Dom Casmurro

julho 2014 / Dom Casmurro / Matusalém de Flores

Texto publicado na edição #172

Matusalém de Flores

O que é ruim morre sozinho. O bem dura e levita. Que os vivos se levantem e durmam os mortos, […]

> Por CARLOS NEJAR

Ilustração: Tiago Silva

Ilustração: Tiago Silva

O que é ruim morre sozinho. O bem dura e levita. Que os vivos se levantem e durmam os mortos, sem molestar os vivos. Inexistindo acrescentamento na roda da fortuna, no campo, não distante dali, os bois ruminam sossegados. E Matusalém tenta pegar a loucura, escondida atrás da infância. Não, não havia loucura que chegasse para agasalhar certa penúria que lhe vinha ao peito. Na lenta justiça, Matusalém sofria de não ter asas e não poderem elas crescer, salvo pelos olhos. O raio vai aonde tem mais luz. Foi quando Matusalém arrumou um companheiro que vagava pela rua, rafeiro abandonado, e tomou posse do negro cão. O animal tinha dentuça e uma marca de nascença no lombo. Estava largado sobre a rima de estrumes.

— Vais te chamar Crisóstomo — disse. Entendeste? Crisóstomo.

E Matusalém, apontando com o dedo, repetiu, imperioso: Crisóstomo! E o cão, animado, saltou e lhe lambeu os sapatos. E apertou o animal contra o peito, com voz embargada:

— És meu amigo! E tens alma boa!

Viu que a claridade latia, latia no cão.

Se o coração tem orelhas, segundo o padre Antônio Vieira, leitura absorvente de nosso herói, também o coração tem pés e olhos. E Matusalém falou, de orelhas na voz e no corpo inteiro:

— Serás meu escudeiro!

O cão, com o virar do focinho e do rabo, num ganido, deu a mais convincente resposta:

— O senhor é meu amo, e serei leal, e proverá o que eu necessitar.

E, para o saber dos leitores, nunca deixou de prover, pessoalmente, comida e água para ele. E como só o que está no texto está no mundo, não havia nada a discutir. Carecia? Entretanto, Matusalém quis afixar limites ao cão, o que não é estranhável, embora ambos palmilhassem a mesma palavra. E disse:

— Ao me ajudares, conterás teus ímpetos!

Pondo diante do assessor, esse Sancho de velozes patas, um preceito a ser obedecido.

Crisóstomo ergueu-se sobre a parte traseira do corpo, espichando o nariz, como se impelido por lépidas molas. Após, afagou no repuxo da língua o pé direito do dono, que reagiu acariciando a ondeante cabeça do animal. E esse, de satisfação, trocava as orelhas. Tudo neles se entendia, numa vista só, num enleio, quase suspiro. A amizade entre os dois prevaleceu de relance. Como um relâmpago que vem de um lado a outro. É que os olhos do cão não precisam de lentes para ver nos escuros da alma. E os de Matusalém eram complacentes com os animais e ásperos com os humanos. Isso pela clareira da fidelidade, maior naqueles do que nestes. Diria até que os dois se amaram de olhos comprazidos. E ficaram inseparáveis. Coincidindo, tal se estivessem no mesmo sonho. Cuidando Matusalém mais da fome de Crisóstomo do que de sua própria. Porque um cão pode chegar a ser homem e o homem nem sempre terá a grandeza do cão, que nasceu pequeno para morrer grande. Tão grande ao ser em aventura, extremo, capaz de morrer de amor. E, se alguém tomava qualquer gesto dúbio ou danoso para com Matusalém, ainda que sem culpa, Crisóstomo podia avançar com violência sem paralelo. Não sem esperar a ordem do amo, por ser mais pacificador do que sanguinário. A única falha era a de um temperamento intuitivo capaz de simpatizar ou não, abrangendo os verdadeiros sintomas no homem, tanto os benévolos quanto os maléficos. Discernia, sim, opondo defesas num ladrar prevenido. Quando o dono se debruçava no sofá da sala, a acarinhar sua orelha, o animal se comovia e lambia a mão de Matusalém. Se o dono estivesse com passageiro mau humor, o cão gania com modulação esquisita. E, se viesse à rua, captava o cheiro de bolor jacente nas sarjetas, o cheiro acre das grades de ferro nos muros e o cheiro vaporoso dos porões. Nada lhe escapava, sabendo até de antemão o retorno de seu dono para a casa, se não o acompanhasse. E, suspicaz, Crisóstomo reparou a existência de vários dessemelhantes. Uns com coleira, outros vagantes ao léu, sustentando-se com restos. Não havia igualdade entre os cães, nem entre as fidelidades que possuíam graus. O momento paradisíaco era quando, aos pés de Matusalém, roncava em abrangente sono. Se fosse desperto num susto, os músculos se contraíam sob o zumbir das moscas. O tapete era o exílio do cão e talvez o vindouro tapete do cão no homem. E Matusalém, diante das façanhas de Crisóstomo, lembrou-se, subitamente, da advertência de Nietzsche: “Receio que os animais considerem o homem como um ser da sua espécie, mas que perdeu da maneira mais perigosa a sã razão animal”. Devendo acreditar mais na civilização dos cães do que na outra, humana, capaz de soterrar sua própria civilização.

Mas as civilizações se encolhem — mais ainda no bueiro do destino — e Crisóstomo na calçada avistava, perto, o entardecer com as borboletas que brotavam das árvores, diante da casa de seu dono. Tal se o poente quisesse caçá-las no voejar tão célere, sem caçar o que move a história dos homens. E não reparou na presença de Sesínio, catador de lixo, que, abrutalhado, de ombros e braços rijos, cabeça pequena, desferiu um pontapé no lombo do cão, que virou, girando, rolando, desequilibrado no solo, pondo à mostra a língua úmida e escura e as aterradas pupilas. Crisóstomo não aceitou a agressão, não aceitaria nunca, e se atirou com os caninos na perna do mulato, que sentou, sangrando, deixando saltar borboletas da pele. E mais faria o cão, ganindo, pronto a novo assalto, se não escapulisse dali o malandro, correndo atrás dele as borboletas. Negro besouro era a noite.

Depois do pontapé, Crisóstomo cogitou ser o metódico e volúvel golpear com os pés semelhante ao coice dos cavalos. Cada coice, uma nova etapa no amor cívico de um pelo outro. Cada ocasião, o pontapé que faltava. Cada pontapé, a cilada do equilíbrio das espécies. E para outros donos, não o seu, era a insofismável leveza do ser. Cada povo se mede pela qualidade dos pontapés ou dos afagos nos animais. Mas Crisóstomo era um cão que só admitia para si o que era admissível aos demais. Detestava os privilégios e queria poder dormir feliz com sua consciência.

E o cão não desanimava no que os humanos chamam de princípios. Quando o cachorro Nero, da mesma quadra, magro, vetusto, quase murcho, metido a metafísico, falou-lhe num longo latido que todos estavam sujeitos à regressão e que o bem ou mal feitos em existência anterior repercutiam nesta, Crisóstomo riu e achou tal ideia desatinada. E replicou:

— Não somos reacionários da lembrança! A vida é cada vez!

Tem-se de reconhecer a perspicácia de Crisóstomo até nas ciências humanas, certa intuição canina e buliçosa de antecipação. Dentre os animais, além do corvo, pronto a bicar as presas ou detectar carcaças, Crisóstomo se precavia dos gatos. E ao que ninguém atentava, salvo o dono, era a sua capacidade de sorrir pelos olhos que raiavam e pela boca arquejante e a cauda que abanava. Precavia-se dos gatos, de contagioso mau humor. E, diferente dos felinos, o cão se prendia ao dono, enquanto aqueles se prendiam a casa e aos seus objetos. Quando um gato passava ou subia na árvore, miando com escárnio, enfatizando deter uma posição superior, Crisóstomo não se importava, certo de que cada um tem o mundo que escolhe. Só existe o que não ignoramos e o que nos ignora!

Matusalém, às vezes, junto ao seu cachorro, deixava emergir o grito que procede dos arcanos e se transformava, pelo instinto, no animal, e o cão, nele. E a partir dessa rendição vinha a entrega mútua. Matusalém, portanto, ditosamente se animalizava, e Crisóstomo ia, aos poucos, se humanizando. Ou tudo voltava à ordem natural das coisas, ou à relação, ainda que fraterna, entre o senhor da grei e o servo. E Crisóstomo não se aplicava em transgredir ou tirar partido desse afeto. A bondade do cão se diferenciava daquela de alguns humanos, que se devia manter à distância para ser bela e tolerável.

Se Crisóstomo possuía vocação filosófica, não compete desabonar o que visivelmente lhe transcendia o natural engenho canino, com a dúvida existencial socando entre os maxilares o tutano carnal da origem e do término das coisas, sem conseguir reprimir o arfante ladrar para as eclesiásticas ou excelsas redondezas da lua. E se nele havia sintomas a indicar que como cachorro, místico em estado civilizável, tenha pressentido o vulto de Deus — o que é privilégio de raros animais — ou farejado sua luz a subir nas narinas, era como se tivesse provado o inefável surto, pela beatitude com que fitava o dono, num halo de latir sublime. Consta — o que não ficou provado — que Crisóstomo sabia falar francês com sotaque da Sorbonne, mas isso é um enigma só decifrável entre cachorro e seu amo, considerando também a inviolável discrição. E o que o agudíssimo animal não inventava com os olhos inventava no ganido. Tal se alumiante raio gotejasse na contração do focinho. Mas o que a luz tende a exibir presa a si mesma?

Na cidade imóvel como um burro, de ancas largas e imutável, Crisóstomo na praça brincava com crianças que pulavam corda ou faziam roda, e ele as rodeava sob as árvores e latia para o relógio grande que rodava, e Matusalém o ladeava de longe, entendendo sua infantil alegria (talvez ele também se enternecesse de infância!). Depois, de olhos reluzindo, com fofa dureza, contemplava os sabiás e as pombas, melancólico, reflexivo. Ou, no bosque, quando o crepúsculo era uma clareira enfiada entre os arcaicos troncos, o cão farejava girassóis e sombras, ganindo. Crisóstomo era um homem que sabia ser cão.

Print Friendly