Ruído branco

fevereiro 2015 / Ruído branco / Mensagem aberta

Texto publicado na edição #178

Mensagem aberta

Ao professor-pesquisador que estuda a literatura brasileira contemporânea.

> Por LUIZ BRAS

Prezado professor, saudações!

O pequeno grupo de professores-pesquisadores ao qual você pertence sempre esteve atento ao cânone, mas sem descuidar do contemporâneo. Graças a esse grupo, o estudo da literatura brasileira do século 21 vem ganhando espaço na esfera acadêmica.

Tempos atrás era muito forte a resistência da universidade em refletir sobre a literatura brasileira contemporânea. Às vezes passava pelo filtro um ou outro autor (ainda) vivo, apesar da idade. Mas um autor jovem… nem pensar.

Enquanto perdurou, essa ojeriza institucional aos novíssimos escritores foi muito criticada. Principalmente pelos novíssimos.

Em respeito ao protocolo acadêmico, graduandos e pós-graduandos viviam apenas em função do cânone. Consagravam autores e obras consagrados, num círculo de consagração.

Mas nas últimas duas décadas a situação se modificou. Suspeito que por insistência da nova geração de pesquisadores.

Devagar, os romances e as coletâneas de contos ou poemas da geração mais jovem de ficcionistas e poetas começaram a ser analisados. Não apenas em TCCs e artigos acadêmicos, mas também em dissertações e teses.

Hoje, a queixa de que a universidade trabalha apenas com as obras e os autores canonizados não se justifica. Muitos ficcionistas e poetas que estrearam em livro nos últimos vinte anos também já estão sendo estudados. Até mesmo nas universidades mais conservadoras do país.

Porém, uma minoria ficou de fora dessa abertura política. Se um velho preconceito foi dissolvido, outro ainda continua intacto. Refiro-me ao tradicional preconceito contra a ficção científica brasileira.

Esse gênero literário evoluiu muito nas últimas décadas. Sensível às sucessivas renovações estéticas promovidas ao longo do século 20, sua linguagem amadureceu, sua temática se atualizou.

Apesar dessas mudanças significativas, a quase totalidade da universidade brasileira ainda enxerga a ficção científica do mesmo modo reducionista que o senso comum. Confunde, por exemplo, a ficção científica literária, mais refinada e arrojada, com a cinematográfica, mais estereotipada e conservadora.

Ignora que o gênero tem uma longa história (ainda secreta) no Brasil, a ponto de já exibir características nacionais.

De modo geral, a universidade brasileira e o senso comum ignoram sua atualidade. Acreditam que a ficção científica de hoje e a dos anos 50 e 60 são a mesma coisa. Esse é um grande e trágico engano que poderia ser evitado de maneira muito simples: pela leitura.

Brasileiros talentosos estão escrevendo com afinco. Grandes romances e coletâneas de contos de ficção científica foram publicados nos últimos vinte anos. Mas não receberam a merecida atenção da imprensa. Também não estão recebendo a merecida atenção da universidade.

A simples classificação — ficção científica brasileira — os torna invisíveis. O veredicto não-li-e-não-gostei é dado. E o preconceito perdura.

Faço um apelo ao bom senso incomum, contra o mau senso comum: não despreze, sem ao menos ler. Os melhores livros publicados neste início de século 21, de ficção científica brasileira, não merecem a invisibilidade.

Na verdade, esses livros somam força com os da literatura não estigmatizada. Eles ampliam o leque temático, inserindo questões que não são abordadas pela irmã rica: biotecnologia, engenharia genética, informática, inteligência artificial, cosmologia, etc.

Fazem isso com uma linguagem afiada, você logo verá, sem abrir mão dos temas tradicionais de nossa problemática realidade político-social-tropical.

Em resumo, fazem o que os bons livros sempre fizeram, não importando o gênero: investigam o drama humano. Questionam seus sistemas, denunciam as armadilhas.

Se esse apelo à leitura imparcial, sem preconceito, for atendido, mais uma injustiça histórica será finalmente banida dos centros acadêmicos de reflexão.

Um abraço,

Luiz Bras

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Post-scriptum

Messias, my dear, na virada do ano, essa carta aberta foi enviada por e-mail a duas dúzias de professores-pesquisadores do Brasil e do exterior, e publicada em meu blogue.

O objetivo foi alertar a parcela mais esclarecida da comunidade acadêmica sobre o textismo involuntário que a FC brasileira vem sofrendo. Textismo no sentido de racismo textual, conforme a reflexão da acadêmica Marleen S. Barr.

Meia dúzia dos professores contatados interessou-se pela questão e até me pediu que passasse uma lista de livros recentes de ficção científica brasuca.

Nas últimas duas décadas foram publicados centenas de livros, a maioria por editoras alternativas. É óbvio que não consegui ler e comparar todos.

Feita essa ressalva, uma boa lista inicial de FC brasileira recente incluiria, em minha opinião, os seguintes títulos:

Histórias para lembrar dormindo, minicontos de Braulio Tavares (Casa da Palavra, 2014)

Mnemomáquina, romance de Ronaldo Bressane (Demônio Negro, 2014)

O alienado, romance de Cirilo S. Lemos (Draco, 2012)

Campo total, contos de Carlos Orsi (Draco, 2013)

O triângulo de Einstein, contos de Ataide Tartari (Nova Espiral, 2013)

Selva Brasil, romance de Roberto de Sousa Causo (Draco, 2010)

Os dias da peste, romance de Fábio Fernandes (Tarja, 2009)

Fábulas do tempo e da eternidade, contos de Cristina Lasaitis (Tarja, 2008)

Confissões do inexplicável, contos de André Carneiro (Devir, 2007)

E, se não for muito atrevimento, meu amigo, eu também incluiria nessa lista meus romances Distrito federal (Patuá, 2014) e Sozinho no deserto extremo (Prumo, 2012).

Há ainda esses clássicos dos anos 90, pouco conhecidos:

Amorquia, romance de André Carneiro (Aleph, 1991)

A espinha dorsal da memória e Mundo fantasmo, contos de Braulio Tavares (Rocco, 1996)

Piritas siderais, romance de Guilherme Kujawski (Francisco Alves, 1994)

Santa Clara Poltergeist, romance de Fausto Fawcett (Edição Eco, 1990) relançado em 2014 pela Encrenca: Literatura de Invenção.

É importante salientar, querido, que o preconceito contra a ficção científica não é uma invenção brasileira. Ele ocorre até mesmo no mercado editorial anglófono, em que o gênero prosperou e venceu.

Sempre que um talentoso autor britânico ou norte-americano lança um romance literariamente vigoroso, de ficção científica, logo surge um crítico qualquer dizendo que “esse livro, apesar de ser de ficção científica, é excelente”.

Quando não surge um crítico qualquer dizendo que, apesar das astronaves e dos alienígenas, “o livro parece ser de ficção científica, mas não é, não exatamente”. Gostaria de saber qual seria pra esse crítico a melhor definição de ficção científica.

Porque definições há muitas, mon cher, da mais inclusiva à mais esotérica, da mais restritiva à mais acadêmica. Umas objetivas, outras subjetivas. Tem pra vários paladares.

A minha, de uso pessoal, é talvez a mais inclusiva, Messias.

Considero ficção científica qualquer narrativa que apresente ao menos uma dessas três características:

1. Elementos da ciência e da tecnologia fundamentando o enredo.

2. Ícones, tipos e estereótipos ligados à ciência e à tecnologia: a astronave, o alienígena, o androide, o ciborgue, a inteligência artificial, a máquina do tempo, etc.

3. Uma grande reformulação da sociedade, de natureza utópica ou distópica.

A ficção científica é um dos gêneros mais hospitaleiros & democráticos que existem, meu caro. Ela aceita muito bem a contribuição de outros gêneros literários (policial, terror, fantasia, político, erótico, etc.), porém o contrário nem sempre acontece.

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