Nossa América, nosso tempo

setembro 2013 / Nossa América, nosso tempo / Mimesis: Erich Auerbach em exílio (I)

Texto publicado na edição #162

Mimesis: Erich Auerbach em exílio (I)

João Cezar de Castro Rocha (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)[1] O próprio e o alheio Em 23 de […]

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

João Cezar de Castro Rocha (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)[1]

O próprio e o alheio
Em 23 de setembro de 1935, Erich Auerbach remeteu, de Roma, uma carta a Walter Benjamin. A nostalgia, determinada pela distância do próprio país, dominava o tom da mensagem: 

Caro Senhor Benjamin,
Justamente agora, minha mulher descobre na Neue Zürcher Zetitung do último sábado a sua colaboração. Que alegria! Que o senhor ainda esteja aí, que escreva, e estes sons da pátria desaparecida. Dê-nos por favor sinal de onde e como está. Há um ano pelo menos, quando se procurava um professor para ensinar literatura alemã em São Paulo, pensei no senhor (…). Mas não deu em nada (…).[2]

Auerbach referia-se à fundação da Universidade de São Paulo, ocorrida no ano anterior, e cujas primeiras turmas de professores foram recrutadas entre intelectuais europeus. Por exemplo, um modesto professor de filosofia de um liceu francês, embora relutante, aceitou vir ao Brasil, a fim de exercitar-se na área de estudos que o consagraria. De fato, foi na Universidade de São Paulo que Claude-Lévi Strauss abandonou o ensino da filosofia para dedicar-se integralmente aos estudos antropológicos.

Infelizmente não foi adiante o projeto de incorporar Walter Benjamin às missões que modernizaram os estudos universitários no Brasil. Cinco anos depois da carta do autor de Mimesis, e na iminência de ser entregue a agentes da Gestapo, Benjamin cometeu suicídio na Espanha.

Desfecho que Auerbach não poderia ter imaginado. De igual modo, provavelmente não antecipou que, muito em breve, ele mesmo estaria envolvido num projeto de “modernização periférica” ainda mais radical do que o empreendido na criação da USP.

No âmbito do esforço de modernização, isto é, de ocidentalização, desenvolvido por Mustafa Kemal Atatürk, tornou-se imperiosa a reforma da Universidade de Istambul. Em alguma medida, ela desempenharia o papel de ponta de lança da modernização da Weltanschauung oriental.

Segundo a visão dominante na época, a melhor maneira de assegurar a plena ocidentalização do espírito turco seria o ensino sistemático da tradição literária. Nesse projeto, a “Cátedra de Línguas e Literaturas Ocidentais” desfrutava de grande prestígio, e teve como ocupante ninguém menos do que Leo Spitzer. Depois de sua partida para a Johns Hopkins University, Erich Auerbach assumiu seu lugar.

Retornemos à correspondência com Walter Benjamin para caracterizar a reação do romanista às condições de trabalho na Universidade de Istambul.

Em carta enviada em 12 de dezembro de 1936, Auerbach compartilhou suas primeiras observações:

Caro Senhor Benjamin,
(…) A situação aqui não é muito simples mas também é estimulante. Jogaram ao mar todas as tradições e querem construir de maneira européia um Estado, extremamente turco e nacionalista, de todo racionalizado. A velocidade da mudança é fantástica; já são poucos os que podem ler árabe ou persa e mesmo os textos turcos dos últimos séculos serão incompreensíveis porque a língua é ao mesmo tempo modernizada e orientada para o turco original (Urtürkish) e escrita em caracteres latinos. (70)

O paradoxo é evidente: a receita modernizadora, com base no processo histórico ocidental, deveria favorecer a reconstrução de uma idealizada essência turca, que, assim, seria reencontrada mais adequadamente através do olhar europeu. A ironia é cortante, porém a experiência turca é perigosamente familiar.

Vejamos.

De um lado, o modernismo brasileiro, em particular, e as vanguardas latino-americanas, em geral, dependeram de idêntico movimento pendular, oscilando entre a busca da nacionalidade perdida e a franca adesão aos princípios das vanguardas européias.

De outro lado, a confiar-se na definição proposta por Leo Sptizer, o trânsito entre o próprio e o alheio se encontra na estrutura profunda da filologia ocidental e, ainda de modo mais determinante, na origem da romanística alemã. Na sua eloqüente descrição, o exercício crítico repousa num “duplo ‘quase’”[3]: o filólogo deveria quase tornar-se nativo de diversas literaturas, e, ao mesmo tempo, deveria quase tornar-se estrangeiro a seu próprio horizonte cultural.

Portanto, o vaivém ontológico não caracterizava apenas a Turquia da década de 1930, antes representava uma marca da modernidade, já anunciada por Schiller na célebre distinção entre poesia ingênua e sentimental. Talvez por isso Sptizer analisou sua experiência com um olhar compassivo:

Ainda me foi dado, no processo da reforma de Atartürk, participar da entrada da filologia moderna na Turquia. Da noite para o dia, um povo oriental era aqui convertido em um povo europeu (embora as palavras de um velho grego tremulassem através de estandartes: ‘Somos iguais apenas a nós mesmos’). (…) Só no futuro pode-se consumar o equilíbrio entre o lado mimético-apropriativo e o autóctone e nacional. (42-43)

Em outra carta a Benjamin, datada de 3 de março de 1937, Auerbach desenvolveu o raciocínio, antecipando indiretamente a conclusão de sua obra-prima, Mimesis, assim como de um ensaio definitivo, Philologie der Weltliteratur.

Em primeiro lugar, ele enumerou as dificuldades provocadas pela vocação paradoxal da modernização periférica: “recusa de toda a tradição cultural muçulmana existente, ligação com uma quimérica turquidade (Urtürkentum), modernização técnica no sentido europeu, para bater a odiada e admirada Europa com suas próprias armas” (72).

Não é difícil imaginar os entraves cotidianos causados por tal mescla de interesses e de propósitos. Numa anedota famosa, um administrador teria informado ao atônito Erich Auerbach a lógica que presidia a construção de bibliotecas, porém desencorajava a aquisição sistemática de livros: afinal, papel é um material perigosamente combustível; portanto, em caso de incêndios, ao que parece freqüentes na Istambul da época, quanto menos livros nas bibliotecas, maior seria a segurança do pequeno acervo disponível!

(Ionesco, administrador universitário, não imaginaria argumento mais eficaz!)

Auerbach, contudo, deu um passo decisivo, pois não se limitou a apontar o óbvio disparate, gesto que implicaria uma pressuposição de superioridade do observador. Pelo contrário, com olhar de antropólogo, Auerbach descobriu no dilema turco a radicalização de um fenômeno mais amplo, a ponta visível do iceberg encalhado na outra margem do Atlântico.

Recorde-se a surpreendente análise, que vira o impulso exótico de ponta-cabeça, tornando a experiência turca espelho inesperado da crise da consciência européia:

Este retrato, que noutros países, como a Alemanha e a Itália e também a Rússia (?) ainda não é visível para todos, aqui se mostra em absoluta desnudez. (…) Poderia encher várias páginas com detalhes; o todo pode ser resumido nesta direção: torna-se, para mim, cada vez mais claro que a situação do mundo contemporâneo não mostra senão o ardil da Providência que, por um caminho sangrento e doloroso, nos conduz à internacional da trivialidade e a uma cultura-esperanto. Já o pressentia na Alemanha e na Itália, face à horrenda falsidade da propaganda fundada no sangue e no corpo (Blubopropaganda). Mas só aqui adquiri quase certeza. (73)

Neste aqui determinado — sua permanência na Turquia[4] —, Auerbach escreveu dois livros fundamentais, a seu modo, duas sínteses ambiciosas da tradição literária ocidental. Os livros, proponho, associam-se intrinsecamente a um ensaio da década de 1950.

1943-1952: quase uma década
Proponho uma leitura cruzada de três textos de Auerbach: Introduction aux études de philologie romane, manual preparado em 1943; MimesisDargestellte Wirklichkeit in der abendländischen Literatur, escrito entre maio de 1942 e abril de 1945; e, por fim, Philologie der Weltliteratur, redigido em 1952.

A leitura cruzada desses textos sugere uma modificação decisiva no entendimento auerbachiano da literatura ocidental e, sobretudo, de sua potência de futuro.

No manual, escrito para os estudantes turcos, como parte de suas obrigações contratuais, Auerbach apresentou uma visão normativa da literatura ocidental; isto é, com poucas tensões, e, certamente, distante da imagem de um esgotamento próximo. Sem dúvida, o formato do manual não estimulava uma abordagem crítica.

O prefácio da Introdução esclarece a circunstância de sua escrita:

Este livro foi escrito em Istambul, em 1943, com a finalidade de oferecer aos meus estudantes turcos um quadro geral que lhes permitisse compreender melhor a origem e a significação de seus estudos. Isso aconteceu durante a guerra: eu estava longe das bibliotecas européias e norte-americanas; não tinha quase nenhum contato com meus colegas no estrangeiro, e fazia muito tempo que não lia nem livros nem revistas recém-publicados.[5]

Compreende-se, assim, a divisão didática do volume em quatro partes. Na primeira, “A filologia e suas diferentes formas”, o leitor recebe informações básicas sobre a disciplina, destacando-se a seção dedicada à “explicação do texto”. Na segunda parte, Auerbach esclareceu “As origens das línguas românicas”. Desse modo, além de familiarizar o estudante estrangeiro com a gênese da idéia de Europa como um continente cultural, ele preparou o núcleo do livro. Refiro-me à terceira parte, “Doutrina geral das épocas literárias”, síntese do processo histórico das diversas literaturas européias. Eis o esboço de Mimesis, especialmente porque se trata de exposição histórica das formas da literatura ocidental. A última parte, “Guia bibliográfico”, parece antes uma vingança sutil do erudito, pois, como vimos, as bibliotecas turcas não se singularizavam pela riqueza das coleções. O filólogo não deixou a ocasião escapar: “Para um estudo científico, é mister servir-se da melhor edição crítica que exista do autor em questão; esta será, em regra geral, a mais recente” (246). Precisamente a edição que não estaria disponível na Universidade de Istambul!

Voltemos à terceira parte, especialmente em seu tópico final, dedicado a uma “Vista de olhos ao último século”. O argumento central de Mimesis é antecipado, na observação relativa à “conquista literária que me parece mais importante e mais fértil do século 19 é a da realidade cotidiana, cuja forma mais difundida foi a do romance (ou do conto) realista; os efeitos dessa conquista se fazem igualmente sentir, porém, no teatro, no cinema e mesmo na poesia lírica” (242). Tal conquista é o resultado palpável de um processo multi-secular, lastreado na “mescla de estilos” (Stilmischung), fenômeno que, segundo Auerbach, seria a verdadeira estrutura profunda da experiência histórica do Ocidente.

Portanto, na Introduction aux études de philologie romane, o tom descritivo mantém o olhar crítico sob controle. Há somente uma nota que merece destaque, pois será plenamente desenvolvida na obra-prima de Auerbach.

Trata-se de ressalva sobre o “Realismo moderno”, que evoca a “internacional da trivialidade e a (…) cultura-esperanto”, alvejada na carta a Walter Benjamin.

Eis a preocupação do romanista:

Ele [Realismo moderno] teve muito maior repercussão junto ao grande público que a arte dos simbolistas, o que provocou uma produção em massa no que toca ao romance, ao teatro e ao cinema realistas; isso constituiu e constitui sempre um perigo tanto mais que o público, ou antes o povo, não recusará espontaneamente as falsificações adocicadas, ou trivialmente romanescas, ou totalmente simplificadas da realidade. (243-44)

Exatamente por ter-se tornado hegemônico, o Realismo moderno corria o risco de não se realizar plenamente, já que a seriedade da visão trágica do cotidiano seria substituída pela comicidade com base na reprodução de clichês, ou pela falsa profundidade de soluções estereotipadas.

(Na próxima coluna, mostrarei como, no penúltimo capítulo do Mimesis, o fantasma da distinção entre público e povo retorna com a força do espectro hamletiano.)


[1] Texto inicialmente apresentado em Congresso da Fundação Alexander von Humboldt, na Universidade Federal do Paraná. Agradeço a Paulo Astor Soethe pelo convite, assim como a Otmar Ette e Steffen Mehlich pelo fecundo diálogo.

[2] Erich Auerbach. “5 Cartas de Erich Auerbach a Walter Benjamin”. 34 Letras, 5/6, 1989, p. 68. Nas próximas citações, indicarei apenas o número da página.

[3] Leo Sptizer. “O Próprio e o Alheio. Sobre filologia e nacionalismo”. Luiz Costa Lima (org.). Da nacionalidade à questão da verdade. Cadernos da Pós / Letras, UERJ, 1997, p. 24.

[4] Sobre esse tema, veja-se, Kader Konuk East West Mimesis. Auerbach in Turkey. Stanford: Stanford University Press, 2010.

[5] Erich Auerbach. Introdução aos estudos literários. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1987, p. 9. Nas próximas citações, indicarei apenas o número da página.

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO.

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