Ensaios e Resenhas

novembro 2012 / Ensaios e Resenhas / Memória e movimento

Texto publicado na edição #152

Memória e movimento

Em potência temos tantas vidas quanto os volumes de uma biblioteca. Quanto mais se lê, mais é possível enredar e reorganizar nossas vidas

> Por VANESSA C. RODRIGUES

 

Ilustração: Theo Szczepanski

A primeira vez que tive medo de ficar cega estava diante de um robô cor-de-rosa. Meu colega de trabalho finalizava uma ilustração de um personagem institucional para um cliente da agência onde trabalhávamos, até que se deu conta que tinha escolhido o lápis errado de seu estojo alemão. Era daltônico, eu soube ali. Me ofereci para legendar seus lápis com os nomes das cores, precisaríamos apenas chegar a um acordo sobre os entretons, mas a gentileza não me custaria mais que dez ou quinze minutos e ele nunca mais perderia três horas de trabalho como perdera naquela manhã. Meu colega, orgulhoso, recusou minha solidariedade e disse que continuaria a contar com seu limite e sua organização e seguiríamos a ser uma dupla estranha feita de um ilustrador daltônico e de uma revisora míope.

Não sei por que ter descoberto a doença do meu colega me fez me assustar com meus próprios olhos doentes. O fato é que, mesmo confortada pela ciência óptica e pela tecnologia de correção da luz, nunca deixei de me espantar que tudo o que realmente importa para mim, a despeito das minhas limitações visuais, depende dos meus olhos e seria mesmo uma grande tragédia se um dia a maneira imperfeita como me chega a luz refletida pelas letras dos livros que amo — e os que ainda preciso ler e os que ainda nem soube — se acentuasse tanto que ler deixasse de ser a atividade com que gasto a maior parte do meu tempo e passasse a ser uma impossibilidade.

Penso em Borges tocando as capas ainda indistinguíveis de sua magnífica biblioteca, as pontas dos dedos ainda insensíveis e desconhecedoras de seu novo ofício, que seria ver. Ou em Ernesto Sábato conformando-se que não, não pintarás. Ou ainda em James Joyce esforçando-se para que seu Finnegans wake em vez de pelos dedos saísse pela garganta e entrasse nas orelhas atentas de Beckett, tudo isso para economizar um último fio de visão. A ironia trágica dos artistas que se deparam com a falência da específica parte do corpo que usam como instrumento de sua expressão não é rara. Beethoven debruçado sobre o piano para sentir a vibração surda de suas cordas (a música no tato). O escultor doente que no embate contra a dureza da pedra talhava também seu próprio corpo leproso, que se despedaçava.

E era nesse grupo, o dos injustiçados, que me incluía nas minhas tardes mais sensacionalistas e esperava que no exame oftalmológico daquele ano os graus não aumentassem de novo. Era um drama sem sentido, nunca corri esse risco. Mas para alguém que aprendeu a receber o mundo escrito pelos olhos e também a se apaixonar por esse silêncio e esse vazio noturno portátil onde instantaneamente nos acolhemos quando o livro se abre, mesmo no trem, mesmo na padaria barulhenta, perder a visão seria o mais trágico dos acasos.

Em julho deste ano, porém, soube por uma notícia de jornal que Gabriel García Márquez não mais escreveria. Continua feliz e entusiasmado, segundo seu irmão Jaime, mas infelizmente não escreveria mais, não porque tivesse se aposentado ou porque também tivesse sido vítima do mesmo problema ocular de que seus profícuos colegas padeceram. Gabriel García Márquez estava perdendo a memória e esta sim seria a grande impossibilidade para um escritor. Porque Borges ainda teria à sua disposição uma larga fatia da Biblioteca a que teve acesso. Sábato ainda guardaria finíssimas camadas de paisagem, o vermelho específico de sua infância, os entretons de verde-azul que não se perderiam nunca daquela visão do de dentro. Até mesmo Joyce, apesar da dificuldade, conseguiria compor uma obra-prima em voz alta. Mas García Márquez não. Estava desligando-se de sua experiência, e não há literatura sem experiência.

Atividade física
Não tive acesso a qualquer diagnóstico preciso sobre o caso do Gabo e mesmo se o tivesse, não saberia relacioná-lo com o rigor científico necessário à sua impossibilidade de escrever. Tenho apenas uma frase, a que me deixou triste e pensativa durante toda aquela tarde: Gabriel García Márquez sofre de uma doença senil e não está mais em condições de escrever. Gabriel García Márquez perdeu a memória.

E me lembrei então do filósofo francês Henri Bergson, que tanto deu importância aos mistérios da memória humana. Diz, em Matéria e memória, que “não há percepção que não esteja impregnada de lembrança. Aos dados imediatos e presentes dos nossos sentidos misturamos milhares de detalhes de nossa experiência passada”. O diálogo que nosso corpo faz com o mundo só é possível porque existe memória, uma vez que isso a que chamamos presente não existe. Para Bergson, o instante presente é uma abstração matemática, o que há é uma duração, um passado que se estende ao futuro, o passado que auxilia na única verdadeira vontade humana, que é viver. Presente é sensação e movimento ao mesmo tempo. “Quando pensamos esse presente como devendo ser, ele ainda não é; e, quando o pensamos como existindo, ele já passou.”

Pensemos em uma bailarina, que executa com perfeição a coreografia aprendida. Ela move o seu corpo com o auxílio de um tipo de memória cumulativa, que foi se sobrepondo a cada aula, a cada ensaio, até que só de ouvir a música do espetáculo gira-se, salta e move os braços em continuidade, automaticamente. Dessa apresentação, que acontece no presente, num presente mensurável e específico, participam também todas as aulas e todos os movimentos que aprendeu em muitas aulas no passado, desde que começou a fazer balé aos seis anos, mas está também a memória de ficar em pé, de caminhar, de sorrir. Mas se conversando com uma colega no café depois do ensaio elas comentam o quão difícil foi o dia em que o coreógrafo resolveu incluir na apresentação aquele movimento específico, é possível que se lembre da roupa que vestiam, se chovia ou fazia sol. No primeiro caso, o passado é vivido em mecanismos motores, na maneira como movemos nosso corpo pelo mundo. No segundo caso, o passado veio à conversa por meio de uma lembrança independente, uma imagem, uma representação. E essa lembrança-imagem, a que é independente, surge quando nosso corpo relaxa os ligamentos com a vida prática — é assim que vêm os sonhos.

Há passado também na reação do nosso corpo aos objetos que nos rodeiam, mesmo que, inconsciente, tudo aquilo que aprendemos e tudo aquilo que forma isso que chamamos de caráter seja um passado, sejam as memórias, que ajudam a perceber o mundo. E essa nova percepção, feita de passado (mas também de “promessas e ameaças”, que se chamam futuro), virará memória e será útil para que “acrescente e complete a experiência presente, enriquecendo-a com a experiência adquirida” e assim, a cada nova experiência acumulada por meio da memória, com mais acuidade vemos o mundo.

Por isso só é escritor quem foi antes (e continua a ser) um apaixonado leitor, porque nos parágrafos que compõem a obra não há originalidade nem genialidade milagrosa, mas antes memória de tudo aquilo que se leu, e que, misturados às experiências e percepções do mundo também retidas na mesma memória, se remontam em uma obra nova, mesmo que se no momento do devaneio criativo essa memória não seja consciente. Mas de todo modo, a memória estará no corpo e a escrita, dizia Gonçalo Tavares, é uma atividade física. Não há dons inatos, nenhuma sorte genética ou espiritual. Há o narrador de Benjamin, o homem que viveu e se espantou com o mundo e que volta para contar suas histórias.

García Márquez não perdeu sua sensibilidade ao mundo e é claro que não perdeu a memória como um todo. Mas a falência do corpo, a que inevitavelmente todos nós estamos fadados, por capricho (e graças à genética e a outros acasos) resolveu começar pelos neurônios. Não reconhece alguns amigos, a presença de seus corpos já não lhe causa reações em seu próprio corpo, talvez apenas sinta certa angústia, de quem tenta buscar nesse passado inacessível para a consciência alguma pista para se livrar do embaraço. Será que lembra que foi e é um grande escritor? Será que ainda tem idéias de histórias, anota em seu caderno algumas linhas para desenvolver mais tarde? Não sei. Mas me parece impossível que exista escrita sem memória. Ainda que permaneça a memória da técnica da escrita automatizada no corpo, de nada adiantará sem a memória da experiência.

Se diante do pelotão de fuzilamento o coronel Aureliano Buendía não se lembrasse, não haveria história. Da mesma forma, se Aureliano não tivesse ouvido, visto e vivido tudo aquilo que se passou em Macondo, não haveria muito do que se lembrar. No limite e simplificando é isto: viver e reter a vida, viver contando com o que se viveu. E depois misturar a outras experiências e agir. A escrita é um gesto muito antigo.

Além da aldeia
Bergson também falou muito sobre a relação que se mantém com a realidade, com os objetos que estão fora do corpo. Ele quis chegar a um meio-termo entre o materialismo e o idealismo, dizendo que o mundo a que temos acesso não está apenas em realidade fora de nós, nas coisas, nem apenas na representação dessas coisas. Mas está em relação, disso também depende o movimento do corpo pelo mundo. Se me aproximo de uma pintura, por exemplo, vejo nuances, cores, e até mesmo as pinceladas do pintor, o que não perceberia do outro lado da sala da galeria. Diz ele:

De fato, observo que a dimensão, a forma, a própria cor dos objetos exteriores se modificam conforme meu corpo se aproxima ou se afasta deles, que a força e os odores, a intensidade dos sons aumentam e diminuem com a distância, enfim, que essa própria distância representa sobretudo a medida na qual os corpos circundantes são assegurados, de algum modo, contra a ação imediata de meu corpo. À medida que meu horizonte se alarga, as imagens que me cercam parecem desenhar-se sobre um fundo mais uniforme e tornar-se indiferentes para mim. Quanto mais contraio esse horizonte, tanto mais os objetos que ele circunscreve se escalonam distintamente de acordo com a maior ou menor facilidade de meu corpo para tocá-los e movê-los. Eles devolvem portanto ao meu corpo, como faria um espelho, sua influência eventual; ordenam-se conforme os poderes crescentes e decrescentes de meu corpo.

Portanto, o corpo seria o centro e a partir dele o mundo se organizaria. Mas para que se tenha acesso às particularidades desse mundo é preciso que esse centro se mova, para que se tenha contato e se perceba o mundo é preciso movimento. E também tempo. Quanto mais tempo se detém diante de determinado objeto, em estado atento, mais esse objeto mexerá com o espírito (e a memória) de quem o observa, da mesma maneira que mostrará, num processo circular, simétrico e dependente, características mais profundas de si. É preciso que o narrador viaje, que explore lugares para além de sua aldeia. Mas também que se detenha por um instante diante do novo, que olhe o mundo com atenção. Para escrever é preciso movimento e também atenção.

A descoberta dos livros
De certa maneira, a literatura pode ser tomada como um exemplo material desse jogo proposto por Bergson. Ele não diz isso, mas não seria a literatura um exemplo de passado se enredando num presente, que só existe no curso do tempo? E mais, que só se realiza por meio da memória? Aqui, me afasto da criação e me aproximo do leitor.

Para Wolfgang Iser, um dos teóricos essenciais da chamada Teoria da Recepção alemã, também é importante essa aproximação entre a literatura e a memória. Em O ato da leitura, no capítulo que trata do que chamou de fenomenologia da leitura, Iser explica que um texto não é apreensível num só momento como um objeto dado, “que talvez não seja captado em sua totalidade, mas que se encontra a princípio como um todo diante da percepção”. Diferente de outros objetos do mundo, o texto, por sua natureza específica, só pode ser apreendido enquanto é construído por meio da leitura. O leitor, a quem Iser dá um papel ativo na criação literária, não está diante de um objeto no mundo, mas dentro dele, sua perspectiva se move no meio do objeto, ou seja, o texto. Assim, aquilo que acabou de ler o prepara e o acompanha na leitura do presente, assim como o mune de expectativas para o que virá na linha seguinte. Quando a expectativa é de alguma maneira frustrada ou surpreendida, o que fora lido se reorganiza. Também para ler é preciso memória e movimento.

Não são só os olhos, doentes ou não, que se movem acompanhando as linhas de um livro. Move-se a vida toda e a que ainda virá. Porque depois de um grande romance, depois de ler Cem anos de solidão, por exemplo, já não será aquele que seria sem tê-lo lido. E essa descoberta é libertadora. Em potência temos tantas vidas quanto os volumes de uma biblioteca. Quanto mais se lê, mais é possível enredar e reorganizar todas as vidas (a que foi, a que está sendo e a que virá). E quando se estiver em outra vigília, diante do mundo, prático ou não, também ele será outro. E o mesmo mundo será vários, mesmo que a área em que circula não passe de dois ou três quarteirões. Porque tudo é movimento, tudo é duração e descontinuidades, sempre haverá algo a mais que se veja. E, insisto, esse ponto novo percebido só agora impactará toda a vida que foi (mas que se mantém na memória do corpo), a que está sendo e a que virá.

Haverá o dia, é claro, que o corpo sucumbirá. E mesmo com muitas vidas ainda em potência (promessa ou ameaça), não haverá saúde, nem lucidez e o jogo com o mundo aos poucos vai se rarear. Nessa hora, podemos esperar que José Arcádio Buendía aprenda com os ciganos e consiga de fato inventar a máquina da memória para se lembrar de tudo o que queira e que essa invenção o deixe famoso e chegue a todos os cantos da Terra. Só assim teríamos a chance de nunca, mesmo diante de um pelotão de fuzilamento, deixar de lembrar.

Print Friendly