Ensaios e Resenhas

maio 2016 / Ensaios e Resenhas / Milagre de pés descalços

Texto publicado na edição #193

Milagre de pés descalços

"Poesia reunida" apresenta o olhar comovido e comovente de Adélia Prado acerca das miudezas cotidianas

> Por MARCOS PASCHE

Ilustração: Adélia Prado por Fábio Abreu

Ilustração: Adélia Prado por Fábio Abreu

Aparecida na década de 1970, a obra de Adélia Prado significa um ponto bastante peculiar para a poesia brasileira do século 20. Por um lado, seu lirismo, em verso livre e branco, compõe-se do amor e do desejo de uma mulher que disso trata sem rodeios e sem amarras: “Desde um tempo antigo até hoje,/ quando um homem segura minha mão,/ saltam duas lembranças guarnecendo/ a secreta alegria do meu sangue”, diz o poema Gênero, do livro O coração disparado (1978). Por outro, no mesmo tipo de verso, essa lírica tem no catolicismo um fator estrutural de mundividência: “(…) A vida é eterna, irmãos,/ aquietai-vos, pois, em vossas lidas,/ louvai a Deus e reparti a côdea,/ o boi, vosso marido e esposa/ e sobretudo/ e mais que tudo/ a palavra sem fel”, inscreve-se em Homilia, de Oráculos de maio (2007). Como a vida e a poesia não cabem na estreiteza de um aqui e ali, a poesia de Adélia Prado exprime, além dos aspectos referidos, um olhar comovido e comovente acerca das miudezas cotidianas, pelo qual as coisas do mundo ganham novo sentido, algo constatável em Explicação de poesia sem ninguém pedir, estupendo poema de Bagagem (1976): “Um trem de ferro é uma coisa mecânica,/ mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,/ atravessou minha vida,/ virou só sentimento”.

Retomando os dois primeiros aspectos e considerando que o século 20 foi um período fundamente marcado por contestações de ideologias conservadoras — principalmente as que plasmaram variados tipos de convenção —, pode-se ver na poesia de Adélia Prado um encontro de fatores em tese mutuamente excludentes. O suporte discursivo, todo feito de simplicidade e clareza, segue a linha modernista; a expressão feminina está em pleno acordo com uma das mais importantes pautas contemporâneas do debate político e artístico; a religiosidade — com caráter de credo específico, dadas as suas referências litúrgicas e institucionais — tem relação direta com as tradições que se perpetuam de modo mais nítido em regiões provincianas, e aqui vale o registro de que Adélia Prado é de Divinópolis (cujo nome vale outro registro), cidade do Oeste de Minas Gerais, onde ela vive até hoje, por sinal. Sobre a relação literária existente entre ela e o Modernismo, Augusto Massi, no posfácio, faz uma observação pertinente:

Deste ângulo [Massi fala de questões abordadas pela poesia brasileira da década de 1970, como o sonho, a política, o erotismo], Adélia também representava um último desdobramento do modernismo, cujas linhas de força convergem para a retomada do cotidiano, da oralidade, da cultura popular e para o desejo de encurtar o caminho até o leitor, trazendo a linguagem poética para o centro da vida.

Dada a sua composição, o aludido encontro denota singularidade interessante, pois formula uma originalidade particular dentro de um espaço já marcado por uma espécie de originalidade geral. Explico-me: depois do Modernismo, o caminho que se colocou como esperável para a poesia foi o de afinamento às suas propostas e conquistas. O impacto do Modernismo produziu uma interpretação de si mesmo e de suas ramificações como forma única de modernidade, e, a partir de seus referenciais, os poetas associáveis a um tipo de tradição costumam ser vistos — quando observados — como autores desimportantes, por teoricamente carregarem em seus escritos itens formais e ideativos inadequados para a expressão artística do tempo presente.

A literatura do século 20 desenvolveu-se sob o imperativo da inovação. Postos diante de valores tradicionais que se estabeleceram por longos séculos (os quais começaram a ser enfrentados no século 19), os autores do século 20 sentiram necessidade de escapar do que se havia consagrado e de reinventar a literatura como interpretação do mundo. Para que isso ocorresse, constatou-se a necessidade de fazer com que, primeiramente, a literatura interpretasse a si mesma, para em seguida reivindicar espaço para falar do novo estado de coisas que cercava o homem contemporâneo de então.

Em sintonia com a ebulição das novas necessidades, os movimentos de vanguarda foram o estouro da boiada responsável pela sistematização dos passos a serem dados a partir daquele momento. Para eles, nada deveria ser como antes, e a nova literatura tinha como atribuição estrutural reordenar suas verdades, tornando possíveis fatos e formas impensáveis para a tradição. A beleza deveria conhecer e misturar-se à feiura, e com ela substituir o par dos antagônicos pelo dos amalgamados. Sem isso, a arte estaria condenada ao divórcio da marcha da humanidade.

O Brasil não esteve alheio ao processo. Bem ao contrário: a vetusta assimilação das tendências estéticas da Europa ganhou novo matiz, e então a cultura reconhecida como própria do Brasil ganhou lugar privilegiado no palco das “belas artes”. Por aqui, além das inovações formais, Modernismo e Concretismo impuseram-se a missão de produzir uma literatura nacional de fato, não necessariamente refratária à conexão com o exterior (o que se reconhece como ingenuidade ou estreiteza reacionária), mas que gerasse uma intervenção de dentro para fora, inserindo o País de modo decisivo no rol das nações artisticamente emancipadas.

Essa voz lírica, bastante representativa da contemporaneidade literária, é a de Adélia Prado, e seu tom peculiar é apresentado de modo integral em Poesia reunida, que congrega os oito volumes de poesia por ela publicados até agora.

A cultura literária que se consolidou definitivamente nos anos de 1950 e desde então paira como dominante aprecia a confirmação ou o desdobramento de 1922, e não hesita ao recusar o que se lhe afigura passadista. Se essa cultura assim procede, é porque espera poéticas originais, e daí se pode, em tese, entender como de originalidade o vasto espaço da poesia contemporânea.

Na medida em que dentro deste espaço uma voz se anuncia amalgamando o que é de dentro e de fora dele, essa voz desenha um outro tipo de originalidade, pois dá novo sentido a um arcaísmo via de regra entendido como ultrapassado: “Minhas fantasias eróticas, sei agora,/ eram fantasias de céu./ Eu pensava que sexo era a noite inteira/ e só de manhãzinha os corpos despediam-se./ Para mim veio muito tarde/ a revelação de que não somos anjos”, diz-se em Trottoir, de Terra de Santa Cruz (1981). Há ainda um fator a ser sublinhado: embora Adélia não seja uma pioneira pelo rigor do termo, há pioneirismo no fato de uma mulher se lançar a uma atividade secularmente naturalizada como ofício masculino. Se se levar em conta, conforme dito, que a autora é de uma região provinciana de um país com largo histórico patriarcal e que ela surge na cena cultural brasileira (1976) quando no País se processava um contexto político de extremo reacionarismo, o aludido encontro de aspectos antitéticos ganha um extraordinário desdobramento socioexistencial, que deve ser recebido como ato político e simbólico da maior relevância. Cito, a título de exemplo, Casamento, de Terra de Santa Cruz:

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como ‘este foi difícil’,
‘prateou no ar dando rabanadas’
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Essa voz lírica, bastante representativa da contemporaneidade literária, é a de Adélia Prado, e seu tom peculiar é apresentado de modo integral em Poesia reunida, que congrega os oito volumes de poesia por ela publicados até agora. Antes da análise mais detida do livro, deve-se destacar sua primorosa edição, que conta com belíssima capa, exibe extensa lista de referências bibliográficas de e sobre Adélia, republica dois importantes textos acerca de sua obra (redigidos por Carlos Drummond de Andrade e Affonso Romano de Sant’Anna) e conta ainda com esmerado posfácio de Augusto Massi, do qual já citei um fragmento. A reunião de tais fatores propicia ao leitor interessado ampla visão da obra da poetisa mineira, que talvez tenha no volume uma espécie de consagração.

Adelia_Prado_1__193

O melhor da poesia de Adélia Prado está nos momentos em que a simplicidade soa natural, própria de alguém íntima da vida como um todo, incluindo aí os seus mistérios.

Simplíssima trindade
De Bagagem (1976) a Miserere (2015), há na escrita poética de Adélia Prado o emprego inalterado de um padrão formal e a expressão sistemática de uma percepção da realidade. Ao longo de seus oito livros, processa-se uma linguagem cujos fundamentos podem ser sintetizados pela tríade formada por feminilidade, simplicidade e religiosidade. No volume de estreia, certos predicados femininos são afirmados já no primeiro poema, o muito referido Com licença poética:

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Dada a apresentação, desta poética parece claro o propósito de consolidar no curso histórico da poesia brasileira a presença afirmativa da mulher — sendo essa presença afirmada pela própria mulher, sem delegação. E como anteriormente se falou da dupla originalidade que caracteriza a poesia de Adélia Prado, convém observar no poema uma forte ilustração disto: a referida afirmação, pelo conteúdo que exprime, é, por si só, algo inovador. O modo como tal afirmação se faz também possui estatuto moderno, dada a clara reescrita da primeira parte do afamado Poema das sete faces — também o poema primeiro de um primeiro livro —, de Carlos Drummond de Andrade. Nisso, a poeta dialoga efetivamente com o ideário modernista, justamente por não assumir postura reverente diante do monumento cultural, chegando a satirizá-lo, dado que o “gauche” do texto drummondiano torna-se “coxo” — muito mineiramente, a propósito. Tomando o poema integralmente, torna-se perceptível sua fundamentação irônica, reforçada especialmente nos primeiro e último pares de versos: se em Drummond o anjo torto e habitante das sombras apontava para uma ressignificação de símbolos elevados da ancestralidade, em Adélia o sim ao feminino diz que nem toda tradição deve ser castigada, e que nela há belezas não necessariamente incompatíveis com as demandas da atualidade. Portanto, a ressignificação é também ressignificada, e a licença poética se potencializa como entrada triunfal do gênero feminino: “Quando nasci um anjo esbelto,/ desses que tocam trombeta, anunciou:/ (…)/ Vai ser coxo na vida é maldição pra homem./ Mulher é desdobrável. Eu sou”.

O segundo fundamento da poética adeliana a ser destacado é a simplicidade, e também no livro Bagagem, súmula inquestionável de toda a obra da poeta, encontra sólidos exemplos. Recorro a Grande desejo, segundo poema do volume:

Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos. Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás de meu estômago humilde
e fortíssima voz para cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.

Muito abertamente, a voz lírica evidencia que no poema fala uma mulher de carne e osso — e que dá osso a seu cachorro —, pelo que essa voz lírica se emite indistintamente da voz concreta: “sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia”. A imagem que a mulher em questão constrói de si mesma contrasta radicalmente com a imagem (romântica e ainda muito corrente) que se tem dos que escrevem poesia, via de regra imaginados como seres excêntricos ou misteriosos. Essa imagem cotidiana alastra-se por toda a obra de Adélia, porque, digo mais uma vez, ela tem ligações ideológicas com o Modernismo, e também porque, digo novamente, ela se estende para onde os modernistas não chegaram, dando, assim, sua nota pessoal à poesia brasileira.

Mas, em Grande desejo, isso não se dá com isenção de complexidade, pois o desfecho do poema aponta justamente para uma feição contrária, “requintada e esquisita como uma dama”. Porém (a conjunção de adversidades não se esgota nem se gasta), a afirmação é comparativa e não relata uma característica fixa da personalidade — ela estará, em certo momento, requintada e esquisita como uma dama, porque não é usualmente requintada e esquisita como uma dama. A mais, o “estar” em questão é cogitado para um momento de exceção — que, aliás, confirma a regra —, e a consequência do feito excepcional só demonstra que a simplicidade é fator próprio da vida dessa mulher comum. Será usual que poetas contemporâneos, ao publicarem seus livros, procurem por espaços propícios a práticas de conexão metafísica, como uma igreja, e neles chorem abundantemente, por provável comoção e em provável agradecimento? Creio que não. A cultura contemporânea não comporta a ideia de devoção a entidades supostamente superiores aos homens, o que, então, ratifica a simplicidade basilar da obra de Adélia Prado, porque não se pode pensá-la sem essa devoção. Quem faz projeções de tal natureza — levar o livro editado a um lugar de recolhimento e nele ficar aos prantos — permite supor (falo em suposição porque o poema não usa referências religiosas inquestionáveis, embora isso seja habitual na poética em questão) que acredita não ser capaz de feitos extraordinários — ou mesmo ordinários — sem uma providência que extrapola a condição humana: “De vez em quando Deus me tira a poesia./ Olho pedra, vejo pedra mesmo./ O mundo, cheio de departamentos,/ não é a bola bonita caminhando solta no espaço./ Eu fico feia, olhando espelhos com provocação,/ batendo a escova com força nos cabelos,/ sujeita á crença com presságios./ Viro péssima cristã”, diz parte de Paixão, do volume O coração disparado.

Adelia_Prado_2__193

Ao longo de seus oito livros, processa-se uma linguagem cujos fundamentos podem ser sintetizados pela tríade formada por feminilidade, simplicidade e religiosidade.

A simplicidade confirmada pela aproximação de certos ingredientes da fé dá margem para que se explore o terceiro dos três aspectos fundamentais que vejo na composição poética de Adélia Prado: a religiosidade. A poesia de Adélia é uma poesia católica, e confirma seu viés litúrgico mesmo nos poemas que manifestam certo conflito espiritual, do que daremos exemplos mais à frente. Ainda em Bagagem, há, dentre outros, dois textos que demonstram bem isso: o primeiro é Saudação — “Ave, Maria!/ Ave, carne florescida em Jesus./ Ave, silêncio radioso,/ urdidura de paciência,/ onde Deus fez seu amor inteligível!”; o segundo é Um salmo:

Tudo que existe louvará.
Quem tocar vai louvar,
quem cantar vai louvar,
o que pegar a ponta de sua saia
e fizer uma pirueta, vai louvar.
Os meninos, os cachorros,
os gatos desesquivados,
os ressuscitados,
o que sob o céu mover e andar
vai seguir e louvar.
O abano de um rabo, um miado,
uma mão levantada, louvarão.
Esperai a deflagração da alegria.
A nossa alma deseja,
o nosso corpo anseia
o movimento pleno:
cantar e dançar TE-DEUM.

No primeiro poema, há uma efusiva louvação a ícones do cristianismo, que soa sem qualquer efeito poético. O segundo também estampa teor laudatório, mas nele sobressai um tom panfletário, dado o vocabulário generalizante e a crença na assimilação totalizante de algo a ser feito. Assim é que, em Adélia Prado, a religião sai da originalidade e descamba para o lugar comum, inócuo e insípido, e a simplicidade torna-se um simplismo banal. A grande semelhança existente entre todos os seus livros faz com que, ao passar de textos e volumes, a consolidação da linguagem signifique também um maneirismo. Com isso, em diversos momentos o leitor talvez tenha a impressão de estar lendo as mesmas coisas, possibilidade reforçada pela grande quantidade de poemas que pediam critério mais rigoroso de publicação. Em Bagagem isso fica explícito por ser o livro composto por mais de uma centena de textos: dentre eles, há poemas geniais, dignos da estreia de um nome que veio para ficar. Entretanto, algo da força do livro diminui por conta do conjunto, quando a quantidade torna a qualidade irregular. Por se tratar de uma estreia, a oscilação é compreensível, mas as publicações posteriores permitem verificar que a ideia de que um autor escreve sempre o mesmo livro é bem adequada à bibliografia da autora, como se pode ver em O ajudante de Deus, segundo poema de Oráculos de maio:

Invoquei o Santo Espírito,
Ele me disse: sofre,
come na paciência
esta amargura,
porque tens boca
e eu não.
Toma o pequeno cálice,
massa de cinza e fel
não transmutados.
É pão de mirra,
Come.

Logicamente, tal ideia (a de se escrever sempre o mesmo livro) não é um total desabono e costuma significar que um autor trabalha certas questões de modo obsessivo, a ponto de apresentá-las e reapresentá-las em seus livros a partir de algumas diferenças. Mas no caso de Adélia Prado as diferenças são mínimas de livro a livro, razão pela qual seus momentos de menor interesse avolumam-se precocemente.

Como tenho me valido de exemplos extraídos do primeiro livro da autora, devo dizer que o tom panfletário (sobre a religião) é frequente em outros poemas e comparece a todos os demais livros da poetisa, conforme comprova Mulher ao cair da tarde, de Oráculos de maio, seu sexto título: “Ó Deus,/ não me castigue se falo/ minha vida foi tão bonita!/ Somos humanos,/ nossos verbos têm tempos,/ não são como o Vosso,/ eterno”. A reincidência de textos religiosos que, na esteira de Saudação, soam gratuitos, desprovidos de qualquer interesse que não seja o do louvor previsível, e que, conforme Um salmo, fazem pensar numa demonstração de fé algo forçosa e mesmo artificial em certos momentos, parece incompatível com uma voz poética composta por elementos libertários. Sem ignorar idiossincrasias, a incompatibilidade se desenha na medida em que a submissão dogmática se dá de modo corrente e alegre. Nos momentos (minoritários) em que a alegria não se manifesta, em seu lugar aparece um descontentamento ligeiro e superficial, que não se processa como questionamento estrutural e em tudo se aproxima do clichê religioso. Isto se verifica, por exemplo, no seguinte fragmento de O bom pastor, do livro O pelicano (1987):

Tudo me está vedado,
não há lugar para mim,
parece que Deus me bate,
parece que me recusa,
pedir auxílio é pecar,
não pedir é loucura,
é consentir no auxílio do Diabo.

Força na leveza
O melhor da poesia de Adélia Prado está nos momentos em que a simplicidade soa natural, própria de alguém íntima da vida como um todo, incluindo aí os seus mistérios: “Sei que Deus mora em mim/ como sua melhor casa./ Sou sua paisagem,/ sua retorta alquímica/ e para sal alegria/ seus dois olhos./ Mas esta letra é minha”, diz o delicado Direitos humanos, de Oráculos de maio.

Nessas ocasiões, a poesia é a voz da comunhão entre o ser, o que o rodeia e o que o extrapola, e é nessas ocasiões que a poesia se cumpre como revelação do inédito e do inaudito, colocando-se como tradução do que os discursos convencionais não explicitam. Nessas ocasiões, a poesia de Adélia Prado é um milagre de pés descalços, de cabelos soltos e de camisa aberta. E para deixá-la ao sabor do vento, cito, como conclusão, um poema (Amor feinho, de Bagagem) que deixa os ventos ao sabor e à flor da pele:

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

 

Adelia_Prado_Poesia_reunida_193

 

Poesia reunida
Adélia Prado
Record
544 págs.

 

 

A AUTORA
Adélia Prado

Nasceu em Divinópolis (MG), em 1935. Além de poeta, é contista, professora e filósofa. Publicou, dentre outros, os livros Bagagem (1976), Oráculos de maio (2007) e Miserere (2014).

 

Print Friendly