Dom Casmurro

maio 2017 / Dom Casmurro / Messi no Flamengo

Texto publicado na edição #205

Messi no Flamengo

Conto inédito de Rafael Rodrigues

> Por RAFAEL RODRIGUES

Ilustração: Valdir Heitkoeter

Ilustração: Valdir Heitkoeter

Lúcia e Vanderlei começaram a namorar no início de 2007. Quando contam como se conheceram, eles sempre dizem que foi “amor à primeira vista”.

Eles estavam na festa de aniversário do Carlos, que era amigo de uma amiga da Lúcia e amigo de um amigo do Vanderlei. Antes mesmo de serem apresentados, os dois já tinham trocado olhares. Depois da apresentação, veio a conversa. Da conversa, a troca de telefones. Da troca de telefones, mais conversas, encontros marcados, o primeiro beijo e por aí vai.

O Vanderlei era entregador de pizza. A Lúcia, atendente de telemarketing. Mas os dois queriam mais. O Van — era assim que a Lúcia o chamava — tinha 22 e estava tentando entrar na universidade. A Lu — era assim que o Vanderlei a chamava — tinha 21 e acabara de iniciar o curso de Administração.

Poucos meses depois de começarem a namorar sério, o Van conseguiu entrar na faculdade. A mesma da Lu — e o mesmo curso, também.

A partir daí as coisas foram dando cada vez mais certo. Um ano depois de ter iniciado o curso superior, a Lu foi promovida a supervisora. O Van foi promovido quando terminou o primeiro semestre, deixou de ser entregador e passou a ser caixa.

O tempo foi passando, a Lu se firmou como supervisora e o Van saiu do caixa e foi para a tesouraria. Como eles não gostavam muito de baladas — a diversão deles era ir ao cinema, a um barzinho ou sorveteria bacana, visitar os amigos e, às vezes, a um show imperdível (eles foram a um do Los Hermanos em 2009, no Rio) —, os reajustes salariais (e o fato de eles morarem com os pais) permitiam que o Van e a Lu guardassem alguma grana.

Foi no finzinho de 2010 que o Van pediu a Lu em casamento — e ela aceitou. Como a Lu havia acabado de se formar e o Van terminaria o curso no meio de 2011, eles decidiram se casar no fim de 2012. Nesse meio tempo, continuariam economizando o que pudessem, afinal, as despesas seriam muitas. Festinha de casamento, compra da casa, viagem de lua de mel, etc. Além disso, ambos desejavam muito um filho — dois, na verdade, porque o Van queria um menino e a Lu queria uma menina.

As coisas foram acontecendo exatamente como manda o script. A Lu foi promovida a gerente da empresa logo depois da formatura; meses depois, aconteceu o mesmo com o Van. Eles se casaram e começaram a pensar no primeiro filho já em 2013. A Lu ficou grávida naquele ano mesmo, e em janeiro do ano seguinte nasceu o Messi, uma homenagem ao craque argentino, é claro, por quem o Van era fanático.

A Lu até tentou fazer o Van mudar de ideia e não batizar o filho deles de Messi, mas sabia que seria impossível convencê-lo. Ela conhecia bem aquela admiração toda: seu pai idolatrava o Zico (e o irmão dela se chamava Arthur Zico).

Como não podia deixar de ser, o Van já sonhava com o Messi jogando bola desde molequinho, entrando numa escolinha de futebol, passando por uma peneira e sendo contratado pelo Flamengo. Já pensou, o Messi jogando no Flamengo?, ele dizia.

Aquele era o único devaneio, por assim dizer, do Van. Por isso, a Lu nem se importava — ela até achava engraçado. E chegava a sonhar junto com ele, às vezes.

Em todo esse tempo, o Van e a Lu nunca pensaram em sair da comunidade. Suas famílias viviam ali há décadas e, apesar de um ou outro perigo mais próximo, mais visível, quase palpável, eles nunca sofreram nada, nenhum tipo de violência, nada. Principalmente nos últimos anos, com o governo do Rio investindo mais, diziam os governantes, em segurança pública.

Foi em julho de 2016, no dia em que o Messi completava dois anos e meio, que aconteceu. Uma bala perdida atingiu em cheio a cabeça do garoto, levando embora a vida do menino e os sonhos do Van e da Lu. E deixando um vazio da porra no peito dos dois.

Print Friendly