    (…)
  1. c) que éramos partidários do foco, e como tal íamos fracassar e ser esmagados pela reação, prejudicando a revolução brasileira;
    (…)
  1. e) que não tínhamos nenhum trabalho de massa, subestimávamos tal atitude, e estávamos, por isso, isolados do povo; (…). (p. 271).

 

Em outras palavras, a ALN corria o risco de perder o rumo da prosa em meio a uma sequência vertiginosa de ações. De fato, poucos meses depois da escrita do Minimanual, a estratégia defendida por Carlos Marighella foi submetida a um teste decisivo — a prova dos nove de seu projeto revolucionário.

Estrutura horizontal?

Um dos mais audaciosos gestos da ALN foi o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, ocorrido em 4 de setembro de 1969. Na verdade, a inciativa partiu da Dissidência Comunista da Guanabara (DI-GB), que, no curso da empresa, assumiu a denominação de um grupo cuja extinção o governo havia anunciado, o MR-8 — o Movimento Revolucionário 8 de Outubro, em homenagem a Ernesto Che Guevara, capturado na Bolívia em 1967 nesse dia e morto no dia seguinte.

Membros da DI-GB foram a São Paulo propor à ALN uma parceria para a realização da captura do embaixador. A reunião de forças do MR-8 com a ALN impôs à ditadura militar sua maior derrota e, ainda que por um curtíssimo espaço de tempo, deu um alento considerável à luta armada: o manifesto, assinado pelos dois grupos, foi lido em cadeia nacional de rádio e televisão, divulgado nos principais jornais da época, e, por fim, 15 presos políticos foram trocados pelo embaixador.

Acrescente-se a excepcional vitória simbólica: ninguém menos do que o representante máximo dos Estados Unidos havia sido capturado pela guerrilha urbana brasileira e a intensa repercussão internacional tanto constrangeu o governo quanto enalteceu a luta armada.

Não é tudo: a operação adequava-se às linhas gerais definidas no Minimanual. Consulte-se a seção de título longo e alcance ainda maior, Sobre os tipos e a natureza das modalidades de ação do guerrilheiro urbano. Logo após reiterar uma advertência básica para a luta armada, e que constituiu a regra e o compasso das atividades políticas de Carlos Marighella, “antes de qualquer ação. O guerrilheiro urbano tem que pensar nos meios e pessoal de que dispõe para levá-la a efeito”,[2] o revolucionário aprendiz encontrava uma lista de 14 atividades possíveis, incluindo: “j) sequestro”. (p. 25)

Há mais: a redação do Minimanual seguiu as risca o célebre conselho de Tristan Tzara: “Para escrever um manifesto é preciso querer: A.B.C., fulminar 1, 2, 3 (…)”.[3] A ALN sabia muito bem o que desejava, ou seja, reunir forças e angariar recursos por meio da guerrilha urbana para lançar a guerrilha rural em condições favoráveis, a fim de estabelecer um regime socialista no Brasil. Para alcançar esse objetivo, os alvos eram bem conhecidos, isto é, o imperialismo, especialmente o norte-americano, e o governo militar instaurado com o golpe de 1964. A retórica do Minimanual recorreu à violência máxima ao encarecer a necessidade de combatê-los. Eis o que se afirma na seção Como vive e se mantém o guerrilheiro urbano:

Os homens do governo, os agentes da ditadura e do imperialismo norte-americano, principalmente, são os que devem pagar com a vida os crimes cometidos contra o povo brasileiro. (p. 6)

Nesse cenário, tudo parecia indicar que Carlos Marighella apoiaria a captura do embaixador Charles Burke Elbrick. E, sem dúvida, ele veria no êxito da ousada iniciativa a imagem de uma revolução vitoriosa. Pelo avesso, a humilhação da ditadura prometia novas conquistas da luta armada.

E bem, e o resto?
Portanto, pelo menos em tese, o dia 4 de setembro de 1969 marcou o grande triunfo da guerrilha urbana no Brasil, prenunciando, por que não?, a eclosão da guerrilha rural num futuro, por assim dizer, imediato.

No entanto, no dia 4 de novembro de 1969, Carlos Marighella foi emboscado e assassinado na Alameda Casa Branca, em São Paulo, anunciando efetivamente o aniquilamento progressivo da resistência armada.

Como entender o abismo que se abriu entre essas duas datas, no intervalo relâmpago de escassos dois meses?

Pois é: aguarde a próxima coluna.

[1] “O papel da ação revolucionária na organização”. In: Daniel Aarão Reis e Jair Ferreira de Sá (orgs.). Imagens da Revolução. Documentos políticos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961-1971. São Paulo: São Paulo, Editora Expressão Popular, 2007, p. 265. Nas próximas citações, indicarei apenas o número de página.

[2] Carlos Marighella. Minimanual do guerrilheiro urbano, p. 25, grifo meu. Nas próximas ocorrências, mencionarei apenas o número da página citada.

[3] “Manifesto Dadá 1918”. Gilberto Mendonça Teles (org.). Vamguarda Europeia e Modernismo Brasileiro. Rio de Janeiro, Vozes, 1994, p. 137.

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