Ensaios e Resenhas

abril 2012 / Ensaios e Resenhas / Mercado complexado

Texto publicado na edição #144

Mercado complexado

Marca da literatura brasileira

> Por VINICIUS JATOBÁ

Buscar escrever sobre literatura brasileira é sempre uma armadilha. Por um lado, porque ela será sempre marcada por uma sensível invisibilidade: continental, plural, matizada, é de se esperar que ela seja mais complexa do que aquilo que as editoras com maior poder de distribuição editam. Por exemplo, não existe mais uma literatura rural editada apesar de o Brasil ainda ser, essencialmente, um país rural. O que se edita é notadamente urbano, e é possível que se perca nessa escolha grandes obras de literatura. Mais, até: o espaço por onde poderiam circular autores do passado, como Lins do Rego e Mário Palmério, e autores mais recentes, como o genial Francisco Dantas, está sendo eliminado, gerando uma zona estranha de incomunicação e mutismo. Mas ainda se tirando essa imaginação rural do horizonte editorial resta uma incapacidade de dar conta de toda complexidade urbana — uma cidade como São Paulo, por exemplo, deve possuir uma pujança de narrativas que se fossem editadas em sua totalidade inundariam violentamente as livrarias do país. Mesmo se concentrando em uma literatura urbana, ainda assim é inescapável o desastre de se cometer equívocos e manter invisíveis autores com obras interessantes.

Descompasso
Por outro lado, uma armadilha se arma em questões de gêneros literários. O Brasil não é um país de romancistas, e conta-se nos dedos os grandes romances recentemente publicados. Essencialmente temos poesia e contos e crônicas, o que é outra forma de dizer que nossa literatura é sofisticada a ponto de demandar menos espaço para dizer aquilo que outras literaturas precisam de centenas de páginas para esgotar. No entanto, não apenas a crônica perdeu espaço nos jornais e nas editoras e os contos são descartados por uma lógica comercial medíocre que revela a incapacidade das editoras em vender um gênero tão próprio para os dias corridos e atarefados de hoje, como também o sistema literário despreza abertamente a prosa breve. Basta para isso, notar que, para constrangimento incômodo e insuportável, entra ano e sai ano e o Prêmio Jabuti entende crônica e conto como a mesma categoria de premiação. É uma falta de respeito e de compreensão que apenas evidencia uma incapacidade do nosso sistema em lidar com aquilo que de melhor produzimos.

O lugar da poesia, então, é um desastre. Ela é invisível até o limite do sanguinário a ponto de ser difícil citar os poetas vivos de relevância em atividade. A impressão que as editoras passam é de que os últimos poetas brasileiros foram Ferreira Gullar, Adélia Prado e Manoel de Barros, e se considerarmos que as obras desses autores estão essencialmente fechadas, a impressão é que vivemos um deserto poético. Não é verdade. Apenas existe um descompasso entre os interesses das editoras e aquilo que vocacionalmente o Brasil produz de melhor enquanto tradição em termos de literatura. Ao que parece, existe uma guerra declarada contra o conto e a crônica no Brasil tanto nas editoras quanto nos jornais e revistas. E a poesia, que já foi um gênero nobre em grandes editoras, agora é relegada à preguiça confortável de compras de catálogos de autores mortos. É como se os editores, no terreno da poesia, estivessem amedrontados diante do desafio de descobrir os clássicos do futuro, de apostar na construção de um horizonte poético.

Complexo de Roth
Se na edição de contos, crônicas e poesia a situação é caótica e irregular, naquilo que poderia ser chamado de romance a fome é imensa. E é aqui que mora o perigo. Um país não precisa se envergonhar de não produzir romances. Toda narrativa demanda seu próprio tempo, e a impressão pessoal é que boa parte das narrativas brasileiras é complexada pelo vexame do fôlego curto. É como se escrever um romance fosse algum teste de respeitabilidade, de maturidade, como se a medição do valor de um escritor não estivesse na verdade humana que ele acessa e sim em como ele exaure e esvazia essa verdade no maior número de páginas possíveis. A página não é unidade de medição literária; a página é solução gráfica. Mas não apenas esse fetiche pelo número de páginas constrange talentos e deforma narrativas, como faz com que todo um sistema literário se sinta complexado por não produzir romances como Roth, Naipaul ou McEwan, o que é patético. Exigem-se romances de uma nova geração de escritores sem jamais se perguntar se o romance é a forma mais adequada a partir da qual essa geração, tão mediada por uma cultura do texto curto e epigráfico, realmente irá se expressar integralmente. A sensação de fraqueza de nossa literatura se deve muito a isso: estarmos buscando em um gênero tão impróprio à nossa tradição uma redenção cuja energia sublime alcançaríamos na brevidade. Nunca se publicou tantos romances e nunca foram escritos tantos romances. Mas a pergunta que fica: está se produzindo satisfação?

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