Ensaios e Resenhas

setembro 2017 / Ensaios e Resenhas / Maturidade transviada

Texto publicado na edição #209

Maturidade transviada

Em "O tribunal da quinta-feira", Michel Laub toca em feridas ainda não cicatrizadas e questões mal resolvidas

> Por Jonatan Silva

Michel Laub, autor de O Tribunal da Quinta-Feira

Michel Laub, autor de O Tribunal da Quinta-Feira

Durante uma entrevista concedida a Antônio Abujamra, o gaúcho Michel Laub comentou que escrevia melhor do que se relacionava com pessoas. A declaração, que pode soar contraditória — já que a literatura é também um exercício de convivência e existência —, parece refletir diretamente em seu trabalho mais recente, O tribuna da quinta-feira, uma espécie de periscópio da paranoia da onipresença virtual e daquilo que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman chama de tempos líquidos e de fragilidade dos relacionamentos modernos. Considerado por muitos como um herdeiro de Moacyr Scliar, rótulo que rejeita, Laub foi escolhido em 2012 pela revista inglesa Granta como um dos melhores escritores brasileiros com menos de 40 anos.

O ponto-chave de O tribunal da quinta-feira é o vazamento de e-mails trocados entre dois amigos de longa data. Nas mensagens, as conversas tratam exclusivamente de questões pessoais e íntimas e que, pela amizade, permitem uma linguagem peculiar e chula. O episódio é narrado por José Victor, um publicitário bem-sucedido, com um casamento às raias da bancarrota e que está envolvido com Dani, a estagiária. Walter, homossexual e soropositivo, é um sujeito pouco autoindulgente e que não perde a oportunidade de fazer galhofa sobre a sua condição. Tamanha intimidade e confidência foi o suficiente para que Teca, esposa do narrador, comandasse a exposição sumária, iniciada na noite de domingo e atingindo o ápice entre quarta e quinta-feira da mesma semana.

Ao mesmo tempo em que José Victor é uma vítima de seu tempo, é também uma espécie de bode expiatório da transparência entre a noção de público e privado. Como em A marca humana, de Philip Roth, a danação do personagem de Michel Laub é a descontextualização do discurso. Pela lógica de Foucault, a partir do momento que uma ideia é colocada no papel, passa a pertencer ao leitor e não somente a quem a escreveu. Teca, ainda que inconsciente disso, aproveita trechos polêmicos da conversação — como quando Walter afirma que vai se encontrar com alguém e que esta pode ser uma oportunidade para transmitir o vírus — para praticar sua vingança.

Nesse prisma, o autor faz de O tribunal da quinta-feira um romance sobre nuances e interpretações. As conversas entre José Victor e Walter são pautadas pela ironia e pelo sarcasmo, algo que parece fazer sentido apenas para os dois — como se aquela troca de impressões fosse uma fenda no tempo e no espaço, capaz de transportá-los e minimizar as agruras que estremecem os seus cotidianos.

Por meio de Walter, Laub escrutina a história da aids e sua percepção pelo homem médio brasileiro em meados da década de 1980. Explorando questões como sexualidade, identidade e identificação, o autor cria um painel interessante da evolução da doença e maneira como ela deixou de ser a “praga gay”. Com naturalidade e camaradagem, José Victor cria um mosaico dos namorados e amantes do amigo, antes e depois do diagnóstico, simultaneamente em que estabelece uma linha do tempo das celebridades mortas em decorrência do HIV — subtraindo da operação Jobriath, cantor de glam rock e uma das primeiras celebridades a assumir-se soropositiva e, claro, Renato Russo, porta-voz da “geração Coca-Cola”. 

Escombros
O tribunal da quinta-feira é também uma polaroide sobre a potência e a influência das redes sociais no cotidiano do homem médio. Ao contrário do que se imaginava inicialmente, a internet não é uma expansão virtual do mundo off-line, ao contrário, é um universo muito próprio e singular. Assim em Diário da queda (2011) e A maçã envenenada (2013), seus dois livros anteriores, Michel Laub trata de questões geracionais. No primeiro, talvez sua obra mais conhecida e difundida, o escritor aborda a passado, o presente e o futuro de uma família judia; enquanto no seguinte, explora a relação da música — usando o suicídio de Kurt Cobain como marca temporal — e cria um cenário idealizado da juventude entre o serviço militar obrigatório e os desejos de liberdade.

O tribunal da quinta-feira é uma montagem sobre o amadurecimento e sobre o conformismo. José Victor e Walter já não fazem rodeios em suas descrenças e desapegos sentimentais, se esgueiram entre os escombros de suas vidas para achar um pouco de luz — mas o que encontram é a escuridão total em uma tocha apagada carregada por Teca. Ao trazer à tona feridas que talvez não pareçam mais presentes na sociedade, Laub é audacioso ao defender que a arte não pode estar centrada nas convenções e no politicamente correto. A não ser por Bernardo Carvalho, a aids e seu histórico no Brasil não eram mais abordados pela literatura contemporânea e para Michel trazer a questão à tona é uma provocação e deve ser também uma preocupação da literatura. Consciente disso, refletir sobre as consequências e reações é um passo no processo de criação literário.

“São brigas que estou disposto a ter. Estou disposto a defender que é direito de um escritor escrever o que ele quer. Ele pode até sofrer todas as consequências depois. Não tiro de ninguém o direito de se ofender com aquilo, de odiar e tal. Mas estou bastante certo de que, se o escritor não tiver o direito de escrever o que ele quer, então acabou a literatura”, afirmou Laub ao jornalista Daniel de Mesquita Benevides para a revista Brasileiros.

O xeque-mate de toda a trama é o humor negro que escorre dos personagens. Como uma maneira de fugir à realidade destruída, José Victor e Walter, por exemplo, ainda estão presos à tradição das piadas de cunho racista, homofóbico e misógino que abundavam na televisão na década de 1980. A comunicação via e-mail e redes sociais é refém dos lugares-comuns de outros tempos. Ao colocar isso no texto, Laub confirma sua ousadia e pouco caso com a (auto)censura e os estereótipos.

Transgressão
Como em O gato diz adeus (2009), Laub cria uma narrativa memorialista e nostálgica, um processo doloroso a todos os envolvidos. O olhar para o passado — em um misto de contemplação e arrependimento — é sempre a força-motriz do universo que o escritor gaúcho desenvolve. Seu primeiro livro publicado, Não depois do que aconteceu (1998), fruto da oficina de escrita criativa de Luiz Antonio Assis Brasil e considerado pelo autor como apenas um exercício de ficção, já trazia um pouco dessa voz que se perpetuaria ao longo dos outros trabalhos, mas que ganhou corpo e movimento em Música anterior (2001).

A construção psicológica intrincada e multinível da literatura de Michel Laub remete imediatamente à matriz inglesa, principalmente, a Virginia Woolf e a Ian McEwan, embora não fuja à tradição saxã da narrativa menos experimental e mais linear. Para o escritor, o fazer literário é uma transgressão, uma ruptura com o mundo cotidiano e burocrático. “Sem a literatura a minha vida não teria a menor graça”, comenta em resposta a Abujamra durante entrevista em 2011.

O que se vê é que O tribunal da quinta-feira é uma reflexão poderosa sobre causas, efeitos e como o passado pode resistir a um futuro cada vez menos sólido.

 

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O tribunal da quinta-feira
Michel Laub
Companhia das Letras
183 págs.

 

 

O AUTOR
Michel Laub
Nasceu em Porto Alegre (RS), em 1973, foi editor-chefe da revista Bravo!, coordenador de publicações do Instituto Moreira Salles e colunista dos jornais Folha de S. Paulo e O Globo. É autor também dos romances Longe da água (2004) e O segundo tempo (2006). Seus livros foram publicados em 13 países e traduzidos em dez idiomas.

 

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